Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole de 30 de abril
Do lado de fora, quase nada revela o que existe além do portão. Em plena Orla da Boca do Rio, de frente para o Centro de Convenções de Salvador e ao lado da requintada churrascaria Boi Preto, a fachada discreta, marcada por paredes escuras e uma entrada sem letreiros ostensivos, guarda um lugar que há anos circula mais pelo imaginário do que pela experiência concreta de muitos soteropolitanos.
Não por falta de curiosidade, mas porque a Platinum, criada há dez anos, parece existir justamente nesse território do mistério, alimentado pelo que não revela. A casa de entretenimento masculino mais luxuosa da cidade opera sob uma lógica rara em tempos de excesso e exposição: quanto menos se mostra, mais instiga. Antes mesmo de cruzar a porta, a Platinum ensaia a sensação de entrar em um universo reservado, construído para ser descoberto por poucos e comentado por muitos.
Ao atravessar a recepção, a primeira impressão já não remete aos cenários clássicos dos cabarés que povoam o senso comum. Não há excessos gritados, erotização espalhafatosa, tampouco o tumulto esperado de um ambiente associado a uma casa noturna especializada em fornecer prazer. A realidade se assemelha à lógica dos clubes privados. “Esse tipo de negócio pode escorregar facilmente para a vulgaridade, então, houve um rigor grande para que o projeto se sustentasse no requinte e no luxo”, afirma Ana Paula Guimarães, arquiteta responsável pelo projeto.
Sigilo é regra
O cliente que chega encontra um balcão onde uma funcionária explica os trâmites de entrada. Aqueles que estão passando pela primeira experiência precisam preencher uma ficha cadastral. A entrada custa em média R$ 300, sendo R$ 180 revertidos em consumação, e permite permanecer na casa do meio-dia às três da manhã, horário em que a Platinum opera, de segunda a sábado. Um check-in quase que hoteleiro onde, no passado, funcionou de fato um hotel: o Solar Diana.
É também na recepção que se apresentam as primeiras regras, como o funcionamento da casa e a dinâmica entre clientes e modelos. O protocolo de sigilo começa ali. Celulares recebem um selo anticlique, fotografias são proibidas e descumprir a regra pode significar ser retirado de lá e entrar em uma espécie de lista de proscritos que impede novos acessos. “O que acontece na Platinum fica na Platinum”, sentencia a diretora da Platinum, Ausy Pezzangora.
No salão principal, a casa começa a se revelar em camadas. O primeiro ambiente é o restaurante. Ele produz o mais inesperado dos contrastes. Mesas de madeira distribuídas sob luzes quentes, plantas integradas à decoração e um clima que remete mais a um lounge sofisticado. É uma das áreas mais iluminadas do espaço e talvez por isso pareça uma espécie de antessala. O alto padrão é visto em tudo — da iluminação ao aroma.
Sala Vermelha
A percepção se aprofunda alguns passos adiante, na chamada Sala Vermelha, onde até a luz muda de gradação. O vermelho escuro não domina o espaço; envolve, mas vai além da ideia vulgarizada de uma maison masculina. Espelhos multiplicam os reflexos na penumbra, sofás baixos desenham pequenos refúgios e as luzes reduzidas tornam rostos quase indistintos.
Na noite em que a reportagem do Jornal Metropole foi autorizada a visitar a Platinum, segunda-feira (27), uma televisão ligada em um jogo de futebol passava quase despercebida. Há uma sensação curiosa de intimidade pública, como se o lugar tivesse sido pensado para desaparecer em si mesmo.
Entre, clubes, baladas e segredos
Atrás de uma parede envidraçada, fileiras de garrafas de whisky ocupam prateleiras como peças de coleção. Algumas pertencem a frequentadores que pagam para mantê-las ali por anos, como quem reserva um lugar na própria casa. O Clube do Whisky da Platinum tem algo de clube inglês transplantado para Salvador e cria uma liturgia masculina com sensação de pertencimento. O bar reforça a vocação do lugar como refúgio. Não raro, clientes passam horas entre charutos, shots de single malt e conversas de negócios, sem necessariamente avançar para outros rituais da casa.
Mais adiante, o percurso leva à Balada, um dos ambientes mais reservados da casa e o que melhor sintetiza sua vocação para o segredo. Reservável por cerca de R$ 500 para uso privativo, a sala é quase toda imersa em sombra. Pontos de luz azul atravessam a escuridão em lampejos discretos, enquanto um sofá contínuo acompanha as paredes como se desenhasse um abrigo em torno do salão. No centro, a barra de pole dance surge quase como peça de cenário. Há um clima de clandestinidade sofisticada que paira sobre o ambiente, como se ele existisse apartado do restante da casa, em uma frequência própria.
Palco da noite
Ao deixar a penumbra e atravessar a passagem para a área externa, o espaço se abre de súbito. A água iluminada da piscina é a primeira imagem que captura o olhar e projeta reflexos sobre o entorno. Em volta dela, mesas, lounges, áreas reservadas e pequenos recantos compõem o maior núcleo da Platinum, cenário das festas temáticas que ajudaram a construir a fama do lugar.
É ali que ganham vida noites como Lavagem, Halloween, Noite do Cabaré e até uma Oktoberfest lançada pela casa antes de virar moda em outros clubes da cidade. São festas glamourosas, insiste em frisar a direção do espaço, e nunca vulgares.
É nesse espaço que a dinâmica da Platinum se mostra com mais clareza. As mulheres circulam na área externa em vestidos que lembram trajes de festa, com cortes sensuais e elegância controlada. Não há jeans, shorts ou vulgaridades. Existe um código de vestimenta rígido que sustenta o padrão visual cultivado pela casa. Só em noites temáticas, como a Mansão das Coelhinhas, surgem figurinos caracterizados.
RP rege a coreografia dos encontros na Platinum
Quando o cliente é novo, o relações públicas da Platinum é acionado para recepcioná-lo e apresentar o espaço. A figura é uma engrenagem central desse universo. As modelos são proibidas de abordar clientes. Por isso, o contato entre os clientes e as modelos é feito exclusivamente pelo RP, funcionário responsável por intermediar encontros e conduzir a experiência. Se um cliente deseja conhecer alguém, aciona o RP. Se quer trocar de companhia, também. Até conflitos ou desconfortos passam por essa mediação. Nem garçons podem intervir.
Essa lógica de mediação é apresentada pela direção como parte de um cuidado mais amplo com o funcionamento da casa. Apesar da mediação do RP, o pagamento é feito do cliente para a modelo. “O grande diferencial daqui é o cuidado com as modelos. O cachê é integralmente delas, negociado diretamente com o cliente. A casa não interfere nisso. O que a Platinum comercializa são os serviços que oferece, como hospedagem, alimentos e bebidas”, afirma Ausy Pezzangora.
Caminho da felicidade
A escada em espiral que leva ao piso superior, apelidada de “caminho da felicidade”, funciona como passagem para outra camada desse universo. No andar de cima, um corredor silencioso concentra as suítes e reforça a sensação de se estar em um hotel.
Há uma pequena recepção no pavimento, onde se resolvem pagamentos dos quartos e, em muitos casos, já se encaminha a negociação privada entre cliente e modelo. O cachê parte de R$ 600, piso informal estabelecido para preservar o padrão da casa, embora a definição final seja totalmente delas.
A suíte standard impressiona pela sobriedade. Lençóis brancos, iluminação cálida, espelhos, roupões, frigobar, divã tantra. Custando R$ 180 por duas horas, o conjunto transmite conforto e cuidado, com uma estética longe do explícito associado ao mercado do sexo pago. Por R$ 210, as suítes spa ampliam esse registro com hidromassagem, banheiras e mais espaço.
Já os quartos temáticos chegam a R$ 300 por três horas e deixam a imaginação tomar conta. Esses ambientes funcionam como pequenos mundos montados para sustentar fantasias específicas.
Cada porta, um cenário
Tons dourados e vermelhos dominam o quarto Tailândia, em uma composição que flerta com o imaginário dos templos e palácios asiáticos. Entre tecidos, ornamentos e iluminação quente, uma imagem de Buda observa tudo com a serenidade de quem parece indiferente ao que acontece ao redor, um detalhe quase bem-humorado em meio ao excesso cenográfico.
No quarto Country, a fantasia mira o faroeste. Bancos moldados para simular cavalos, com cela e arreios, ocupam o quarto como peças que imediatamente roubam a atenção. Chapéus pendurados, pares de botas espalhados e referências ao universo sertanejo compõem o ambiente.
No Marrocos, arcos em ferradura, arabescos e luzes filtradas desenham a atmosfera de um riad íntimo, apostando em texturas, sombras e ornamentos. Rm tons profundos de verde, o quarto Selvagem aposta nas estampas felinas e referências que fazem o espaço se aproximar de uma espécie de selva domesticada.
Jogo de referências
O quarto Pin-Up rompe com esse repertório e mergulha em outro jogo de referências. No centro da suíte, uma Lambretta dos anos 1950 rouba a cena e transforma o quarto quase em um set cinematográfico. O vermelho vivo da motoneta dialoga com a cabeceira, enquanto pôsteres de pin-ups, espelhos e detalhes vintage reforçam a estética de uma era em que rebeldia e sedução andavam juntas. Há algo de divertido no ambiente, como se o quarto piscasse para o imaginário das antigas road movies e dos romances de garagem, entre o fetiche e a nostalgia.
No Moulin Rouge, a teatralidade toma conta. Tudo é vermelho, das paredes ao brilho difuso que tinge o ambiente e faz a suíte parecer permanentemente em cena. Lustres pendem do teto como em um camarim de cabaré, com cortinas espalhadas. A referência ao famoso cabaré parisiense aparece de forma dramática, exuberante e deliberadamente provocadora.
E há o 50 Tons, talvez a suíte mais cercada de curiosidade pelo imaginário sadomasoquista do conhecido filme homônimo. Não foi possível visitá-la porque estava ocupada, um detalhe que, por si só, já parece reforçar a mística do lugar. O que se encontra lá são acessórios pendurados e uma estética que assume o flerte com o universo fetichista sem rodeios. O restante fica para a imaginação, ou para quem consegue atravessar a porta em outro momento. Talvez seja apropriado que justamente o quarto mais cercado de fantasias tenha permanecido, para a reportagem, como um mistério reservado.
Exclusividade e reserva
Também nesse andar estão os camarotes reservados, com poltronas espalhadas, voltados para a área da piscina e protegidos por cortinas que reforçam a lógica de discrição. Frequentados por quem busca – ainda — mais privacidade, como empresários, políticos e jogadores, os espaços custam entre R$ 2.500 e R$ 5.000 e reforçam a arquitetura do sigilo que atravessa toda a casa.
Durante a visita, uma cena breve condensou esse universo com mais precisão do que qualquer explicação. Ao descer as escadas, uma modelo se despedia de um cliente com um aceno rápido, antes de seguir em direção aos dormitórios das hóspedes. Ele retomou o caminho para o salão. Nenhum gesto prolongado, nenhuma intimidade encenada. Apenas a naturalidade contida de um encontro que termina sem ruído.
A imagem traduziu algo central naquele ambiente — a sensação de que tudo ali é regido por uma etiqueta silenciosa. Nos espaços, nas circulações, nos encontros, existe uma contenção que organiza a experiência. Ela está na luz baixa, nas distâncias respeitadas, nos ambientes que se sucedem em camadas de intimidade.
Aposta que dá certo
Por trás da engrenagem de luxo e discrição, há uma aposta que, segundo o idealizador da Platinum, começou quase como provocação. O italiano Ludovico Pezzangora, dono do lugar, diz que ouviu desde o início que Salvador não teria público para uma casa daquele padrão. “Todo mundo dizia que era loucura. Mas eu sempre respondi que esse público existia, só não tinha para onde ir. A ideia foi criar um espaço”, afirma. A aposta, sustenta, acabou validada pela própria clientela.
Ao final do percurso, a impressão que fica é menos a de ter visitado uma casa de entretenimento masculino e mais a de ter atravessado uma engrenagem em que desejo, luxo e reserva foram cuidadosamente coreografados. “Meu sonho é desmistificar essa ideia de cabaré de baixo nível que muita gente ainda carrega. Se eu pudesse mostrar a Platinum para além desse olhar, seria o melhor dos mundos. Estamos falando da profissão mais antiga do mundo”, completa Ausy.