O primeiro trimestre de 2026 testou a resiliência dos mercados globais. A guerra entre Estados Unidos e Irã, somada às interrupções no fornecimento de energia e à perspectiva de juros elevados por mais tempo, obrigou investidores a absorver múltiplos choques simultaneamente.
Esses fatores colocaram a incerteza como um fator central na tomada de decisões. A escalada das tensões geopolíticas não apenas pressionou os preços de energia, como também alterou as expectativas para a política monetária.
Em outras palavras, com riscos inflacionários mais persistentes, bancos centrais passaram a sinalizar um ambiente de condições financeiras mais restritivas, adiando o ciclo de flexibilização.
Segundo o relatório trimestral do Citi Wealth,”The Short and Long”, nesse cenário, o caminho para a proteção do portfólio é claro — concentrar os investimentos nas ações de grandes empresas dos Estados Unidos, utilizar o ouro como instrumento de preservação de capital e buscar oportunidades na “Inteligência Artificial Física”.
“Desenhamos nossas visões para o longo prazo, ao mesmo tempo em que buscamos identificar oportunidades de mercado de curto prazo”, destaca o estudo.
Refúgio nos EUA
Na prática, quando a tempestade chega, o capital flui para onde há previsibilidade. O Citi Wealth explica que reduziu sua exposição às ações europeias em favor das grandes empresas dos Estados Unidos.
Isso porque a Europa, como uma região importadora de energia, encontra-se no epicentro do conflito no Oriente Médio. A alta no custo do gás natural e do petróleo pressiona a inflação europeia, espremendo as margens de lucro de suas empresas industriais, e consequentemente deteriorando o cenário de crescimento local.
De acordo com o documento, a energia e os alimentos compõem em torno de 25% de todo o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) da Zona do Euro. Ou seja, qualquer disrupção no Oriente Médio ou aumento no preço do gás natural se projeta em 25% da cesta de inflação da região.
Também a margem líquida esperada para as empresas europeias é de 11,2%, contra 14,7% das grandes companhias dos EUA, como o S&P 500. A revisão das expectativas de lucro para os próximos 12 meses na Europa cresceu apenas 1,6% — ante a revisão positiva de 7% vista no S&P 500.
Em contrapartida, a economia norte-americana tem demonstrado resiliência, sustentada pelo mercado de trabalho estável e níveis saudáveis de consumo. Além disso, os Estados Unidos já possuem independência energética. O relatório mostra que os lucros das empresas dos EUA, como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), subiram para 13,2% no final de 2025 — um salto em relação aos 11,5% registrados no final de 2019, pré-pandemia.
O estudo ainda chama atenção para o porte das empresas. O Citi mantém a recomendação de subponderar (underweight) as small caps americanas — companhias de pequena capitalização —, diante de uma vulnerabilidade maior ao atual ambiente de juros elevados.
Isso ocorre pois uma parcela relevante dessas empresas depende de financiamento de curto prazo e está exposta a dívidas com taxas flutuantes, aumentando a sensibilidade ao custo do capital e pressionando os resultados.
Escudo dourado
Historicamente, de acordo com o Citi, em momentos de crise, os investidores recorriam aos títulos de dívida de longo prazo dos EUA para equilibrar os riscos das ações. Porém, com a pressão inflacionária persistente e os crescentes déficits fiscais dos governos, o risco de perdas com a queda no preço desses títulos aumentou.
Como substituto, o estudo destaca o ouro como uma estratégia de diversificação e proteção. À medida que a confiança geopolítica se desgasta, entidades globais e bancos centrais estão buscando reduzir sua dependência de moedas fiduciárias tradicionais.
De acordo com dados do Citi Wealth, o ouro provou sua força ao entregar um retorno 25% superior ao das ações globais — medidas pelo índice MSCI ACWI — e 36% maior que o dos títulos de dívida globais no último ano.
A principal vantagem é que esse ativo mantém seu valor ao longo do tempo, sem que se perca o poder de compra. Ou seja, são investimentos que conseguem performar bem e trazer segurança em momentos de crise.
O ouro tem correlação negativa com os índices de ações. Em outras palavras, ele possui dinâmicas próprias. Assim, quando a bolsa sobe ou desce, por exemplo, o metal não acompanha esses movimentos.
Longo prazo
Enquanto as ações e o ouro protegem o portfólio no curto e médio prazo, segundo o estudo, as maiores oportunidades de criação de riqueza para o futuro estão na intersecção da inteligência artificial (IA) com a infraestrutura física.
O relatório do Citi destaca que a IA está atingindo um “ponto de inflexão comercial” no mundo. Os investimentos bilionários no setor estão saindo da capacidade digital de software para a “capacitação física”.
Para o estudo, isso significa o surgimento de modelos de Visão-Linguagem-Ação (VLA), que permitem à IA executar ordens físicas por meio de robótica, sensores e automação industrial.
Segundo Kate Moore, Diretora de Investimentos (CIO) do Citi Wealth, essa nova onda exige um olhar além da volatilidade imediata. “Setores antes vistos como cíclicos são cada vez mais influenciados por forças duradouras e de longo prazo”, afirma Moore.