A transformação digital no agronegócio global passou a ocupar um novo lugar dentro da Syngenta. Mais do que digitalizar processos, a companhia avança para integrar dados, inteligência artificial e a própria lógica de comercialização de insumos.
No centro desse movimento está o brasileiro André Piza, 48 anos, engenheiro de computação e atual Head Global de AgTech da empresa.
Pela primeira vez, um executivo do Brasil ocupa uma posição desse nível na estrutura global da companhia nessa área, com a missão de estruturar uma plataforma capaz de conectar produtores, algoritmos e decisões agronômicas em escala mundial. A ambição é alcançar 100 milhões de hectares até 2030. Hoje, são cerca de 76 milhões, sendo 15 milhões monitorados no Brasil.
“Quando fui contratado para o cargo atual, o desafio era grande, pois o meu antecessor na posição tinha acabado de se tornar o CIO da empresa, então, imagine a pressão”, afirma Piza, ao relembrar o contexto da transição com o executivo indiano Feroz Sheikh, seu chefe, que também é o Chief Digital Officer (CDO), executivo sênior responsável pela estratégia de dados ou transformação digital do Syngenta Group.
O movimento ajuda a explicar a guinada estratégica da companhia. Em um setor historicamente orientado por produto, a aproximação com o produtor, mediada por dados, passa a ser um ativo central.
A digitalização, nesse cenário, deixa de ser suporte e assume função direta na geração de receita, ao conectar recomendação agronômica à venda de sementes e defensivos.
Essa mudança ganha peso diante da trajetória recente do faturamento. Depois de atingir US$ 19,96 bilhões (R$ 99,8 bilhões) em 2022, a companhia perdeu ritmo, com US$ 19,20 bilhões (R$ 96,0 bilhões) em 2023 e cerca de US$ 17 bilhões (R$ 85,0 bilhões) em 2025. Retomar crescimento passa, necessariamente, por reorganizar essa relação com o campo , e é aí que entra o digital.
Da tecnologia ao campo
A trajetória de Piza ajuda a entender esse movimento de mudança. Sua formação está longe do padrão tradicional do agro.
Engenheiro de computação, construiu carreira no mercado financeiro e no comércio eletrônico, passando por instituições como Itaú, participando da criação do banco C6 e liderando equipes de tecnologia na Dafiti, com atuação em diferentes países da América Latina.
O ingresso no setor agrícola veio por convite direto da liderança global da Syngenta, em um momento em que a empresa buscava algo além da evolução incremental: precisava integrar estruturas dispersas e dar escala a uma estratégia digital ainda fragmentada.
Foi esse o cenário encontrado ao chegar. Startups adquiridas , como a brasileira Strider e a americana FarmShots , operavam de forma independente, com pouca conexão entre si.
A reorganização começou pela base. O time de engenharia, que tinha cerca de 100 pessoas, foi ampliado para aproximadamente 750 profissionais, distribuídos entre Brasil, Espanha, Estados Unidos, Índia, Reino Unido e Ucrânia.
A partir daí, a construção ganhou outra dimensão. Instalado na sede global, na Suíça, Piza liderou a consolidação dessas frentes em um único ambiente: o Cropwise.
A ferramenta evoluiu para plataforma e, mais recentemente, para um ecossistema aberto, presente em mais de 30 países e com cerca de 50 mil produtores conectados.
“O Cropwise nasceu como uma plataforma de tecnologia; não foi apenas um posicionamento de marketing, nós a estruturamos tecnicamente para ser global”, afirma.
O ponto central, porém, não está apenas na tecnologia em si, mas no que ela viabiliza.
Ao estruturar essa base, a companhia passou a reorganizar o próprio modelo de relacionamento com o agricultor.
A estratégia chamada internamente de “Cropwise Plus” materializa essa mudança. Com acesso a dados como clima, solo e histórico produtivo, a empresa passa a oferecer recomendações mais precisas , e, ao mesmo tempo, amplia sua capacidade de posicionar insumos de forma mais assertiva.
IA reduz complexidade e amplia acesso

É nesse ambiente que a inteligência artificial ganha protagonismo.
Para Piza, a tecnologia não cria dados, mas redefine a forma como eles são utilizados. Ao processar grandes volumes de informação, reduz a complexidade técnica e aproxima o produtor das ferramentas digitais.
“A IA vai mudar a forma como consumimos soluções, baixando a barreira da complexidade tecnológica e deixando as ferramentas mais democráticas e impactantes”, afirma.
O efeito é direto: menos dependência de interpretação especializada e maior capacidade de uso no dia a dia da operação.
Isso muda também a lógica da tomada de decisão. A agricultura deixa de operar olhando apenas para o histórico e passa a incorporar previsões, com recomendações mais ajustadas ao momento e ao contexto de cada área.
O valor dos dados no campo
Essa transformação só se sustenta com dados consistentes. É nesse ponto que o Cropwise Operations se consolida como núcleo da estratégia, reunindo informações detalhadas sobre toda a jornada produtiva.
Com essa base, torna-se possível comparar áreas, identificar padrões e entender, com maior precisão, as diferenças de desempenho dentro da própria fazenda.
Ao mesmo tempo, a captura dessas informações também evolui.
O sistema passa a integrar máquinas, sensores, estações climáticas e dispositivos de IoT, além de imagens de satélite e análises de solo. A tendência é que o processo seja cada vez menos manual e mais automatizado , o que amplia a confiabilidade das análises e reduz ruídos na tomada de decisão.
Ecossistema aberto e inovação distribuída

Com a infraestrutura consolidada, o passo seguinte foi ampliar o alcance da inovação.
A abertura do ecossistema permite que desenvolvedores externos utilizem a base tecnológica da companhia para criar soluções específicas, adaptadas a diferentes realidades.
Ao disponibilizar APIs e ferramentas, a Syngenta reduz a necessidade de investimentos pesados em pesquisa e desenvolvimento, especialmente em regiões com menor acesso a tecnologia.
“Nosso objetivo é criar uma ponte tecnológica: desenvolvedores locais não precisam investir 20 anos em pesquisa, pois já entregamos a infraestrutura pronta para resolverem problemas específicos”, afirma.
Na prática, isso amplia a capilaridade da inovação e reduz a desigualdade tecnológica no campo , ao mesmo tempo em que fortalece a presença da companhia em mercados estratégicos.
Brasil no centro da transformação
Dentro desse movimento, o Brasil ocupa uma posição singular. Além da escala produtiva, o País se consolidou como um dos polos de desenvolvimento tecnológico da companhia, com equipes responsáveis por soluções globais em áreas como monitoramento, satélite e gestão de dados.
“O Brasil é o ‘espaço’. O agro está na nossa raiz e o país precisa de ajuda para tornar essas produções cada vez mais rentáveis e sustentáveis”, afirma Piza.
A combinação entre escala, tecnologia e demanda por eficiência coloca o País no centro da transformação digital do agronegócio.
Para a Syngenta, esse movimento vai além da inovação. Trata-se de uma estratégia de crescimento estruturada sobre dados, proximidade com o produtor e maior precisão na oferta de insumos , em um mercado que passa a ser, cada vez mais, orientado por inteligência.