Nem tudo se aproxima do fim à medida que o tempo passa. É verdade que, quando falamos de organismos biológicos, a lógica parece simples: quanto mais uma árvore, uma estrela ou uma pessoa viveram, menos viverão. Curiosamente, quando falamos de ideias, tecnologias e instituições, a relação entre tempo e expectativa de vida muitas vezes se inverte. É dessa inversão que parte o chamado Efeito Lindy. Segundo essa lógica, quanto mais tempo uma tecnologia sobrevive, maior tende a ser sua expectativa de permanência.
Sob essa lente, poucas tecnologias parecem tão resilientes quanto o dinheiro. Suas primeiras formas surgiram na Antiguidade, há milhares de anos. Sal, grãos, conchas e metais cumpriram, em diferentes contextos, funções monetárias importantes. Antes do dinheiro propriamente dito, as trocas eram feitas à base do escambo, um meio transacional extremamente ineficiente. Afinal, não é fácil encontrar alguém que tenha o que você quer e, ao mesmo tempo, queira o que você tem.
Por volta de 650 a.C., na Lídia, região da atual Turquia, surgiram algumas das primeiras moedas metálicas cunhadas de forma padronizada. Ainda rudimentares, elas já atendiam a características que continuariam centrais para qualquer tecnologia que pretenda exercer a função de dinheiro, ou seja, servir como meio de troca, reserva de valor e unidade de conta.
Por muito tempo, essa tecnologia mudou menos do que se imagina. Os processos de cunhagem evoluíram, os materiais variaram e as formas se sofisticaram, mas os fundamentos permaneceram, em grande medida, os mesmos: um bem relativamente escasso, amplamente reconhecido e aceito em trocas.
Mas, à medida que o Estado ampliava sua influência sobre essa tecnologia, controlar a moeda passou a significar não apenas organizar trocas, mas também expandir a base monetária para financiar gastos sem aumento imediato de impostos, corroendo o poder de compra da população. No século 21, esse processo ganhou uma dimensão adicional: o dinheiro passou a funcionar também como instrumento de pressão geopolítica.
A weaponização do dinheiro, ou seja, o uso de moedas, reservas internacionais e sistemas de pagamento como instrumentos de coerção, é uma chave importante para entender o que está por trás da valorização de ativos como ouro e bitcoin e, ao mesmo tempo, do enfraquecimento da percepção do dólar como reserva neutra e incontestável.
O Irã convive com sanções americanas há décadas, desde 1979, após a Revolução Iraniana, um de seus marcos centrais. No caso russo, o processo ganhou nova escala em fevereiro de 2022, após a invasão da Ucrânia, quando parte relevante das reservas do Banco Central da Rússia foi bloqueada e bancos russos específicos foram excluídos da rede Swift. Não por acaso, Moscou já vinha se preparando havia anos para um ambiente de maior hostilidade financeira, acumulando ouro de forma consistente.
Em um ambiente cada vez mais volátil, a China também ampliou de forma significativa suas compras de ouro por meio de seu banco central. A partir de novembro de 2022, poucos meses após as sanções ocidentais atingirem a Rússia, o People’s Bank of China voltou a elevar suas reservas, reforçando o papel do ouro como esse tipo de ativo.
Cidadãos também buscam alternativas quando confrontados com a weaponização do dinheiro. Em ambientes de guerra, sanções e risco de apreensão, a combinação entre mobilidade e autocustódia torna ativos digitais mais atraentes. O caso recente do Irã é ilustrativo.
Após os ataques de 28 de fevereiro de 2026, as saídas de cripto de corretoras iranianas dispararam, somando cerca de US$ 10,3 milhões em poucos dias, com parcela relevante dos recursos migrando para carteiras pessoais e exchanges estrangeiras. Quando o dinheiro passa a ser usado como instrumento de coerção, cresce a demanda por alternativas como o bitcoin.
O ponto central é que a weaponização do dinheiro altera não apenas relações diplomáticas; altera também critérios de precificação. Em um mundo no qual reservas internacionais podem ser congeladas, bancos podem ser excluídos do sistema de pagamentos e moedas podem operar como instrumentos de coerção, investidores e governos passam a atribuir mais valor a atributos que antes pareciam secundários: neutralidade política, mobilidade, risco de contraparte e resistência a bloqueios.
Sob essa ótica, ouro e bitcoin se beneficiam, mas por razões diferentes. O ouro ganha força por ser uma reserva histórica, menos exposta à infraestrutura financeira dominada pelo dólar. O bitcoin, por sua vez, ganha relevância por combinar escassez, portabilidade e autocustódia em um ambiente de crescente tensão geopolítica. Já o dólar, embora siga central no sistema internacional, passa a conviver com um novo desafio: quanto mais é utilizado como instrumento de pressão, mais incentiva governos e indivíduos a diversificarem suas reservas e buscarem alternativas.
Mais do que uma simples rotação de portfólio, o que parece estar em curso é uma reprecificação dos ativos monetários. Em um ambiente no qual o dinheiro voltou a ser usado como arma, ativos percebidos como mais neutros, mais portáteis ou menos vulneráveis à coerção tendem a ganhar relevância.
O dinheiro nos acompanha há milhares de anos e, ao que tudo indica, continuará conosco por muitos outros. Em um momento no qual neutralidade, portabilidade e independência voltam a ganhar valor, talvez a questão mais importante não seja se o dinheiro sobreviverá, mas a quem ele servirá.
*Por Pedro C. Saraiva, economista e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
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