Ao falar sobre a Casa dos Ventos, Lucas Araripe não descreve apenas uma geradora de energia. Ele fala de uma engrenagem que tenta antecipar o futuro — e, mais do que isso, criar a própria demanda que vai sustentar essa nova realidade. Hoje diretor-executivo da companhia, ele defende uma tese que reposiciona não apenas a empresa, mas também o papel do próprio Brasil na economia global: transformar abundância energética em capacidade computacional.
“É como se a gente conseguisse exportar energia em forma de processamento de dados”, sintetiza, em entrevista exclusiva à *Forbes Brasil*, no escritório da empresa, na Faria Lima.
A frase deixa de ser metáfora quando ganha endereço: o Complexo do Pecém, no Ceará. É ali que a companhia já tirou do papel a primeira fase de um projeto de data center em parceria com a Omnia, com a ByteDance — dona do TikTok — como cliente âncora.
Segundo Araripe, a primeira etapa envolve cerca de 300 MW de consumo energético dentro de um projeto que pode chegar a 1,5 gigawatt. Ele afirma que a dimensão do empreendimento foge ao padrão histórico do país.
“Só a primeira fase são mais ou menos 50 bilhões de reais. E o Pecém como um todo pode ser um hub de uns 250 bilhões de reais de investimento”, aponta.
A fala resume uma estratégia que ganhou tração no último ano e ajuda a explicar por que, enquanto parte do setor de renováveis enfrenta incertezas regulatórias e excesso de oferta, a empresa segue acelerando investimentos — e ampliando ambições.
Crescimento e demanda
Para se consolidar como opção e colocar o Brasil no mapa da “exportação” de bytes via energia renovável, a história começa muito antes dos data centers. Nos bastidores, a Casa dos Ventos vive um dos ciclos mais intensos de investimentos de sua história.
A companhia encerrou recentemente uma sequência de entregas relevantes — incluindo grandes projetos eólicos e solares — ao mesmo tempo em que aprovou uma nova leva de investimentos que ultrapassa 2 gigawatts de capacidade. Entre os projetos já mapeados estão os complexos solares de Rio Brilhante (491 MW), Seriemas (400 MW) e Paraíso (640 MW), no Mato Grosso do Sul, além dos parques eólicos Dom Inocêncio (828 MW), no Piauí, e Ibiapaba (630 MW), no Ceará, com entrada prevista entre 2026 e 2027.
O movimento é parte de um plano mais amplo: atingir cerca de 11 gigawatts de capacidade instalada até 2030. De acordo com o executivo, os projetos recentemente aprovados somam cerca de R$ 11,5 bilhões em investimentos e fazem parte de uma estratégia contínua de expansão, mesmo em um ambiente mais desafiador para o setor.
“Esses 2 gigas e pouco que a gente aprovou agora são mais ou menos 11,5 bilhões de reais de investimento que a gente vai fazer ao longo dos próximos dois anos.”
O diferencial, no entanto, não está apenas no volume. Enquanto grande parte do mercado depende de contratos já firmados para viabilizar novos parques, a Casa dos Ventos tem adotado uma abordagem mais agressiva: investir antes — e criar a demanda depois.
Segundo Araripe, a companhia passou a atuar de forma mais ativa na criação de novos mercados consumidores de energia.
“A gente não fica só passivo, esperando uma empresa que quer comprar energia. A gente tenta desenvolver oportunidades que consomem muita energia e trazer esses investidores para ancorar o crescimento.”
Essa inversão — da demanda como ponto de partida para a demanda como consequência — sustenta a nova fase da empresa.
Nova geografia dos dados
É no Pecém que essa tese ganha forma mais concreta. Ali, a companhia estrutura um hub de data centers voltado para processamento internacional de dados.
O projeto foi concebido para operar exclusivamente com energia renovável — fornecida pela própria Casa dos Ventos — e com tecnologias de consumo hídrico reduzido, como sistemas de refrigeração em circuito fechado. O consumo máximo estimado é de 30 m³ de água por dia, sendo apenas cerca de 10% destinado diretamente ao resfriamento.
O ponto central é escala e posicionamento. A primeira fase já representa cerca de R$ 50 bilhões em investimentos. No total, o projeto pode alcançar R$ 250 bilhões, com quatro fases que somam 1,5 gigawatt de demanda energética. O Brasil inteiro, no momento, tem cerca de 600 MW em data centers. O projeto do Pecém, sozinho, pode superar esse volume.
Araripe afirma que a capacidade de conexão e a disponibilidade de energia renovável colocam o Brasil em uma posição diferenciada em relação a outros mercados. “Hoje é difícil você conectar 1,5 giga em um ponto da rede. Nos Estados Unidos tem fila de conexão. Aqui a gente tem essa capacidade”, explica.
A escolha do local não é por acaso. O Nordeste reúne três atributos raros: excedente de energia renovável, capacidade de conexão para grandes cargas e baixo custo energético. Soma-se a isso o regime de Zona de Processamento de Exportação (ZPE).
Na prática, uma ZPE é uma área com regime tributário diferenciado voltado à exportação. Empresas instaladas nesses polos têm benefícios fiscais desde que seus produtos ou serviços sejam destinados ao exterior. No caso dos data centers, isso significa que o processamento de dados — quando feito para clientes internacionais — é tratado como exportação, reduzindo a carga tributária e aumentando a competitividade dos projetos.
Segundo Araripe, essa combinação torna o Pecém particularmente competitivo no cenário global. “A gente tem energia renovável a um preço super competitivo e um regime tributário diferenciado. Então a gente acha que é um dos lugares mais baratos do mundo para processar dados”, pontua.
Potência exportadora ampla
Os data centers são apenas a face mais visível de uma estratégia mais ampla. De acordo com o executivo, a companhia tem buscado desenvolver diferentes frentes de consumo eletrointensivo para sustentar sua expansão. O objetivo é trazer demanda elétrica para ancorar o crescimento da empresa.
Por trás dessa visão está a tentativa de transformar energia em vetor de desenvolvimento industrial e exportação — seja na forma de dados, seja na forma de moléculas. No próprio Pecém, a Casa dos Ventos desenvolve um projeto de hidrogênio verde que pode consumir cerca de 600 MW para produzir até 70 mil toneladas de hidrogênio e 500 mil toneladas de amônia por ano.
Mas, ao contrário dos data centers, o hidrogênio é uma aposta de mais longo prazo.
“O data center é elétrico, não tem processo de transformação. É consumo elétrico na veia. É mais rápido”, explica.
A lógica se estende a outras frentes, como eletrificação industrial, produção de combustíveis verdes e até mineração de criptomoedas para absorver excedentes de geração.
Segundo Araripe, o crescimento da companhia depende da criação de novas avenidas de consumo. “Hoje, é difícil crescer só com a demanda existente”, explica. “A gente não é uma empresa limitada aos perímetros elétricos. Usamos a energia como maneira de fazer negócio.”
No longo prazo, essa postura leva a uma mudança de identidade. A Casa dos Ventos deixa de ser apenas uma geradora para operar como uma plataforma de investimento.
Energia como ativo geopolítico
A aposta em data centers e hidrogênio reflete uma leitura mais ampla sobre o cenário global. A corrida por inteligência artificial é, na prática, uma corrida por infraestrutura digital — e, portanto, por energia.
Segundo Araripe, a disputa global por capacidade computacional está diretamente ligada à disponibilidade energética.
“No fim do dia, é uma corrida por infraestrutura digital e por energia”. E o Brasil parte de uma posição privilegiada.
“O Brasil tem vento, sol e água. A gente tem os recursos naturais mais interessantes do mundo”, exalta. Segundo o executivo, há um desalinhamento entre as vantagens naturais do país e parte das decisões regulatórias.
O ambiente doméstico ainda apresenta desafios. Mudanças regulatórias recentes aumentaram custos para renováveis, enquanto o avanço da geração distribuída — ainda subsidiada — tem gerado distorções no sistema e episódios de excesso de oferta.
Segundo o executivo, há um desalinhamento entre as vantagens naturais do país e parte das decisões regulatórias.
“O Brasil tem tudo que o mundo queria ter, mas às vezes a regulação vai na contramão.”
Do semiárido ao digital
Enquanto a narrativa aponta para o futuro digital, a base física da operação segue ancorada em regiões historicamente negligenciadas. Os parques eólicos da Casa dos Ventos se concentram no semiárido nordestino — áreas de baixa renda e pouca atividade econômica.
Segundo Araripe, o impacto local dos projetos vai além da geração de energia, com a criação de milhares de empregos e fortalecimentos das economias locais.
Esse contraste — entre turbinas instaladas em áreas remotas e servidores processando dados globais — ajuda a ilustrar a ambição da companhia.
Transformar vento em bytes não é apenas uma metáfora tecnológica. É a tentativa de conectar duas pontas da economia global: a abundância energética do Brasil e a crescente demanda por infraestrutura digital.
Se funcionar, a equação redefine o lugar do país: de exportador de recursos naturais para exportador de energia processada. E Araripe, ao que tudo indica, quer liderar essa transição.