Após seis dias de júri do caso que ficou conhecido como a maior chacina do Distrito Federal, o promotor Nathan Neto, à frente do processo, considerou o desfecho do julgamento como uma “resposta à sociedade“. Somadas, as penas dos cinco réus envolvidos no extermínio de 10 pessoas de uma mesma família chegam a 1.258 anos de prisão.
Para o representante do Ministério Público, a decisão do júri atendeu às expectativas da instituição. “Podemos dizer que o Ministério Público satisfez as suas expectativas. A sociedade respondeu à altura dos crimes praticados. Estamos contentes com o resultado”, afirmou. Ele também reforçou o respeito à decisão dos jurados:
“Respeitamos a decisão e acreditamos que a justiça foi feita no caso”, pontuou.
O promotor ressaltou que o resultado do julgamento é reflexo de um trabalho coletivo. Ele também atribuiu as condenações a uma união firme de esforços entre o Ministério Público e Polícia Civil do DF.
“O Ministério Público se empenhou desde o início das investigações buscando cooperar com a polícia. Montamos uma operação, fizemos uma força-tarefa e unimos esforços para dar uma resposta à sociedade, uma resposta digna e à altura do mal praticado”, declarou.

Julgamento da chacina chega ao sexto dia neste sábado (18/4)
HUGO BARRETO / METRÓPOLES
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Delegado Ricardo Viana, responsável pela investigação à época do crime, prestou depoimento nesta terça-feira (14/4)
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Cinco réus são acusados de matar 10 pessoas da mesma família
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Réus estão sentados lado a lado, mas não podem se comunicar
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Réus da considerada a maior chacina do DF
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Julgamento dos réus da maior chacina do DF
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Perguntado sobre a condenação do réu Carlos Henrique apenas por roubo e absolvição pela morte de uma das vítimas, Nathan explicou que o Tribunal do Júri acolheu uma tese apresentada pela defesa. Ainda assim, avaliou que o resultado está de acordo com a legislação.
“Não temos motivos para duvidar da justiça dessa decisão. Dentro da culpabilidade e do que ele praticou, ele recebeu uma resposta satisfatória, prevista em lei”, pontuou.
Sobre a motivação do crime, o promotor destacou a dificuldade de apontar um único fator determinante, mas afirmou que a tese apresentada na denúncia foi comprovada durante o processo.
“A motivação indicada foi devidamente comprovada. Há, sim, relação com a questão da propriedade rural ocupada pela vítima e sua família, e isso foi reconhecido pelos jurados”, concluiu.
Penas somadas chegam a 1.258 anos
A sentença condenatória dos réus foi proferida nesse sábado (18/4), mais de três anos após a execução do crime bárbaro ocorrido entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023. Os cinco homens responderam pelo envolvidos no extermínio de 10 integrantes de uma mesma família.
Confira os crimes pelos quais os envolvidos foram condenados:
Gideon Batista de Menezes: apontado como o mentor do crime, Gideon foi condenado por 10 homicídios qualificados, ocultação e destruição de cadáver, corrupção de menores, sequestro e cárcere privado, extorsão mediante sequestro, constrangimento ilegal com uso de arma, associação criminosa e roubos.
A pena total estipulada a ele foi de 397 anos, oito meses e quatro dias de reclusão.
Horácio Carlos Ferreira Barbosa: considerado a segunda mente por trás dos crimes, Horácio foi condenado por 10 crimes de homicídio qualificado, ocultação e destruição de cadáver, corrupção de menores, extorsão mediante sequestro, sequestro e cárcere privado, constrangimento ilegal com uso de arma, associação criminosa, roubos e fraude processual.
No total, ele deverá cumprir 300 anos, seis meses e dois dias de reclusão.
Carlomam dos Santos Nogueira: segundo o Ministério Público, Carlomam teve participação direta nos sequestros e nas mortes. Ele foi condenado por 10 homicídios, extorsão mediante sequestro, corrupção de menor, ocultação e destruição de cadáver, sequestro e cárcere privado, ameaça com uso de arma, associação criminosa, constrangimento ilegal com uso de arma e roubos.
A pena determinada a Carlomam foi de 351 anos, um mês e quatro dias de reclusão.
Fabrício Canhedo Silva: condenado por cinco homicídios qualificados, extorsão mediante sequestro, ocultação e destruição de cadáver, corrupção de menores, associação criminosa, roubos, corrupção de menores e fraude processual.
A pena definida para Fabrício foi de 202 anos, seis meses e 28 dias de reclusão.
Carlos Henrique Alves da Silva: condenado por sequestro. Pena estipulada em 2 anos de reclusão.
Retrospectiva do Júri
O julgamento teve início na segunda-feira (13/4), por volta das 10h, e se estendeu até as 20h. Foram ouvidos depoimentos de seis testemunhas naquele dia.
Segundo dia : na terça-feira(14/4), 12 testemunhas, entre familiares e policiais que atuaram no caso, foram ouvidas no local até as 21h.
Terceiro e quarto dia: os réus prestaram depoimentos, na quarta (15/4) e quinta-feira (16/4), detalhando como foi a participação de cada um no crime.
Quinto dia: defesa e Ministério Público tiveram espaço para debater teses e acusações. Cada um teve 3h20 para discursar.
Sexto dia: após 11h de votação de 500 quesitos, jurados definiram a participação de cada um dos réus na empreitada criminosa. Em seguida, a sentença foi redigida e lida em Plenário.
Entenda o caso
- Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã (DF), e também para obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar seus familiares.
- Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil. As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina (DF), onde Marcos foi morto e enterrado.
- No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
- Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
- O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
- Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
- Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
- Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.
Disputa por terreno de R$ 2 milhões
Um terreno no Itapoã (DF), avaliado em R$ 2 milhões, teria motivado os assassinos a arquitetarem a morte de 10 pessoas. O local tem cachoeira privativa, ampla área de pastagem de gado e cerca de cinco hectares – equivalentes a 50 mil metros quadrados.
O plano seria assassinar toda a família e tomar posse do imóvel, sem deixar nenhum herdeiro vivo. O terreno, no entanto, sequer pertencia à vítima, o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro a ser brutalmente morto. A chácara era alvo de disputa judicial desde 2020, na qual os verdadeiros donos tentam recuperar a área.
Veja imagens do local antes da invasão


Alvo de disputa judicial, o terreno no Itapoã que teria motivado a maior chacina do Distrito Federal não pertencia a Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54, como ele teria dito a conhecidos
Reprodução

O homem, segundo os verdadeiros proprietários, teria invadido o local e recusado sair
Reprodução

Avaliado em R$ 2 milhões, o terreno no Itapoã que teria motivado a maior chacina do Distrito Federal tem cachoeira privativa, ampla área de capim de gado e cerca de 5 hectares – equivalente a 50 mil metros quadrados
Reprodução

Desde 2020, um processo corre na Justiça para que os donos das terras possam retomá-la por meios legais
Reprodução
Veja imagens do local após a invasão


Entrada do terreno
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Alvo de disputa judicial, o terreno no Itapoã que teria motivado a maior chacina do Distrito Federal não pertencia a Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54, como ele teria dito a conhecidos
Vinícius Schmidt/Metrópoles

O homem, segundo os verdadeiros proprietários, teria invadido o local e recusado sair
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Por isso, desde 2020 um processo corre na Justiça para que os donos das terras possam retomá-la por meios legais
Vinícius Schmidt/Metrópoles

O local onde parte das vítimas da chacina vivia está repleto de carros desmontados
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Local onde vivia vítimas da maior chacina do DF
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Morte de 10 pessoas da mesma família teria sido motivada pelo terreno, avaliado em R$ 2 milhões
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O Metrópoles apurou que a chácara foi adquirida pelos verdadeiros donos em 1982
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Marcus teria invadido o lugar em 2020, e mesmo após ser acionado pela Justiça, não deixou o terreno
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Cômodo da casa onde vivia parte da família vítima de chacina
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Parte do terreno que teria motivado 10 assassinatos
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Os integrantes da família foram atraídos para emboscadas e assassinados um a um. São eles:
- Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca.
- Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos.
- Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal.
- Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal.
- Elizamar da Silva – esposa de Thiago.
- Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar.
- Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos.
- Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia.


Elizamar e os filhos pequenos foram mortos
Arquivo Pessoal

No total, 10 pessoas de uma mesma família foram assassinadas em uma das maiores chacinas do Distrito Federal. Elizamar, dona de um salão de beleza na Asa Norte, é uma delas
Arquivo Pessoal

O corpo de Thiago Gabriel, marido de Elizamar, também foi encontrado após um boletim que indicou seu desaparecimento
Arquivo Pessoal

Os três filhos de Elizamar e Thiago – os gêmeos Rafael e Rafaela da Silva, 6, e Gabriel da Silva, 7 – estavam com a mãe no dia em que sumiram
Arquivo pessoal

Renata Juliene Belchior, de 52 anos, e Gabriela Belchior de Oliveira, de 25 anos, mãe e irmã de Thiago, também foram mortos
Reprodução

Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54, esposo de Renata, desapareceu juntamente com a esposa e a filha Gabriela. O corpo dele foi achado dentro do um cativeiro em que integrantes da família dele foram encontrados
Reprodução

Cláudia Regina Marques de Oliveira e Ana Beatriz Marques de Oliveira, ex-esposa e filha de Marcos Antônio Lopes de Oliveira, respectivamente, também estão mortas
Reprodução/Arquivo Pessoal

Fabrício Silva Canhedo, 34 anos; Horácio Carlos Ferreira Barbosa, 49 anos; e Gideon Batista de Menezes, 55 anos, estão presos após assumirem participação no sumiço da família
Repprodução
Execução do crime
A primeira ação ocorreu em 27 de dezembro de 2022, quando Marcos, a esposa dele, Renata, e a filha Gabriela foram rendidos dentro de casa. O grupo roubou R$ 49,5 mil das vítimas e levou os três para um cativeiro em Planaltina. Marcos foi morto logo depois, enquanto as duas permaneceram vivas.
A partir daí, os criminosos passaram a usar os celulares das vítimas para se passar por elas e atrair outros integrantes da família. Nos dias seguintes, Cláudia e Ana Beatriz foram enganadas, sequestradas e levadas ao mesmo cativeiro.
Depois, o grupo atraiu Thiago, filho de Marcos, que também foi rendido. Com acesso ao celular dele, os criminosos chegaram até a esposa de Thiago, Elizamar, que foi atraída junto com os