Nesta semana, São Paulo recebe o URO-ONCO 2026, o 17º Congresso Internacional de Uro-oncologia. Mais uma vez, tenho a honra de participar da curadoria científica do evento, ao lado de colegas que são referência na urologia e na oncologia. Ao longo de quatro dias, reunimos algumas das vozes mais influentes da uro-oncologia global para discutir o presente e, principalmente, o futuro do cuidado desses pacientes.
E esse debate não poderia ser mais oportuno. Os tumores urológicos estão entre os mais incidentes no Brasil. O câncer de próstata, por exemplo, é o mais frequente entre os homens, excluindo o câncer de pele não melanoma. Já os tumores de bexiga e rim também apresentam números expressivos e, muitas vezes, são diagnosticados em fases mais avançadas. Estamos falando, portanto, de doenças que impactam diretamente milhares de famílias brasileiras todos os anos e que representam um desafio crescente para o sistema de saúde.
Diante desse cenário, o que vemos hoje na uro-oncologia é uma transformação profunda. Isso porque, durante muito tempo, tratamos o câncer de forma relativamente homogênea, com decisões baseadas em características clínicas mais amplas. Hoje, caminhamos rapidamente para uma medicina cada vez mais personalizada. No câncer de próstata, por exemplo, a evolução dos testes genéticos e moleculares tem permitido algo que parecia distante até pouco tempo atrás: conseguimos identificar com maior precisão quem realmente precisa de tratamento e quem pode ser apenas acompanhado com segurança.
Ao mesmo tempo, avançamos na direção oposta quando necessário. A incorporação de dados moleculares, aliada ao uso crescente da inteligência artificial, tem nos ajudado a refinar prognósticos e a definir estratégias mais assertivas para pacientes que precisam de tratamento. Hoje conseguimos, com muito mais precisão, indicar quando intensificar terapias, combinar abordagens ou optar por tratamentos únicos com potencial curativo.
Outro eixo de transformação está nas novas terapias. A evolução da imunoterapia, o desenvolvimento de anticorpos conjugados a drogas e o uso de radiofármacos representam uma mudança significativa na forma como tratamos a doença, especialmente em estágios avançados. São estratégias que levam o tratamento diretamente à célula tumoral, aumentando a eficácia e reduzindo danos ao organismo.
O resultado prático disso é claro. Pacientes com doença avançada, que antes tinham perspectivas limitadas, hoje podem alcançar remissões prolongadas e, em alguns casos, até mesmo a cura.
Mas talvez o aspecto mais importante dessa transformação seja o que ela exige de nós.
Esses avanços tornam o cuidado mais complexo, mais dinâmico e, inevitavelmente, mais dependente de decisões compartilhadas. Não se trata apenas de escolher o melhor tratamento do ponto de vista técnico, mas de considerar o paciente como parte central desse processo. Seus valores, suas expectativas e sua qualidade de vida precisam estar no centro da tomada de decisão.
Como profissionais de saúde, é exatamente esta demanda que precisamos debater em eventos científicos.
Para além da inovação, fundamental no controle da doença, o cuidado precisa estar centrado no paciente, especialmente em um cenário de alta incidência e crescente demanda por tratamento.

*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.