O dólar abaixo de R$ 5 pela primeira vez em mais de dois anos é fruto de um enfraquecimento global, mas encontra no Brasil um ambiente que amplia esse efeito: juros elevados e fluxo externo favorecido pelo cenário de commodities.
“A gente tem visto o dólar perdendo força de forma global, mas essa valorização não é exclusiva do real. Claro que o real é uma moeda bastante líquida, então ele tende a se valorizar mais”, diz Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank.
Na leitura da economista, dois vetores explicam o comportamento recente do câmbio no Brasil. O primeiro vem do ambiente externo, com a guerra pressionando os preços do petróleo e beneficiando países exportadores. “O preço do petróleo subindo acabou favorecendo países exportadores, e o Brasil é um deles. Isso favorece ingresso de fluxo para cá e contribui para a valorização da moeda”, afirma.
O segundo fator é doméstico. O país segue atraindo capital estrangeiro. “A gente tem também o atrativo de taxa de juros, ainda em nível bastante elevado, que também favorece ingresso de fluxo”, diz.
Esse conjunto ajuda a explicar por que o real se valoriza mesmo em um cenário global de incerteza. Ao mesmo tempo, o dólar perde força diante de tensões geopolíticas e dúvidas sobre o ritmo da economia internacional.
Apesar disso, a trajetória do câmbio ao longo de 2026 está longe de ser linear. “A própria guerra tende a gerar volatilidade e aversão ao risco, então isso pode atrapalhar um comportamento mais benéfico da moeda. Embora tenha sido positivo para o real nesses últimos tempos, não é garantia que vai ser assim para sempre”, afirma.
No cenário doméstico, o calendário político entra como fator adicional de instabilidade. “Eleições costumam trazer volatilidade para o câmbio”, diz.
Ainda assim, a avaliação do banco é de um ano relativamente mais favorável para o real, sustentado pelo diferencial de juros. “A gente acredita que tem um cenário mais favorável para câmbio este ano, muito por conta da nossa taxa de juros, mas podemos ver períodos de volatilidade.”
O que diz o mercado
As projeções do mercado ainda apontam para alta da moeda americana no fim do ano. Segundo o Relatório Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas e agentes de mercado, a mediana das estimativas para o dólar ao fim de 2026 recuou para R$ 5,37, ante R$ 5,40 há quatro semanas . Para 2027, a projeção está em R$ 5,40 .