A Raízen, joint venture entre a Shell e o grupo Cosan controlado por Rubens Ometto, protocolou na terça-feira (10/03) um pedido de recuperação extrajudicial (RE) junto ao Judiciário, confirmada na manhã desta quarta. O processo arrola dívidas concursais de R$ 65 bilhões, o maior volume já registrado em um processo desse tipo no Brasil. A companhia obteve adesão de credores que respondem por mais de 40% da dívida total antes de protocolar o pedido.
O acordo estabelece um período de standstill de 90 dias, durante o qual o pagamento de juros e do principal da dívida fica suspenso. Ao longo desse prazo, a Raízen e seus credores negociarão um plano definitivo de reestruturação financeira.
O mecanismo de recuperação extrajudicial, previsto na legislação brasileira, permite que a empresa selecione um grupo de credores para fechar um acordo e depois obter sua homologação pelo Judiciário, diferentemente da recuperação judicial, que envolve a totalidade das dívidas.
A RE suspende apenas o serviço das dívidas financeiras. Os pagamentos a fornecedores, funcionários e demais parceiros operacionais continuam normalmente, segundo os termos do acordo. A companhia afirmou em comunicado ao mercado que “continuará operando normalmente” e que as medidas adotadas “não impactarão seus clientes, fornecedores, revendedores e outros parceiros de negócios, essenciais para a sua operação”.
A estratégia visa preservar caixa especialmente na entrada da safra de cana-de-açúcar, período que exige maior capital de giro..Ao final de dezembro de 2025, a Raízen registrava R$ 17,3 bilhões em caixa. Os bancos respondem por cerca de metade da dívida concursal; a outra metade está distribuída entre bondholders, detentores de CRAs e debenturistas.
Como parte do plano, os acionistas controladores comprometeram aportes de R$ 4 bilhões. A Shell contribuirá com R$ 3,5 bilhões, enquanto os R$ 500 milhões restantes serão aportados por um veículo controlado pela Aguassanta Investimentos, da família de Rubens Ometto. O plano de reestruturação pode contemplar ainda a conversão de parte da dívida em ações, a extensão dos prazos de vencimento e a venda de ativos não estratégicos, segundo a Bloomberg. A Moody’s rebaixou o rating da companhia de Caa1 para Caa3, com perspectiva negativa, no mesmo dia do protocolo.
A trajetória da crise
A Raízen nasceu em 2011 da parceria entre Shell e Cosan e se tornou a maior produtora mundial de etanol de cana-de-açúcar. A partir de 2016, passou a financiar com dívida projetos de longo prazo, incluindo investimentos em etanol de segunda geração (E2G) e em outras áreas fora do negócio central. Com alavancagem alta, a estratégia mostrou limites quando a Selic voltou a subir.
Os números mostram a deterioração. Em 2021/2022, a Raízen registrou lucro líquido de R$ 3 bilhões com dívida líquida de R$ 13,8 bilhões, equivalente a 1,3 vez o Ebitda. No encerramento do último exercício fiscal, a dívida líquida total chegou a R$ 55,3 bilhões, alta de 43% em relação ao ano anterior, com alavancagem de 5,3 vezes o Ebitda, ante 3 vezes no período precedente.
No terceiro trimestre do ano-safra 2025/26, a empresa apresentou prejuízo líquido de R$ 15,6 bilhões, resultado seis vezes superior ao do mesmo período do ciclo anterior. No acumulado dos nove primeiros meses, o prejuízo chegou a R$ 19,8 bilhões.
Em fato relevante registrado na CVM em 4 de março, a companhia já havia admitido que avaliava a implementação de uma “solução abrangente e definitiva” para o fortalecimento de sua estrutura de capital, com a possibilidade de recuperação extrajudicial “se necessária”. Uma semana depois, o pedido foi efetivado. A Raízen está sendo assessorada juridicamente pelos escritórios E.Munhoz Advogados, Pinheiro Neto, XGIVS Advogados e TWK Advogados, e financeiramente pelo Rothschild & Co