Adriano Machado/Reuters
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Na última ata do Comitê de Política Monetária (Copom), publicada nesta terça-feira (5), o Banco Central (BC) apontou que a política tarifária dos Estados Unidos deixa o cenário ainda mais incerto e adverso para o Brasil. A autarquia ainda ressaltou que continuará atuando focada em mecanismos de transmissão do ambiente externo sobre a inflação local.
“A elevação por parte dos Estados Unidos das tarifas comerciais para o Brasil tem impactos setoriais relevantes e impactos agregados ainda incertos a depender de como se encaminharão os próximos passos da negociação e a percepção de risco inerente ao processo”, disse o BC no documento, reforçando que acompanha o tema com atenção.
O governo do presidente americano, Donald Trump, formalizou na semana passada a imposição de tarifa de importação de 50% sobre produtos brasileiros a partir desta quarta-feira (6), alegando, entre outros pontos, que o ex-presidente Jair Bolsonaro é perseguido pelo Judiciário.
Na ata, o BC afirmou que os vetores inflacionários seguem adversos, com pressões no mercado de trabalho, expectativas de mercado para a inflação desancoradas e projeções de preços elevadas, além de uma atividade resiliente, apesar de uma “certa moderação” de crescimento.
“Na avaliação da autarquia monetária, o mercado de crédito, mais sensível às condições financeiras do ciclo de aperto monetário, tem apresentado uma moderação mais nítida. O mercado de trabalho, porém, segue dinâmico, tendo “dado bastante suporte ao consumo e à renda”.
O comitê reforçou que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta”, disse. A autoridade monetária disse ainda que uma política fiscal que atue de forma contracíclica e contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta.”
Nesse ambiente, a autarquia enfatizou a necessidade de uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado. A política fiscal tem um impacto de curto prazo, majoritariamente por meio de estímulo à demanda agregada, e uma dimensão mais estrutural, que tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros”, afirmou.
Na última quarta (30), o BC decidiu interromper o ciclo de alta nos juros básicos ao manter a Selic em 15% ao ano e ressaltou que antecipa uma manutenção da taxa por período longo, pregando cautela diante de incertezas geradas pela tarifa dos EUA sobre produtos brasileiros.
De acordo com o documento, além da atividade econômica, o BC também seguirá acompanhando o processo de repasse do câmbio para a inflação, após período de maior volatilidade, e as expectativas de mercado para os preços, fator tratado com desconforto por todos os membros da diretoria.
Ainda em relação às expectativas, a autarquia declarou que houve uma queda na medição para períodos mais curtos, mas o mesmo não ocorreu de forma relevante em prazos longos, “ainda que as medidas de inflação implícita extraídas de ativos financeiros tenham se reduzido”.
“O Comitê reforçou e renovou seu compromisso com a reancoragem das expectativas e com a condução de uma política monetária que enseje tal movimento”, apontou.
Na avaliação de André Valério, economista sênior do Inter, a ata reafirma o cenário de elevada incerteza, com preocupações relacionadas à desancoragem das expectativas e à política fiscal, mas sem deixar claro o que seria um gatilho para o eventual início do ciclo de cortes de juros.
“Acreditamos que uma desaceleração mais intensa da atividade, seguida de enfraquecimento do mercado de trabalho, seja pré-condição para o início do ciclo de cortes”, afirmou, ao prever um primeiro corte de 0,50 ponto percentual na Selic em dezembro.