Pacientes com câncer de próstata avançado tiveram, por muito tempo, opções limitadas de tratamento e possibilidade de cura bastante reduzida. Novas pesquisas apresentadas recentemente trazem uma mensagem de esperança para estes homens. Os dados foram divulgados durante o Simpósio de Tumores Geniturinários promovido pela American Society of Clinical Oncology, realizado em San Francisco, e reforçam como a combinação de terapias e a personalização do tratamento estão transformando o cuidado oncológico.
Um dos estudos de maior destaque contou com a participação ativa de pesquisadores brasileiros ligados ao Latin American Cooperative Oncology Group (LACOG), demonstrando a relevância da ciência nacional em pesquisas internacionais de grande impacto.
A pesquisa envolveu mais de 440 pacientes com câncer de próstata metastático em progressão, mesmo após tratamentos eficazes de bloqueio hormonal. O estudo avaliou a combinação de uma nova terapia hormonal com o rádio-223, um radiofármaco que se liga especificamente às metástases ósseas, local frequente de disseminação da doença.
O rádio-223 atua liberando radiação diretamente dentro da célula tumoral, promovendo dano letal de forma direcionada. Metade dos pacientes recebeu apenas a nova droga hormonal, enquanto a outra metade recebeu a combinação com o componente radioativo.
Os resultados foram bastante expressivos: houve redução de 25% no risco de morte e de 31% no risco de progressão da doença em favor da combinação. Os dados reforçam um conceito cada vez mais consolidado na oncologia moderna: atacar o tumor por mecanismos diferentes pode gerar benefícios mais consistentes e duradouros.
Outro estudo importante apresentado no congresso trouxe resultados relevantes no campo da medicina personalizada. Hoje se sabe que o câncer de próstata não é igual para todos os pacientes. Cerca de 30% apresentam alterações genéticas que comprometem a capacidade do tumor de reparar danos no próprio DNA.
Em um estudo com aproximadamente 60 pacientes com esse perfil específico, pesquisadores avaliaram a combinação de uma droga que explora essa fragilidade molecular associada a uma nova terapia anti-hormonal. O impacto foi significativo: a sobrevida alcançou cerca de seis anos, número muito superior aos aproximadamente dois anos observados historicamente com tratamentos mais tradicionais.
Esses achados reforçam uma mudança importante na forma de tratar o câncer de próstata avançado. Entender as características biológicas de cada tumor permite escolher terapias mais direcionadas, aumentando a eficácia e ampliando as possibilidades para os pacientes. É a consolidação de um princípio fundamental da oncologia atual: o tratamento deve ser desenhado para o perfil de cada paciente, e não o contrário.
Com o avanço dessas terapias, assim como de outras frentes de tratamento, começa a surgir um efeito que até pouco tempo atrás era considerado raro ou praticamente impossível. Pacientes com doença metastática têm apresentado, em alguns casos, remissões completas, ou seja, o desaparecimento total do tumor, e muitas vezes de forma duradoura.
Esse cenário abre espaço para um novo conceito na oncologia: em determinados grupos de pacientes, a intensificação das estratégias terapêuticas pode levar ao que hoje já se discute como possibilidade de cura, algo que no passado era considerado impensável para doenças metastáticas.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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