Para quem vê de fora, o Japão parece um país de contrastes simples: o brilho caleidoscópico de Ginza, em Tóquio, e sua juventude vibrante obcecada por moda. Em outros lugares, florestas escondidas cobertas de musgo, jardins aquáticos e templos. Vemos organização e uma polidez ritualizada. Mas, na verdade, sabemos muito pouco.
Em Quioto, antiga capital milenar do país, mais especificamente no distrito de Kamishichiken, é onde fica o Kitano Tenmangū – o mais sagrado entre os 12 mil santuários do Japão, destruído por um incêndio em 1444 e reconstruído a partir das ruínas como um novo centro cultural, onde floresceram as refinadas artes performáticas da alma de Quioto. É também o berço da escola Omotesenke da cerimônia do chá e das tradições hanamachi (gueixa), incluindo geiko e maiko, além de teatro, música, honra e elegância.
Neste ano, uma das sete casas de chá originais de Kamishichiken – a antiga Residência Hasegawa, localizada mais próxima ao santuário Kitano Tenmangū – será colocada à venda. Não como um empreendimento comercial, mas reinterpretada como uma residência chamada The Silence, impregnada de caráter histórico e, ao mesmo tempo, adaptada às expectativas contemporâneas de moradia.
O projeto envolve muito mais do que transformar uma antiga casa de chá em residência privada. Seu propósito vai além da estética decorativa. Trata-se de uma missão arquitetônica singular, quase talismânica, que exige da equipe de artesãos japoneses encarregada da obra um profundo gesto de reverência cultural.

Esse grupo seleto foi reunido pela visão de Kenji Nakamura, CEO da FIDO Inc., principal desenvolvedora e responsável pelo projeto. A direção arquitetônica é de Kengo Kuma, um dos arquitetos japoneses mais renomados do mundo. Apesar de sua atuação internacional, Kuma mantém um foco firme na construção da identidade arquitetônica de seu país.
Sua filosofia – sim, arquitetos têm filosofias; sem isso, seriam apenas construtores com canetas – baseia-se em leveza, ar e equilíbrio, sustentados por materiais naturais como pedra, madeira e bambu. Seu trabalho carrega a marca da tradição japonesa, reinterpretada em formas esculturais contemporâneas e guiada por valores que vão além de soluções imediatistas.

The Silence respirará sua própria história. O projeto de Kengo Kuma preserva os elementos essenciais da antiga casa de chá. A disposição dos espaços respeita o layout original de ambientes separados, ao mesmo tempo em que os adapta para incluir uma casa principal, um depósito (storehouse) e um anexo com sala de chá e um grande salão com tatames.
Uma equipe de pesquisadores está atualmente em busca de materiais históricos e artefatos da época –como uma espada Izuminokami Kanesada de 1868 – que serão incorporados como peças decorativas.
O ponto crucial, porém, é a insistência de Kuma no uso de técnicas artesanais extremamente rigorosas, com ferramentas manuais tradicionais e métodos de encaixe japoneses. Isso eleva o projeto além de uma simples reprodução, transformando-o em um processo de revitalização – no qual o passado perdido é retomado de forma autêntica.

A área da sala de chá será executada pela Nakamura Sotoji Komuten, uma das maiores referências do Japão em carpintaria no estilo sukiya. Esses artesãos produzem interiores tradicionais a partir de conhecimentos familiares transmitidos por gerações, armazenando madeiras raras por décadas antes de utilizá-las. Assim como Kuma, seu trabalho é guiado por um senso profundo de responsabilidade espiritual com o passado.

A construtora principal é a Kongō Gumi, especialista em patrimônio histórico e templos budistas. Com registros que remontam ao ano 578 d.C., a empresa é considerada a mais antiga em atividade contínua no mundo.
O quinto contribuidor no projeto traz o apelo internacional de uma marca de luxo. A Armani/Casa foi criada em 2004 sob supervisão de Giorgio Armani, admirador da estética japonesa. A marca contribuirá com sua assinatura sofisticada no design de interiores.

Por fim – e com grande relevância – o novo jardim será projetado por Katsuaki Ogawa, herdeiro da 12ª geração da lendária linhagem Ueji. O projeto valoriza as estações, os sons e a tranquilidade. Ao redor de um grande lago, passarelas cobertas cruzam suavemente a água, enquanto plantas sazonais surgem delicadamente. Entre elas, ameixeiras, como as que floresciam no santuário Kitano Tenmangū na primavera.

Com todos os planos e autorizações aprovados, as obras de The Silence começam no outono de 2026, com conclusão prevista para a primavera de 2028. Por se tratar de uma oportunidade única de adquirir uma propriedade profundamente ligada à história espiritual e cultural de Quioto, espera-se grande interesse tanto no Japão quanto entre admiradores da cultura japonesa ao redor do mundo.
The Silence está no mercado por ¥6 bilhões (aproximadamente US$ 38 milhões – R$ 209 milhões).
Em conversa com Kengo Kuma
Em entrevista exclusiva à Forbes Global Properties, Kengo Kuma comentou o que o motiva no projeto:

“Kamishichiken é um distrito muito especial, e o estado dessa casa histórica é incrível. Será a primeira vez que trabalharemos com Katsuaki Ogawa, o que é empolgante. E a Nakamura Sotoji é a melhor carpintaria residencial do Japão. Será uma equipe altamente integrada, trabalhando com os guardiões da casa. Este projeto é necessário para Quioto – e é por isso que queremos fazer parte dele.”
Quando você fala “necessário”… O que faz disso necessário para Quioto?
“Quioto tem muitos turistas e também pessoas que querem viver aqui, então há muitos projetos de apartamentos. Mas a cidade precisa preservar a essência de sua cultura – e essa essência está nas pequenas construções de madeira. Para mim, The Silence é um modelo de como Quioto pode se desenvolver no futuro.”
Você acredita que as gerações mais jovens do Japão estão se interessando mais em manter esses aspectos essenciais da cultura no futuro?
“Sinto que os jovens estão começando a redescobrir a beleza dessas tradições. Talvez se sintam afastados da natureza. Esses edifícios antigos, com jardins belíssimos, podem se tornar um novo paraíso para eles.”
Finalmente, quais são as lições que esse endereço histórico nos oferece?
“Os detalhes dessa casa de chá e as texturas dos materiais são extremamente delicados e diversos. Quero mostrar as múltiplas faces do edifício para que as pessoas sintam a verdadeira essência japonesa desses materiais naturais. E a intimidade – ela está se tornando cada vez mais necessária e valorizada.”
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com