Por grande parte do século 20, a produtividade agrícola avançou rapidamente com o uso de máquinas, genética vegetal, fertilizantes e ferramentas químicas de proteção de cultivos. A Revolução Verde das décadas de 1950 e 1960 aumentou drasticamente os rendimentos e garantiu o abastecimento global de alimentos para uma população em rápido crescimento, transformando a agricultura e a pecuária em uma indústria orientada por escala.
Embora poderosas, essas soluções impuseram custos ecológicos e sociais, incluindo degradação da saúde do solo e das bacias hidrográficas, perda de biodiversidade, resistência de pragas e doenças a produtos químicos, consolidação de fazendas e crescente escrutínio de consumidores e reguladores em relação à segurança alimentar.
Nada disso diminui o papel essencial que os insumos agrícolas tradicionais desempenharam. Entre 1960 e 2000, em todos os países em desenvolvimento, a produtividade do trigo aumentou mais de 200%, a do milho subiu mais de 150% e a produção de arroz mais que dobrou, ganhos que foram fundamentais para alimentar o mundo.
Hoje, no entanto, a agricultura e pecuária enfrentam um novo ponto de inflexão. Muitas ferramentas de proteção de cultivos desenvolvidas ao longo dos últimos 50 anos estão perdendo eficácia à medida que a resistência se espalha, enquanto a variabilidade climática intensifica as pressões de pragas e doenças. Somente nos Estados Unidos, estima-se que a resistência a pesticidas custe aos agricultores cerca de US$ 1,5 bilhão por ano (R$ 7,5 bilhões na cotação atual), por causa de aplicações adicionais e perdas de produtividade.
Uma nova categoria de inovação agrícola surgiu nesse contexto: as biossoluções. Trata-se de produtos que utilizam organismos biológicos ou moléculas bioquímicas para melhorar a saúde, a proteção e a produtividade das culturas.
O que são biosoluções
As biosoluções abrangem uma diversidade de insumos agrícolas desenvolvidos para atuar com sistemas vivos de forma precisa e previsível. Incluem organismos microbianos vivos, compostos derivados de plantas e, cada vez mais, moléculas bioquímicas projetadas, como peptídeos, metabólitos ou agentes baseados em RNA. Em conjunto, representam uma mudança de intervenções químicas amplas e generalizadas para soluções direcionadas, orientadas por mecanismos e fundamentadas no entendimento biológico.
Ao longo das últimas décadas, o setor evoluiu por meio de três grandes gerações de inovação:
- Biológicos baseados em microrganismos
Os biológicos baseados em microrganismos dependiam do isolamento de micróbios naturais, como Bacillus, Trichoderma, Rhizobium e fungos micorrízicos, e de sua reaplicação em escala. Esses produtos, frequentemente classificados como “biológicos”, atuam suprimindo pragas e doenças (biocontrole) ou estimulando o crescimento das plantas e a tolerância ao estresse (bioestimulação). Exemplos incluem inoculantes microbianos e extratos vegetais como o óleo de neem.
Essas soluções de “primeira versão” apresentaram vantagens: prazos de desenvolvimento relativamente rápidos, alinhamento com processos naturais e percepção positiva por parte dos consumidores. No entanto, a variabilidade de desempenho tem sido um desafio persistente. A eficácia frequentemente depende da composição do solo, das condições ambientais e dos ecossistemas microbianos locais, tornando os resultados difíceis de prever para os agricultores e limitando a consistência do retorno sobre o investimento.
- Biocontrole e bioestimulação
O biocontrole e a bioestimulação passaram a ganhar foco conforme o entendimento científico evoluiu. As empresas começaram a se concentrar nos mecanismos por trás da atividade biológica, identificando os metabólitos ou processos específicos responsáveis pelos efeitos benéficos. Essas soluções ainda dependem de organismos vivos, mas são desenvolvidas com conhecimento mais aprofundado sobre seleção de cepas, produção de metabólitos, estabilidade de formulação e condições de aplicação.
Essa abordagem melhorou a confiabilidade e o desempenho, embora introduza maior complexidade regulatória e de desenvolvimento, à medida que os produtos passam a transitar entre os campos da biologia e da química.
- Soluções bioquímicas de precisão
Esta é a fronteira mais recente: moléculas precisamente definidas inspiradas ou derivadas de sistemas biológicos. Mais do que organismos vivos, essas tecnologias de “terceira versão” isolam, projetam ou sintetizam as próprias moléculas ativas, como peptídeos ou compostos baseados em RNA, permitindo mecanismos de ação altamente direcionados e desempenho consistente entre lotes.
Ao combinar conhecimento biológico com design em nível molecular, essas soluções buscam oferecer os benefícios ambientais das abordagens derivadas da natureza com a confiabilidade e previsibilidade esperadas dos insumos agrícolas modernos.
Por que a precisão importa para os agricultores
Para os produtores, a questão principal é simples: um produto entregará valor mensurável de forma confiável? Insumos biológicos anteriores frequentemente enfrentaram dificuldades de previsibilidade, o que contribuiu para o ceticismo no setor.
As soluções bioquímicas de precisão buscam resolver isso ao direcionar vias biológicas definidas e fornecer resultados consistentes e mensuráveis sob condições especificadas. Essa mudança, de efeitos biológicos variáveis para desempenho orientado por mecanismos, permite uma adoção mais segura e decisões mais claras sobre retorno do investimento.
A transparência e o posicionamento dos produtos também são essenciais. Promessas excessivas no passado criaram a percepção de que “natural” automaticamente significava eficaz, quando, na realidade, muitos produtos não entregaram resultados. O crescimento contínuo do setor depende de validação rigorosa, comunicação clara dos mecanismos e desempenho comprovado por dados que conquistem a confiança dos agricultores no longo prazo.
Dinâmica de mercado e investimento do setor
O investimento em biosoluções está acelerando em toda a indústria agrícola global. Grandes empresas de proteção de cultivos criaram divisões dedicadas a biológicos e biosoluções, refletindo tanto a demanda de mercado quanto a necessidade estratégica.
Diversas forças impulsionam esse movimento:
- Gestão de resistência: novos modos de ação são necessários para combater a crescente resistência aos produtos químicos tradicionais de proteção de cultivos.
- Demanda de consumidores e varejistas: a preferência crescente por alimentos com menor resíduo influencia decisões de compra na cadeia de suprimentos.
- Evolução regulatória: regulamentações ambientais e de saúde em várias regiões incentivam a adoção de tecnologias alternativas de proteção de cultivos.
A adoção já está aumentando. Pesquisas com produtores indicam uso crescente de produtos biológicos ou do tipo biosolução, enquanto varejistas agrícolas relatam planos de expandir significativamente suas ofertas nos próximos anos.
A tecnologia como aceleradora
Avanços em genômica, biologia computacional e inteligência artificial estão acelerando rapidamente o desenvolvimento de biosoluções.
Plataformas modernas de descoberta conseguem modelar interações moleculares, prever atividade biológica e projetar novos compostos com velocidade e precisão sem precedentes, enquanto testes de alto rendimento e análises avançadas podem reduzir os prazos de validação e melhorar as taxas de sucesso.
Em conjunto, essas capacidades estão transformando a inovação agrícola de um processo empírico para uma disciplina orientada por design, capaz de produzir soluções direcionadas com mecanismos definidos e desempenho previsível.
O caminho adiante
A agricultura está em um ponto de inflexão. As primeiras abordagens biológicas abriram caminho para insumos inspirados na biologia, enquanto os avanços na ciência molecular e nas plataformas digitais de descoberta estão possibilitando uma nova geração de biosoluções de precisão. A transição não se trata de substituir ferramentas existentes de forma imediata, mas de ampliar o conjunto de opções dos agricultores com soluções que atuem de maneira mais inteligente com os sistemas biológicos, atendendo aos padrões de confiabilidade exigidos pela agricultura moderna.
O sucesso dependerá de investimento científico contínuo, validação rigorosa em campo, comunicação transparente e educação dos agricultores. À medida que esses elementos se alinham, o resultado será uma nova classe de insumos agrícolas capaz de proporcionar ganhos consistentes de produtividade ao mesmo tempo em que apoia a sustentabilidade ambiental.
Este artigo é o primeiro de uma série que explora o crescimento, o impacto e os desafios das biosoluções agrícolas. No próximo artigo, discutirei como as biosoluções estão transformando a abordagem dos agricultores no manejo de culturas e o que isso significa para o futuro da agricultura.
Reportagem publica em forbes.com