Região de Irecê pode voltar à Câmara dos Deputados após 30 anos
Por Artur Antunes
O ano era 1994. Em um movimento que misturava ousadia e leitura de cenário, o então ex-prefeito de Ibipeba, Beto Lelis, decidiu disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Não teve uma votação extraordinária, mas alcançou o suficiente para conquistar o mandato e colocar, pela última vez, um representante nato da região de Irecê no Congresso Nacional.
O início foi promissor. Beto ganhou projeção, concedeu entrevistas em rede nacional, como no programa de Jô Soares, participou de agendas internacionais e passou a integrar o debate político em um patamar até então pouco ocupado por lideranças do território. Mas, dois anos depois, em 1996, tomou uma decisão que mudaria o rumo da representatividade regional: abriu mão do mandato de deputado federal para disputar a Prefeitura de Irecê. Venceu e governou o município por dois mandatos.
Desde então, a região nunca mais conseguiu eleger um deputado federal próprio.
Ao longo dessas três décadas, nomes não faltaram. O próprio Beto voltou a tentar. O ex-prefeito de Irecê Luizinho Sobral também entrou na disputa em diferentes momentos. Outras lideranças regionais, como Militão, de Lapão, Dr Edson de Ibititá e Adelmo Dourado, conhecido em toda a região, buscaram viabilizar candidaturas. Todos esbarraram no mesmo obstáculo: a incapacidade de consolidar um projeto regional capaz de romper a lógica eleitoral vigente.
E é justamente aí que reside o ponto central da análise. Como uma região com densidade eleitoral significativa, forte economicamente e politicamente ativa, permanece há mais de 30 anos sem representação na Câmara dos Deputados?
As explicações são diversas, mas convergem em um mesmo eixo: fragmentação política e pragmatismo institucional. Prefeitos e lideranças locais, em sua maioria, optam por apoiar deputados já eleitos de outras regiões. A lógica é clara: garantir emendas, manter canais diretos com Brasília e assegurar resultados imediatos durante os quatro anos de mandato. Esse movimento, embora funcional no curto prazo, inviabiliza a construção de um nome local competitivo a médio e longo prazo.
O resultado é um ciclo vicioso. Sem apoio estruturado, candidaturas da região não atingem a votação necessária. Sem vitória, o território segue dependente de representantes externos.
Agora, três décadas depois, um novo sentimento começa a emergir. Um discurso de pertencimento volta a ganhar força entre lideranças e eleitores. A percepção de que a região tem potencial não apenas para eleger um, mas até mais de um deputado federal, passa a ocupar o centro do debate político.
Nesse cenário, surge como possibilidade concreta o nome do ex-prefeito de Irecê, Elmo Vaz. Com trajetória consolidada, Elmo reúne credenciais que o colocam em posição diferenciada na disputa. Foi prefeito por dois mandatos, deixou a gestão com altos índices de aprovação e conseguiu eleger seu sucessor, Murilo Franca. Além disso, ocupou a presidência da Codevasf, um dos cargos mais estratégicos já exercidos por um representante da região em âmbito federal, durante o governo da presidente Dilma Rousseff.
Com trânsito político nas esferas estadual e nacional, Elmo filiou-se ao Avante, partido que na Bahia é liderado por Ronaldo Carletto e que atualmente possui duas cadeiras na Câmara dos Deputados, ocupadas por Neto Carletto e Pastor Sargento Isidório. A expectativa da legenda é ampliar sua bancada para três ou quatro parlamentares nas eleições de outubro, cenário em que Elmo aparece como um dos nomes competitivos dentro dessa projeção.
O desafio, no entanto, permanece o mesmo que se arrasta há 30 anos: a capacidade de unificação regional.
Mais do que nomes ou partidos, a eleição deste ano pode se transformar em um teste político para o território de Irecê. De um lado, o discurso do pertencimento, da identidade e da necessidade de representação própria. Do outro, a prática já consolidada de apoio a candidaturas externas, frequentemente impulsionadas por promessas e compromissos que se renovam a cada ciclo eleitoral.
Resta saber qual dessas forças prevalecerá.
Se a região conseguirá transformar potencial em voto e discurso em unidade, ou se continuará refém de uma dinâmica que, há três décadas, impede Irecê e seu território de ocupar, com protagonismo, um espaço que, pelo tamanho e relevância, já poderia ser seu.
Foto: Giovane Vilela