A Pixar Animation consolidou-se como o maior fenômeno de intersecção entre arte e tecnologia do Vale do Silício. Desde que Steve Jobs adquiriu a empresa por US$ 5 milhões em 1986 e a transformou em uma potência pública (com um IPO histórico em 1995), o estúdio definiu o padrão da computação gráfica. Hoje, sob o guarda-chuva da Disney, após uma aquisição de US$ 7,4 bilhões em 2006, a empresa enfrenta o desafio de manter sua “receita original” de inovação enquanto opera dentro de uma estrutura corporativa global que prioriza a previsibilidade financeira.
O próximo grande teste dessa balança artística é “Hoppers”, a nova aposta original do estúdio que, no Brasil, ganhou o nome de “Cara de Um, Focinho de Outro”, que estreia nesta semana. O filme, que narra a história de uma jovem que “transfere” sua consciência para um castor robótico, parece personificar a própria fase da Pixar em um mercado onde sequências e franquias (como Divertida Mente 2, que arrecadou mais de US$ 1,6 bilhão) dominam as bilheterias, Hoppers surge como um manifesto de “intencionalidade artística” contra a crescente onda de conteúdos gerados por algoritmos de IA.
Em entrevista exclusiva, Ivo Kos, brasileiro veterano com quase 30 anos de casa responsável pelas áreas de designer de objetos e efeitos visuais, que vivenciou a transição de uma empresa com alma de startup para uma gigante do entretenimento, detalha como a cultura moldada por Jobs resiste ao tempo e por que, apesar do hype do setor, a Inteligência Artificial ainda não conseguiu “sentar à mesa” dos criativos da Pixar. “Até agora, não conseguimos encontrar uma maneira de integrar a IA nos nossos processos de forma significativa. No meu trabalho, o impacto é zero. Não é por resistência, é porque não encontramos valor agregado”.
Se você fizer um filme com valores universais, conteúdo emocional e personagens fortes, ele será um sucesso.
Ivo Kos
Forbes Brasil – Ivo, você entrou na Pixar em 1999, uma fase de transição meteórica. Como era a atmosfera daquela “startup” liderada por Steve Jobs em comparação ao modelo de campus que vemos hoje em gigantes como Google e Meta?
Ivo – A evolução maior que tive na Pixar foi uma mudança de cultura. Quando começamos, éramos uma empresa pequena e a visão era totalmente a do Steve Jobs. O prédio original em Richmond cabia umas 300 ou 400 pessoas. Éramos todos jovens e entusiasmados; era uma vibe de universidade. Quando o Steve visualizou o campus atual, ele imaginou exatamente isso: um ambiente universitário com campo de futebol, piscina e estúdios. A ideia era que as pessoas passassem o dia todo aqui, se divertindo e interagindo socialmente. Tudo o que veio depois com Google e Meta já estava nessa visão original dele.
FB – O campus da Pixar é famoso pelo design que estimula a colisão de ideias. O que ainda resta da “mão” de Jobs nos detalhes físicos e na rotina criativa?
Ivo – Este prédio é do Steve Jobs. Ele tinha uma visão obsessiva. Por exemplo, ele mandava erguer protótipos de paredes de tijolos lá fora, com cores e arranjos diferentes, e se não estivesse exatamente como ele queria, mandava derrubar e fazer de novo até achar a combinação específica. O lobby foi pensado para que as pessoas, ao virem almoçar, estivessem em um ambiente propício para continuar sendo criativas. Você está relaxado e, por isso, começa a falar de trabalho e resolve problemas que não conseguiria resolver estressado. Até a piscina foi projeto dele: sem químicos e com oxigenação natural, como um rio.
FB – A integração com a Disney trouxe um “colchão” financeiro, mas também uma estrutura mais rígida. Como essa mudança impactou a gestão de risco dos filmes?
Ivo – Com o tempo, a empresa se tornou mais profissional e o gerenciamento mais controlado. Isso é bom para a estabilidade, mas você perde um pouco da autenticidade. Antes da Disney, se um filme fosse um fracasso comercial, não tínhamos reserva; a empresa poderia fechar. Com a Disney, estamos muito mais seguros. Se um filme não for bem, passamos para o próximo. No entanto, hoje existe uma discussão interna: nossos filmes estão expressando as ideias que queremos ou estão sendo apenas comerciais? Há um movimento para tentar resgatar aquela relevância dos primeiros filmes, voltando às origens em vez de seguir apenas a cultura corporativa.
A Pixar tem interesse em IA, como toda empresa de tecnologia, e temos um departamento pesquisando isso. Mas, até agora, não conseguimos encontrar uma maneira de integrar a IA nos nossos processos de forma significativa.
Ivo Kos
FB – No cenário atual de tecnologia, o debate sobre Inteligência Artificial é inevitável. Como a Pixar, que sempre foi pioneira tecnológica, está lidando com as ferramentas sintéticas?
Ivo – A Pixar tem interesse em IA, como toda empresa de tecnologia, e temos um departamento pesquisando isso. Mas, até agora, não conseguimos encontrar uma maneira de integrar a IA nos nossos processos de forma significativa. No meu trabalho, o impacto é zero. Não é por resistência, é porque não encontramos valor agregado. Para a grande maioria das pessoas na área criativa e de animação, nada mudou. A produção artesanal, como vemos em projetos como Hoppers, ainda depende dessa intencionalidade que a máquina não replica.
FB – Para os jovens que temem que a IA “roube” seus empregos criativos, qual seria o seu conselho baseado nessas quase três décadas de evolução?
Ivo – Eu diria para terem calma com essa euforia. O que a gente precisa manter é a paixão e a busca pelo melhor trabalho. As pessoas aqui são muito ambiciosas artisticamente. Se você fizer um filme com valores universais, conteúdo emocional e personagens fortes, ele será um sucesso. É desafiador criar algo original com essas características, mas é o que nos diferencia de qualquer processo automatizado.