Um novo estudo apresentado no Simpósio de Tumores Geniturinários da American Society of Clinical Oncology (ASCO), realizado na última semana em São Francisco, nos Estados Unidos, trouxe novidades importantes para o tratamento do câncer de bexiga. O encontro, que reúne especialistas do mundo inteiro, destacou dados que podem impactar a prática clínica nos próximos anos.
O câncer de bexiga é um dos tumores urológicos mais frequentes
No Brasil, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados mais de 13 mil novos casos por ano. A doença é significativamente mais comum no sexo masculino e está fortemente associada ao tabagismo. Apesar de, muitas vezes, ser diagnosticado em fases iniciais, o câncer de bexiga apresenta risco relevante de recorrência e progressão, o que exige acompanhamento rigoroso e, em casos mais avançados, tratamentos sistêmicos.
A pesquisa apresentada avaliou cerca de 800 pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo, uma forma agressiva da doença. Nesses casos, o tratamento considerado ideal é a cirurgia da bexiga, precedida por quimioterapia.
O novo trabalho, então, comparou o tratamento padrão a uma abordagem inovadora. Nessa nova estratégia, foi utilizado um anticorpo conjugado a uma droga chamado enfortumabe vedotin. Esse medicamento se liga a um receptor chamado Nectina-4, que é altamente expresso nas células do tumor e pouco ou praticamente não encontrado nos tecidos normais. Ao se conectar à célula tumoral, o anticorpo libera dentro dela uma substância altamente tóxica, capaz de interromper a proliferação celular.
No estudo, o enfortumabe vedotin foi administrado em combinação com uma imunoterapia chamada pembrolizumab antes da cirurgia. Após o procedimento cirúrgico, os pacientes ainda receberam mais doses do tratamento combinado. Esse esquema foi comparado ao padrão tradicional de apenas quatro ciclos de quimioterapia pré-operatória.
Os resultados foram expressivos. A nova estratégia reduziu em 47% o risco de recorrência da doença e diminuiu em 35% o risco de morte. Além disso, aproximadamente 60% dos pacientes submetidos à combinação terapêutica não apresentavam mais tumor detectável no momento da cirurgia.
Esses dados indicam que a associação de terapias pode representar uma nova opção padrão para o câncer de bexiga músculo-invasivo, agregando benefício significativo ao tratamento local cirúrgico e ampliando as chances de controle da doença.
Os achados reforçam uma tendência observada nos últimos anos: a incorporação de combinações terapêuticas e de novas abordagens imunológicas no tratamento dos tumores geniturinários. No caso do câncer de bexiga, em que as opções terapêuticas historicamente foram limitadas em fases avançadas, avanços como esse representam ampliação concreta de possibilidades para os pacientes.
No cenário atual do tratamento, o avanço de novas terapias tem mostrado resultados cada vez mais promissores. Em alguns estudos, as taxas de resposta são tão altas, incluindo respostas completas, que começa a surgir uma nova perspectiva no manejo da doença.
Pesquisas mais recentes já investigam a possibilidade de preservar a bexiga, evitando a cirurgia de retirada do órgão, e adotando estratégias com quimioterapia e radioterapia ou até mesmo acompanhamento cuidadoso em casos selecionados. Essa tendência aponta para um possível novo caminho no tratamento do câncer de bexiga, com foco em terapias eficazes que também preservem a qualidade de vida dos pacientes.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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