A ForbesLife Fashion conversou com seis mulheres que estão mudando a cara do universo artístico no Brasil. Em diferentes frentes, elas investem tempo e atenção em educação e acesso para que mais pessoas possam se conectar com artistas, obras e instituições de maneira orgânica e convidativa.
Andrea Pinheiro e Maguy Etlin
Presidente e vice-presidente da Fundação Bienal
Após serem eleitas (e reeleitas) para a gestão do biênio da Fundação Bienal, elas fizeram a mostra itinerante da 35ª Bienal de São Paulo (2023) chegar a 11 cidades no país (um recorde), com uma participação expressiva do Brasil na 60ª Bienal de Veneza e na 19ª Bienal de Arquitetura de Veneza. Ainda criaram um comitê para as escolhas curatoriais, encabeçaram o projeto de melhorias do prédio no Parque Ibirapuera e se aproximaram de novos patrocinadores master. Agora, o foco cresce da paixão mútua: o educativo.
“Brilha os nossos olhos. Um dos objetivos principais da Bienal é a democratização da arte, e a formação de público é a porta de entrada para isso. A cultura permite às pessoas saírem do dia a dia delas e acessarem o lúdico, a criatividade, a imaginação, algo essencial desde a infância. Isso nos permite formar futuros artistas, curadores e espectadores”, afirma Andrea.
Maguy chama a atenção para a escolha de estender o tempo de visitação deste ano em um mês, abraçando datas de férias coletivas nas escolas. “Estamos em busca de mais parcerias para poder aumentar esse acesso para as crianças. Queremos continuar o legado que vem desde a primeira Bienal, em 1951.”
A expertise de mais de 30 anos em alta liderança da presidente, aliada à veia inovadora e de gestão de projeto de sua vice, forma uma dupla e tanto para a fundação. Outro ponto de atenção é o comitê internacional, que funciona como embaixador da Bienal fora do Brasil.
“A cada edição, vemos a consolidação de um público que se interessa por visitar a mostra, entre pessoas físicas, museus e instituições de ensino. Isso abre espaço para novos grupos de fora utilizarem nossos arquivos para pesquisa acadêmica”, comenta Maguy, que, desde 2019, atua como membro do Conselho de Administração da Bienal, à frente do comitê.
Elizabeth Machado & Daniela Villela
Presidente e vice-presidente do MAM-SP

Com a sede do museu temporariamente fechada por conta de reformas na marquise do Parque Ibirapuera desde 2024, o Museu de Arte Moderna de São Paulo tem tido um momento diferente. Depois de terem recebido 90 mil visitantes no 38º Panorama da Arte Brasileira, intitulado Mil Graus, a equipe precisou aproveitar o período para inovar e realizar coisas fora do prédio tradicional.
“Foram mais de 70 mil volumes da nossa biblioteca e 5 mil obras reorganizadas. Nos atrapalhou por um lado, mas abriu portas para nos aproximarmos de outras instituições culturais, com o acolhimento da Bienal e do MAC [Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo]”, conta Elizabeth Machado, que assumiu a presidência do MAM em 2021.
Além das citadas, também entraram nessa leva de bons relacionamentos o Sesc Vila Mariana, o Sesi Fiesp e o Sesc Campinas – este último abrigará o Panorama. Outra saída perspicaz foi enriquecer os projetos digitais, com curadoria e exposições em ambientes 3D, imaginadas pelos curadores da instituição.
“São podcasts, visitas em ateliês, colaborações com a Hang Loose, Minecraft…”, enumera Elizabeth. A collab com a marca de roupas foi um sucesso e trouxe do imaginário dos anos 1990 possibilidades de colocar as obras de arte na rua – e no guarda-roupa das pessoas.
“Cada desenvolvimento surge de acordo com o que o museu se propõe a fazer artisticamente. Não é nada forçado, é uma constante atenção com a programação artística e como estamos pensando nela, nos conectando com quem pode agregar para a reflexão e pensamento. É uma sinergia.”
Daniela Villela, vice-presidente desde 2019, concorda que tudo o que o museu realiza precisa fazer parte de um contexto. “Não é porque fez sentido com o Panorama que terá o mesmo efeito na próxima exposição. Por isso, estamos sempre em busca de outras parcerias.”
Outro pilar de atenção para a gestão é o educativo, que caminha lado a lado com a curadoria. “Isso auxilia no preparo dos educadores para receber o público e também a treinar profissionais de fora, que estarão em contato com as nossas exposições [dentro do plano de parcerias citado]”, explica Daniela, sobre o programa premiado, dividido em cinco frentes de atuação: programa de visitação, igual diferente, família MAM, contatos com a arte e domingo MAM.
“É uma formação mais ampla sobre arte, que nos permite estar mais próximos do público.”
Paula Azevedo
Diretora-presidente do Inhotim

Antes de se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora-presidente do maior museu a céu aberto da América Latina, em 2024, Paula Azevedo teve uma carreira promissora em outras instituições do meio e também em gestão de coleções privadas.
Entre 2012 e 2017, atuou como coordenadora do núcleo contemporâneo do MAM de São Paulo, e depois assumiu a diretoria do museu. De lá, foi para o Instituto de Arte Contemporânea (IAC); na sequência, para o Instituto Tomie Ohtake, até chegar ao Inhotim, em 2022, como vice-presidente.
“O protagonismo feminino é muito importante diante de um histórico de museus ainda pautado por figuras masculinas. E isso tem mudado; essa presença vem se colocando com bastante força, impactando não só os desafios, mas as equipes em si”, diz.
A governança passou por uma reformulação, com um conselho deliberativo formado por membros de diferentes áreas da sociedade civil. Depois do primeiro ano de gestão, marcado por entendimentos profundos da missão, da visão e dos valores do Inhotim, Paula está focada em ações para as três frentes de atuação: arte, natureza e educação.
“São mais de 20 galerias em um espaço expositivo incomparável, com jardim botânico, parque e museu. São 144 hectares, 58 edificações, 500 colaboradores, para citar alguns números. É uma operação complexa, tanto no âmbito da programação quanto no território em que estamos inseridos”, comenta, enfatizando o histórico da cidade de Brumadinho.
Já foi possível presenciar alguns dos frutos desse novo olhar, com nomes expressivos como Grada Kilomba, Paulo Nazareth, Pipilotti Rist, Rebeca Carapiá e Rivane Neuenschwander, além de um festival de música proprietário e a quarta edição do projeto Anoitecer, para arrecadação de fundos para a instituição em parceria com a Gucci. Sem contar na celebração dos 10 anos da Galeria Claudia Anduja, revisitada com obras dos artistas indígenas Denilson Baniwa, Paulo Desana, Edgar Kanaykõ, UÝRA e Elvira Espejo.
“Estamos inseridos em dois dos biomas mais importantes do país; queremos falar de natureza também, em diferentes ramificações.”
Pollyanna Quintela
Curadora na Pinacoteca

Nascida no subúrbio do Rio de Janeiro, Pollyanna Quintela cresceu distante da área cultural e das instituições, mas descobriu o gosto pela arte quando decidiu fazer teatro ainda na adolescência, o que a influenciou na escolha pelo bacharelado em história da arte anos depois.
“Ali, entendi que tinha um mundo para mim.” Buscou formação de repertório, pesquisou referências, aventurou-se em diversas frentes de atuação na área, desde a pesquisa até a comunicação com o público visitante dos museus.
“A curadoria surgiu como uma maneira de estar perto dos ateliês e dos artistas, uma espécie de corpo a corpo com a arte”, conta ela, que se especializou no moderno e no contemporâneo.
Desde então, já passou pelo educativo e pela assistência de curadoria do Museu de Arte do Rio (MAR), testou formatos independentes, experimentou linguagens, foi assistente de Luisa Duarte nas montagens de exposições sobre Tunga e Adriana Varejão, e fazia ponte aérea em São Paulo por conta de oportunidades no Sesc Pompeia.
Ali, assinou a curadoria das exposições FARSA – Língua, Fratura, Ficção: Brasil-Portugal (2020/2021) e Flávio de Carvalho Experimental (2022/2023). Em paralelo, investiu em textos colaborativos para veículos especializados e jornais diários do país.
“A escrita é uma maneira de manter a elaboração em dia, como uma reflexão aprofundada.” Não à toa, ela pesquisou Mário Pedrosa no mestrado na tentativa de entender a crítica de arte no Brasil – e como há uma fragilidade nesse meio.
A mudança oficial para a capital paulista veio em 2022, quando passou no processo da Pinacoteca e se tornou uma das curadoras do museu. “Foi em um momento de renovação no quadro de curadores, junto com a inauguração da Pina Contemporânea e a consolidação da gestão do Jochen [Volz, diretor-geral]”, relembra.
“Ter nas mãos o maior acervo aberto de arte brasileira nos enche os olhos. É uma fonte inesgotável de pesquisa.” O primeiro projeto foi logo a sensível exposição retrospectiva da obra de Lenora de Barros, que saiu do local de refém da poesia concreta propondo um olhar novo para a interseção entre corpo e linguagem, tão inerente às investigações da artista.
De lá para cá, participou também das mostras sobre Lygia Clark e Renata Lucas, esta última ocupando o último andar da Pina Estação. Em 2025, a instituição celebrou 120 anos, com desafios que foram desde a narrativa institucional até a internacionalização da programação, cada vez mais diversa e maior.
“Cada curador tem a sua pesquisa, vamos somando à vocação da Pina.” Considerando que a atenção é um capital disputado na atualidade, Pollyanna afirma que é sempre essencial pensar no grande público, sem nenhuma arrogância.
“Existem sábados em que circulam mais de 10 mil pessoas no museu. Os museus nunca foram tão visitados, mas, por outro lado, como é possível acrescentar uma camada para além do visual? Como sustentar a densidade, as perguntas sem respostas que a arte suscita, um silêncio possível, a frustração? É papel da arte e da experimentação da linguagem lidar com a opacidade, para a qual não temos tanta resposta, e isso ajuda a enxergar humanidade em nós mesmos.”