Filha de uma faxineira e de um aposentado com um salário mínimo, Fabiane Kuhn chegou às mais altas rodas da ciência global porque mostrou, com dados e resultados de campo, do que era capaz: um sensor de umidade do solo patenteado, instalado em cerca de 5.000 hectares distribuídos por 11 Estados brasileiros e em mais de 20 culturas, que indica ao produtor exatamente quando e quanto irrigar para manter a produtividade reduzindo o consumo de água e energia.
A tecnologia que nasceu no laboratório de uma escola técnica no Rio Grande do Sul chegou à lista dos cinco melhores sensores de solo do mundo, segundo levantamento da Startup Network, e abriu caminho para Fabiane circular nos centros de pesquisa e programas de liderança dos Estados Unidos. Aos 27 anos, ela é a fundadora e CEO da Raks Tecnologia Agrícola, startup sediada em São Leopoldo, e selecionada para a mais recente edição da lista Forbes Under 30, projeto da Forbes Brasil que destaca talentos de vários segmentos em suas áreas de atuação, incluindo o agro.
A trajetória de Fabiane começa em 2015, na Escola Técnica Fundação Liberato, em Novo Hamburgo. Ela tinha 16 anos e cursava o técnico em eletrônica, integrado ao ensino médio, época em que o Brasil atravessava uma crise hídrica severa, com reservatórios operando em volume morto. “Fomos entender as tecnologias usadas para a água”, lembra ela. “Entrei no agro não por família, não por tradição. Entrei pela tecnologia.”
Junto ao colega de pesquisa Guilherme Ramos, ela testou sensores de umidade do solo disponíveis no mercado e não ficou satisfeita com nenhum. Tomada com a despreocupação de quem ainda não sabia o tamanho do desafio, a decisão foi de que se nenhum sensor funcionava bem para o produtor rural, eles criariam um novo.
O protótipo surgiu durante as férias de inverno, com a escola vazia e o laboratório à disposição. O projeto foi inscrito na Mostratec (Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia), a maior feira de ciência e engenharia para alunos de ensino médio da América Latina, realizada pela Fundação Liberato, em Novo Hamburgo.
A dupla ganhou o primeiro lugar em engenharia eletrônica e a classificação para a Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF), antes chamada de Intel ISEF, considerada a maior e mais prestigiada competição de pesquisa científica e engenharia pré-universitária do mundo. Realizada nos Estados Unidos, ela é organizada todos os anos pela Society for Science, que reúne cerca de 1.800 estudantes de até 80 países para exibir projetos inovadores avaliados por cientistas de ponta.
Em 2016, Fabiane e Guilherme estavam em Phoenix, no Arizona, com tudo pago pela Intel, como uma delegação científica. Receberam o terceiro lugar em sistemas embarcados e um prêmio de uma organização americana, além do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia.
“Eu nunca tinha saído do Rio Grande do Sul, nunca tinha andado de avião. Quando subi naquele palco foi a primeira vez que acreditei que dava para ir além do que eu conhecia”, diz Fabiane.
Mas os prêmios não resolviam o problema original: economizar água de verdade. O equipamento era um protótipo cheio de fios, inadequado para resistir a chuva e sol no campo. Em 2017, ela, Guilherme e Vinícius Miller, outro colega que havia desenvolvido uma pesquisa paralela sobre compactação do solo na mesma escola técnica, abriram a Raks. Guilherme seguiu outro caminho mais adiante, e Fabiane e Miller permanecem como sócios até hoje.
Colchão inflável e US$ 2.000 de capital
Fabiane conta que abrir uma empresa de tecnologia para o agronegócio sem recursos familiares e sem investidor exigiu uma engenharia financeira artesanal. Os dois prêmios recebidos nos Estados Unidos colocaram no bolso cerca de US$ 2.000 (hoje seriam cerca de R$ 10 mil).
Para dar conta da empreitada, a empresa entrou em um programa de incubação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, que oferecia espaço físico, mentorias e estrutura gratuitos. Nesta época, Fabiane e Miller eram estagiários em empresas de eletrônica. Foi justamente em outubro de 2016 que decidiram que pediriam demissão em maio de 2017 e colocariam toda a energia na Raks. Até lá, guardaram cada centavo dos estágios.
Ela conta que na época um professor orientador ajudou com algumas contas, como energia elétrica. “Tinha colchão inflável na empresa. Às vezes não dava para voltar para casa e a gente tomava banho no ginásio da universidade”, diz Fabiane.

O primeiro recurso externo de fato chegou em 2019, quando a Raks colocou o produto no mercado e passou a faturar com os primeiros clientes. Em março de 2020, na primeira semana do mês, a startup fechou uma rodada de R$ 850 mil liderada pela Ventiur, uma gestora gaúcha voltada às startups. Dias depois, a pandemia cancelou feiras, eventos e visitas presenciais, inviabilizando o plano original de expansão comercial no agro. Mas em 2022, uma segunda rodada, desta vez liderada pela Kria, aportou R$ 1,1 milhão na Racks.
O sensor que saiu do laboratório escolar hoje é patenteado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPI). Instalado no solo com hastes de 20 centímetros, equipado com placa solar e conectado por satélite ou rede celular, ele faz leituras de hora em hora e cruza dados de umidade com tipo de solo, estágio da cultura, clima e método de irrigação para indicar ao produtor quando ligar o sistema e por quanto tempo.
O modelo de negócio é inteiramente por assinatura: o cliente paga mensalmente ou anualmente o aluguel do equipamento, mais suporte e acompanhamento. A Raks opera hoje com seis profissionais, quatro no Rio Grande do Sul, um no Espírito Santo e um em Minas Gerais, além de parceiros comerciais.
5.000 hectares, 250 equipamentos, 40% de economia de água
Os números do campo mostram o que a tecnologia faz na prática. A Raks monitora cerca de 5.000 hectares com cerca de 250 equipamentos instalados. A maior parte dos clientes é de pequenos e médios produtores, que operam áreas de 5 a 10 hectares com um único equipamento.
Há casos documentados de economia de 30% de água e energia elétrica em lavouras de milho na Bahia, mantendo a mesma produtividade. Fabiane conta que no Distrito Federal, um casal de produtores familiares de morango, que operam sem funcionários, economizou 40% de água e energia e já fez safra recorde.
“A tecnologia entra para ser aliada ao produtor, não para substituir o trabalho humano”, afirma Fabiane.
“O que ela faz é indicar quando ligar, quanto deixar ligado, para ter mais rentabilidade, seja economizando água e energia, seja produzindo mais, às vezes os dois.” A empresa atua principalmente em café e frutas, suas maiores áreas de presença, e também em grãos, entre outras culturas.
Fabiane acredita que o uso de tecnologia no campo deixará de ser uma escolha nos próximos anos.
Nesse cenário, ela aponta regulamentações crescentes sobre o uso da água, com cobranças já sendo discutidas, e a demanda de governos estaduais que não conseguem liberar novas outorgas de irrigação, mas querem usar o sistema da Raks para otimizar quem já irriga e abrir espaço para novos usuários. O fato é que estudos projetam que até 2060 será necessário produzir 50% mais alimentos para suprir a demanda populacional, ao mesmo tempo em que dois terços da população global deve enfrentar escassez hídrica.
Iowa, Nebraska e a virada de negócio
No caminho da startup Raks, a presença nos Estados Unidos não se limitou à feira de ciências da adolescência, e isso fez diferença no que ela se tornou nos dias atuais. As participações lá fora trouxeram robustez e moldaram os passos dados por Fabiane e seu sócio.
Em 2019, a Raks testou seu equipamento na fazenda experimental da Precision Planting, sediada em Tremont, no Illinois, por meio de seu AgriTech Accelerator. Em 2024, Fabiane foi selecionada para o Young Leaders of the Americas Initiative (YLAI), programa do governo americano que naquele ano escolheu 280 jovens líderes das Américas, Caribe e Canadá, entre eles 20 eram brasileiros.
Ela ficou seis semanas nos Estados Unidos, com um mês em Nebraska, trabalhando com a empresa Combine, um hub que conecta empresas e produtores na maior área irrigada dos Estados Unidos. Vale registrar que somente a área irrigada do Estado de Nebraska equivale a 70% da área irrigada do Brasil inteiro.
Essa experiência chegou em um momento crítico, no qual a Raks havia reduzido a equipe de 12 para 5 pessoas por falta de caixa, e Fabiane tinha uma dúvida genuína sobre o futuro da empresa. “Com essa viagem consegui ter uma visão diferente, com foco em vendas e no negócio”, diz ela. Em 2025, a Raks atingiu o break-even pela primeira vez.
Os planos seguintes incluem expansão internacional, com o produto validado e conectividade operando por satélite e rede celular em múltiplas regiões do Brasil. Fabiane é a primeira pessoa de sua família a ter ensino superior. Ela conta que sua mãe, que participou de rifas para ajudar a financiar a alimentação da filha na viagem à feira nos Estados Unidos, ainda não entende completamente seu universo e o alcance daquilo que faz.
“Quando tiver a revista Forbes na minha mão, vou levar para eles. Meus pais são minhas maiores inspirações”, disse Fabiane no final dessa entrevista que concedeu ao ser anunciada que seria uma Under30 do agro. “Porque nunca, por nenhum segundo, eles passaram a impressão de que alguma coisa que eu sonhava era impossível.“