A última semana foi agitada para Miley Cyrus. Vinte anos após “Hannah Montana” estrear no Disney Channel, a artista, hoje com 33 anos, retornou ao papel que a lançou à fama em um especial de aniversário lançado no Disney+ na última terça-feira (24).
Dois dias depois, recebeu o Prêmio Inovador no iHeartRadio Music Awards. “Quando a vitória não é o reconhecimento, mas sim fazer arte que toca os corações de pessoas que talvez eu nunca conheça, isso me traz um tipo de alegria profundamente significativa”, disse no discurso durante a cerimônia.
Vencedora do Grammy 2024 de Melhor Performance Pop Solo por “Flowers“, a cantora, que já integrou a lista Under 30 da Forbes, é a voz por trás de hits como “Party in The USA” e “Wrecking Ball” e de oito álbuns de estúdio que variam do rock psicodélico ao country-hip-hop.
Em 2024, tornou-se a artista mais jovem a receber o título de lenda da Disney, concedido a personalidades que tiveram impacto significativo no legado da empresa. Também é fundadora da ONG Happy Hippie Foundation para apoiar a juventude LGBTQ+ e em situação de risco, e investidora em startups, incluindo a FanMade, que ajuda a criar experiências para superfãs, e a empresa de produtos femininos Hers.
Em entrevista à Forbes USA em 2021, Miley refletiu sobre sua carreira, que começou em um papel homônimo na série “Hannah Montana”, aos 13 anos, e a colocou entre as principais estrelas da indústria musical de sua geração. “Uma coisa da qual me orgulho muito é ter começado antes de menstruar pela primeira vez”, diz. “E agora, já me apresentei no Carnegie Hall, no Madison Square Garden, introduzi Joan Jett no Hall da Fama do Rock and Roll — tudo isso menstruada. Isso nunca me impediu de ser uma mulher de negócios.”
Quando a maioria das estrelas fala sobre os pontos altos da carreira, elas não costumam apontar quais coincidiram com seu ciclo menstrual. Por outro lado, elas não são Miley Cyrus. Seus maiores fãs já conhecem a história de quando ela menstruou pela primeira vez, há cerca de 20 anos, enquanto se apresentava de calça branca no set de “Hannah Montana”. Ela compartilhou a história como uma forma de se conectar com seus seguidores — são mais de 200 milhões só no Instagram. O que poderia ser mais emblemático sobre crescer sob os holofotes do público?
A série do Disney Channel ajudou Miley a faturar US$ 134 milhões (cerca de R$ 670 milhões) até os 18 anos, segundo estimativas da Forbes. Mas isso também não a definiu.

Muito além da Disney
Assim como Madonna, uma de suas ídolas, Miley sabe como alavancar seu talento, sua inclinação para assumir riscos e sua persona pública para manter fãs, imprensa e executivos da indústria engajados. Para muitos millennials, as lembranças da artista nua no clipe de “Wrecking Ball” em 2013, ou se esfregando no cantor Robin Thicke de sutiã e calcinha de látex no Video Music Awards daquele ano, estão tão integradas às suas memórias quanto calças boca de sino, celulares flip e sintonizar no Disney Channel para assisti-la como Hannah Montana. A indignação certamente ajudou a chamar a atenção para o seu álbum “Bangerz“, que ganhou disco de platina triplo e rendeu à artista uma indicação ao Grammy.

Depois de ganhar milhões com o álbum, ela deixou as regras da sua gravadora de lado e lançou “Miley Cyrus & Her Dead Petz”. Em uma colaboração com o vocalista do Flaming Lips, Wayne Coyne, ela inicialmente publicou o álbum psicodélico direto no SoundCloud para os fãs ouvirem de graça. Em vez de ficar com uma fórmula vencedora, ela queria agitar as coisas. “Se eu sei que haverá uma recompensa maior ao assumir um risco maior, geralmente eu faço isso”, diz. “Faço isso com tudo — meus negócios, meus relacionamentos, com o amor, com a vida.”
Música no sangue
O que a move é um amor intrínseco pela música. Nascida em Nashville, filha do astro da música country Billy Ray Cyrus e da produtora Tish Cyrus, e tendo Dolly Parton como madrinha, Miley cresceu imersa na indústria musical.

Embora alguns críticos a rotulem como mais uma caçadora de publicidade do que uma cantora ou compositora, o produtor Mark Ronson a considera um talento raro, na mesma liga de outras cantoras com as quais ele já trabalhou, de Amy Winehouse a Lady Gaga. Ronson coescreveu e co-interpretou o que se tornou a música de platina tripla “Nothing Breaks Like a Heart” ao lado de Miley Cyrus. “Ela é tão brutal e descaradamente honesta sobre sua vida e, combinando isso com a voz dela, é por isso que tem milhões de pessoas que a adoram”, diz Ronson. “Todos os grandes, especialmente os realmente grandes, expõem sua dor para o mundo ver.”
Ela certamente compartilha sua dor. Já falou sobre se sentir explorada às vezes e é aberta sobre suas lutas contra a ansiedade, depressão e uso de álcool e drogas. Miley perdeu sua casa em Malibu em um incêndio florestal em 2018 e terminou seu curto casamento com o namorado de longa data Liam Hemsworth um ano depois. Dias após anunciar o término, ela foi fotografada beijando a atriz Kaitlynn Carter. Mais tarde, se declarou pansexual, atraída por pessoas independentemente do sexo ou da identidade de gênero.
Hoje em dia, Miley apresenta uma versão mais introspectiva e tranquila de si mesma, experimentando com a música e a filantropia. Causas queer, o deslocamento de pessoas e sua enorme plataforma a inspiraram a fundar a Happy Hippie Foundation em 2015, para promover educação, emprego e serviços de apoio a jovens sem-teto e LGBTQ+ em situação de risco. “As pessoas vão falar de mim: o que posso fazer com que falem que realmente faça a diferença?”, questiona. “Criar a Happy Hippie foi o momento de maior orgulho da minha carreira.”
“Fico feliz em ser todas as coisas que as pessoas precisam que eu seja. Desde que eu seja, primeiro, todas as coisas que eu preciso ser.”
Miley Cyrus
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com em 2021 e adaptada.