Em 14 de fevereiro de 2026, na pista de Stelvio, localizada no Bormio Ski Centre, na Itália, um dos palcos dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milano-Cortina, Lucas Pinheiro Braathen fez história: ao vencer o slalom gigante, tornou-se não só o primeiro brasileiro a subir em um pódio olímpico de inverno como o dono do ouro inédito da América Latina. Confirmando a excelente fase, ele conquistou o Globo de Cristal na mesma prova da Copa do Mundo de Esqui Alpino, na Noruega, dia 24 de março.
Nascido em Oslo, filho de mãe brasileira e pai norueguês, ele não apenas venceu uma prova: redefiniu o lugar de um país tropical dentro de um território que sempre pareceu distante, a neve. A conquista, construída com um tempo total de 2min25s e vantagem sobre nomes como o suíço Marco Odermatt, consolidou um feito considerado improvável até então e imediatamente reposicionou o Brasil no mapa dos esportes de inverno.
Para Lucas, porém, o ouro nunca foi o ponto central. Conversamos por mais de uma hora. Ele em Innsbruck, nos Alpes austríacos, onde vive e treina, e eu no Brasil. Do outro lado da tela, o medalhista falava com calma, escolhendo as palavras com cuidado, como quem constrói não só uma resposta, mas uma narrativa.

Entre temporadas na Europa, nos Estados Unidos e na Argentina, Lucas vive um constante “follow the snow”. Todo ano, o roteiro se repete: a partir de abril, ele se instala no Brasil, onde desacelera entre treinos e dias nas praias do Rio de Janeiro ao lado da namorada, a atriz Isadora Cruz. Em agosto, parte para a Argentina, onde retoma os treinos na neve, antes de seguir para a Europa em outubro, quando começa oficialmente a temporada de inverno. Um ciclo contínuo, desenhado pelo clima, e por uma vida que se organiza em torno dele. “Meu propósito, meus sonhos, meus objetivos… Nada mudou”, diz. “Essa medalha de ouro é só uma parte de uma jornada muito maior.” A conquista, que poderia ser um ponto-final, no caso de Lucas, é apenas uma vírgula.
Entre mundos, sem pertencer a um só
Lucas cresceu entre países, culturas e referências. E, por muito tempo, isso não foi uma vantagem. Foi uma dúvida. “Na Noruega, eu era brasileiro. No Brasil, era gringo. Eu nunca era de verdade do lugar onde eu estava.” Essa sensação de deslocamento atravessou sua infância. Escolas, cidades, comunidades – nada parecia definitivo. “Passei muito tempo tentando encontrar uma casa.” A resposta veio mais tarde, de dentro para fora.
Inspirado pelo pai, que também viveu essa sensação de não pertencimento, Lucas adotou uma ideia que hoje guia sua vida: não é preciso encontrar um lugar no mundo, mas sim carregar o próprio centro consigo. “Entendi que precisava achar a minha casa dentro de mim e levar isso para qualquer lugar.” Foi só por volta dos 20 anos, quando essa identidade se consolidou, que sua carreira esportiva começou a realmente decolar. Não por acaso.
Disciplina nórdica, alma brasileira
Quando questionado sobre sua identidade, Lucas responde sem hesitar: é uma mistura. “Eu sou um produto dos dois.” De um lado, a estrutura e a disciplina norueguesas. Do outro, a curiosidade, a paixão e o impulso criativo brasileiro. “É a disciplina com o molho brasileiro”, resume, sorrindo. Mas, no fim, ele diz: se sente mais brasileiro. Talvez porque sua essência esteja menos ligada à ordem e mais à experimentação, ao desejo constante de explorar, testar, criar.

O momento de ruptura
Antes da consagração olímpica, houve um ponto de inflexão. Lucas enfrentou um período difícil dentro da equipe norueguesa, marcado por conflitos e, principalmente, pela sensação de estar limitado criativamente. “Para uma pessoa criativa, aquilo virou uma prisão”, recorda. O impacto foi profundo. “Cheguei a um ponto em que perdi o amor pelo esporte.” A decisão foi radical: parar.
Durante esse período, ele mergulhou em outros universos: moda, direção criativa, semanas de moda como a Copenhagen Fashion Week. Experimentou novas linguagens, novas formas de expressão. Mas algo ainda faltava. Até que surgiu a possibilidade de competir pelo Brasil. “Vi ali uma história muito maior do que o esporte”, conta. “Se um brasileiro pode ser o melhor do mundo em um esporte que nem existe no país, isso pode inspirar muita gente.” Era mais do que uma mudança de bandeira. Era uma reconexão com propósito.
O atleta como plataforma
Lucas não se vê apenas como esportista. Talvez esse seja o ponto mais interessante de sua trajetória. “Sempre quis ser um atleta que fosse mais do que um atleta.” Ele divide sua vida em três pilares: esporte, criatividade e impacto social. O esqui é seu palco, mas não é o limite. “É a plataforma que me permite expressar minha mensagem.” E essa mensagem passa, inevitavelmente, por autenticidade.
Moda como linguagem
Para quem o vê pela primeira vez fora das pistas, como foi o meu caso, quando o conheci em um jantar durante a Bienal de São Paulo, a impressão é imediata: o estilo faz parte da história. Lucas não estudou moda formalmente. Mas observa, pesquisa e absorve referências com atenção quase obsessiva – de Pharrell Williams a Virgil Abloh, passando por Steve Jobs e pelo brasileiro Oskar Metsavaht. “Moda não é sobre roupa. É uma linguagem universal.”

Foi com esse olhar que ele se envolveu em projetos como os uniformes olímpicos, desenvolvidos em parceria com Oskar Metsavaht e a Moncler. Mais do que performance ou estética, a proposta era construir um conceito. Criados para a cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina 2026, os looks nasceram de um encontro entre tecnologia e identidade brasileira. Peças clássicas da maison, como a jaqueta Karakorum, foram reinterpretadas com volumes mais esculturais e uma leitura contemporânea.
No look de abertura, por exemplo, as cores do Brasil estavam no interior das peças, escondidas no forro das capas usadas pelos porta-bandeiras. Por fora, o branco absoluto dialogava com a paisagem da neve. Por dentro, a bandeira aparecia em movimento, revelando-se aos poucos durante a entrada no estádio.
Mais do que uma escolha estética, era um gesto simbólico. Um Brasil que não se impõe de forma óbvia, mas que se revela com autenticidade. Um código visual que traduz exatamente a narrativa que Lucas defende, de que a verdadeira força não está no que se vê de imediato, mas no que vem de dentro. “A nossa força vem de dentro”, diz. “Nossa diferença é o nosso superpoder.”
Uma equipe como startup
Por trás da estética e do discurso, há uma rotina rigorosa. Durante a temporada, que vai de outubro a março, Lucas treina cerca de três horas por dia na neve, além de ter sessões físicas intensas, fisioterapia e recuperação. A logística envolve viagens constantes entre países como Áustria, França, Itália e Estados Unidos. Mas talvez o mais interessante seja como ele estrutura sua equipe. “Eu criei meu time como uma startup.” Ao lado do pai, hoje seu team manager, ele montou um grupo diverso, com profissionais de diferentes idades, nacionalidades e formações. “A diversidade é essencial. Se eu quero transmitir essa mensagem, preciso viver isso no meu time.”
Até mesmo o trabalho técnico é levado ao extremo: Lucas viaja com 80 pares de esqui, testando materiais, formatos e estruturas com um técnico dedicado exclusivamente a ele. É ciência, precisão e obsessão por evolução.
Octo: Beleza como consequência da saúde
Esse mesmo raciocínio se estende à sua marca de skincare, a Octo. A proposta é simples e radical: criar produtos com o menor número possível de ingredientes, focados em saúde antes de estética. O primeiro lançamento foi um hidratante; o próximo, um protetor solar. “Beleza é consequência de saúde.”

O nome vem do latim para “oito”, refletindo a fórmula enxuta desenvolvida após anos de pesquisa. E, mais uma vez, o Brasil está no centro da narrativa. “Fomos buscar o lugar mais rico do mundo em natureza. E isso é o Brasil.” Com ingredientes da Amazônia e desenvolvimento criativo em Milão, a marca é, assim como Lucas, um híbrido cultural e conceitual.
O futuro: mais liberdade, mais impacto
Aos 25 anos, Lucas ainda projeta alguns anos no esporte de alto nível, talvez mais sete. Mas já olha para o futuro com clareza: quer expandir sua atuação criativa. Moda, design, novos projetos. Tudo conectado por um mesmo fio condutor: propósito. “Tudo precisa trazer uma mudança”, diz. “Senão, só estou surfando uma onda que já existe.” Ele quer, na verdade, criar novas ondas.
No fim da conversa, fica claro que a medalha de ouro, histórica e simbólica, é apenas um dos capítulos dessa história. Porque, no caso de Lucas Braathen, o mais interessante não é onde ele chegou.
É o que ele está construindo no caminho.
*Reportagem publicada na edição 138 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.