Em meio à corrida global da inteligência artificial, poucos nomes tiveram uma ascensão meteórica como a de Daniela Amodei e seu irmão, Dario Amodei, graças ao sucesso de sua empresa, a Anthropic.
Cofundadora e presidente da companhia, Daniela se tornou uma das mulheres mais poderosas do mundo ao apostar em um caminho que, até pouco tempo atrás, parecia contraintuitivo no Vale do Silício: colocar a segurança no centro do negócio. “Minha carreira tem sido dedicada à ideia de que é possível construir um futuro mais gentil e mais promissor. E eu ainda acredito nisso”, escreveu em uma publicação no LinkedIn.
A prova mais recente disso veio na última semana, quando a empresa se recusou a fechar um acordo com o governo dos Estados Unidos, alegando questões éticas. O presidente dos EUA, Donald Trump, pressionava a Anthropic a retirar mecanismos de segurança de seus produtos. Em resposta, o CEO Dario Amodei reforçou suas restrições e disse que a empresa “não pode, em sã consciência, ceder” ao pedido do Pentágono para remover suas proteções e permitir “qualquer uso legal” de seus sistemas.
Trump ordenou que as agências governamentais parassem de usar a tecnologia da Anthropic, criadora do modelo Claude, rival do ChatGPT. Logo depois, Sam Altman, CEO da OpenAI, anunciou um acordo com o Departamento de Defesa americano.
Claude dispara e fica fora do ar
Os irmãos conquistaram a antipatia de Trump, mas nunca estiveram tão em alta. Depois de ser banido por Trump, o Claude, modelo de IA da Anthropic, saltou para o 1º lugar no ranking da Apple dos aplicativos gratuitos mais populares nos EUA da Apple, à frente de ChatGPT e Gemini.
A “demanda sem precedentes” fez o app ficar temporariamente fora do ar na segunda-feira (2). Funcionários de gigantes de tecnologia como Google, Microsoft e Amazon organizaram uma carta aberta pedindo que suas empresas adotassem compromissos semelhantes aos da Anthropic. A mobilização ganhou tração também fora do setor: a cantora Katy Perry publicou nas redes uma captura de tela indicando a assinatura do plano anual Pro do Claude, com a legenda “feito”.
No último mês, cinco anos após sua fundação (janeiro de 2021), a Anthropic anunciou ter levantado US$ 30 bilhões (R$ 171 bilhões), com valuation de US$ 380 bilhões (R$ 2,2 trilhões), acima dos US$ 183 bilhões (R$ 1 trilhão) registrados em setembro. O movimento fez com que a fortuna de Daniela e dos outros cofundadores dobrasse, alcançando cerca de US$ 7 bilhões (R$ 39,9 bilhões), segundo estimativas da Forbes.
Antes da valorização recente, a empresária de 39 anos já ocupava a 28ª posição entre as Mulheres Self-Made Mais Ricas dos Estados Unidos no ranking da Forbes de 2025. Também figura na lista das Mulheres Mais Poderosas do Mundo, na 73ª posição.
Daniela Amodei: da literatura inglesa à liderança em IA
A trajetória de Daniela Amodei foge do roteiro tradicional do Vale do Silício. Formada em literatura inglesa pela Universidade da Califórnia, onde se graduou com distinção máxima, iniciou a carreira longe do universo da tecnologia, atuando em políticas públicas e desenvolvimento internacional.
A virada veio em 2013, quando ingressou na fintech Stripe como uma das primeiras funcionárias. Contratada como recrutadora, ajudou a montar os primeiros times da empresa e, ao longo dos anos, migrou para a área de risco, chegando ao cargo de gerente.
Em 2018, Amodei se juntou à OpenAI, onde rapidamente assumiu posições de liderança. Atuou como gerente de engenharia, vice-presidente de pessoas e, posteriormente, vice-presidente de segurança e políticas.
Nesse período, trabalhou diretamente com sistemas avançados de inteligência artificial e liderou iniciativas para garantir que esses modelos fossem desenvolvidos de forma responsável — uma pauta que ganhava urgência à medida que a tecnologia evoluía.
Em dezembro de 2020, deixou a OpenAI ao lado do irmão, Dario, e de outros pesquisadores. O grupo compartilhava uma visão comum: criar uma empresa capaz de avançar a inteligência artificial sem abrir mão da segurança.
O nascimento da Anthropic
A Anthropic foi fundada em 2021 com um posicionamento claro: desenvolver sistemas de IA em larga escala com foco em segurança, alinhamento e impacto social.
Estruturada como uma corporação de benefício público, a empresa se compromete formalmente com objetivos que vão além do lucro. “Há cinco anos, quando fundamos a Anthropic, acreditávamos que segurança e sucesso comercial não estavam em conflito. Que desenvolver IA de forma responsável não era um obstáculo para construir um grande negócio, mas sim a base para isso”, escreveu Daniela no LinkedIn.
A estratégia rapidamente atraiu investidores de peso. A companhia firmou parcerias com a Alphabet, controladora do Google, e com a Amazon, consolidando-se como uma das principais concorrentes no setor de inteligência artificial.