Há muitas maneiras de gerir grandes fortunas e uma delas é o modelo de endowment. Embora ainda pouco conhecido do grande público, a estrutura existe há décadas, principalmente nos Estados Unidos, e vem ganhando protagonismo entre os family offices.
Os endowments são fundos patrimoniais perpétuos vinculados, em geral, a universidades americanas, como Harvard e Yale. Eles nascem de doações feitas por ex-alunos e famílias ricas como forma de retribuir a instituição, e o capital recebido é investido para, indefinidamente, gerar rendimentos que sustentem a universidade ao longo das gerações.
Por exemplo, o endowment de Yale tem US$ 44 bilhões (R$ 220,14 bilhões) sob gestão. No ano passado tiveram um retorno de 11,1% e financia ⅓ dos gastos da universidade. Já o endowment de Harvard tem US$ 57 bilhões (R$ 285,18 bilhões) sob gestão e teve um retorno de 11,9% em 2025. Eles financiam cerca de 35-45% da receita da universidade.
Em outras palavras, o modelo pega esse dinheiro e aplica o capital em nome da própria universidade. A lógica de funcionamento é que o fundo gasta uma fração pequena do patrimônio por ano e o restante segue investido.
Entre as características de um fundo de endowment está o comportamento de investidor institucional. Ou seja, os endowments não compram produtos prontos no banco; eles vão aos gestores e se posicionam como investidores institucionais. Segundo a Jera Capital, uma carteira de endowment tem 25% em ações, 50% em ativos alternativos (private equity, venture capital e hedge funds), 10% em ativos reais como imóveis e infraestrutura (real estate), 10% em renda fixa e 5% em outros.
“Há duas únicas certezas absolutas no mercado financeiro: a diversificação sempre reduz o risco e um prazo mais longo sempre te gera mais retorno”, ressalta Felipe Nobre, fundador e CEO da Jera Capital.
Na prática, de acordo Nobre, ao adotar essa postura, o family office consegue capturar os descontos e reter para a família os rebates (comissões) que, no modelo tradicional, ficariam no bolso das instituições financeiras.
Em entrevista à Forbes Brasil, o CEO faz uma comparação: “Você pode ter o melhor time de futebol da várzea, você nunca vai ganhar uma Champions League. E o dinheiro que você tem já é para jogar na Champions League.” A seguir, veja os principais trechos da conversa com Felipe Nobre:
Forbes Brasil: Quais são as principais vantagens de adotar esse modelo?
Felipe Nobre: O primeiro ganho está no custo de implementação, que pode ser, em média, até 1% menor do que o de um banco, justamente pela eliminação de intermediários.
A segunda vantagem é o aumento da eficiência do portfólio na relação risco-retorno. Hoje, uma carteira concentrada no Brasil, com volatilidade entre 5% e 6% ao ano, tende a gerar cerca de 2% acima do CDI. Ao manter esse mesmo nível de risco, mas com diversificação internacional inspirada no modelo de endowment, é possível buscar retornos próximos de 6% acima do CDI. Na prática, isso significa potencializar os resultados sem elevar o risco.
Em torno de 70% dos portfólios de endowments estão em ativos privados — private equity, venture capital, real estate, infraestrutura — onde os melhores retornos estão concentrados, mas o acesso é restrito e exige relacionamento institucional. São oportunidades que não chegam à prateleira do varejo.
E há uma vantagem que decorre das três anteriores: a perenidade. Um portfólio construído com horizonte longo, custo baixo e diversificação global é também uma carteira mais resiliente a ciclos domésticos.
Forbes Brasil: E os desafios?
Felipe Nobre: O maior deles, no Brasil, é cultural. A geração que comanda o dinheiro das famílias mais ricas é, em sua maioria, a que construiu o patrimônio e que tem um apego maior aos private banks porque foi algo “que sempre foi assim”.
A barreira do idioma é uma segunda dificuldade. Diversificar internacionalmente exige conforto com contratos, extratos e relatórios em outras línguas, algo que a geração de fundadores hoje na faixa dos 60 ou 70 anos costuma resistir.
Há ainda uma dificuldade ligada ao tamanho do mercado. No Brasil, há em torno de 40 mil famílias com mais de R$ 20 milhões. Apenas algo como 5% a 6% desse patrimônio é gerido fora do private banking.
Forbes Brasil: A estratégia é adequada para qualquer família de alto patrimônio?
Felipe Nobre: Não. Tudo depende do que chamamos de “capital perpétuo”. Uma família com R$ 500 milhões, por exemplo, tem capacidade de sustentar três ou quatro gerações, consumindo menos de 1% do patrimônio ao ano.
Esse perfil permite assumir menor liquidez e prazos mais longos, com alocações em ativos globais travados por uma década em busca de retornos excedentes mais elevados, principalmente porque não há necessidade de resgatar recursos no curto prazo para despesas correntes.
Por outro lado, clientes que ainda estão em fase de geração de liquidez nas empresas, ou que possuem dependentes que exigirão recursos no curto prazo, não conseguem adotar esse modelo de forma integral.
Forbes: Como atrair investidores mais conservadores para essa estratégia?
Felipe Nobre: Virou quase uma missão de vida (brinca). Mas, na prática, mudamos o foco para as próximas gerações. Deixei de tentar convencer os patriarcas a transformar toda a estrutura e passei a trabalhar com os filhos.
Hoje, levamos esses sucessores aos Estados Unidos para conhecer de perto os endowments e gestores internacionais, expondo-os à lógica institucional na prática. A realidade deles já é global, pois estudam fora, consomem produtos importados e viajam com frequência. Naturalmente, o patrimônio também precisará ser dolarizado e diversificado.
Além disso, a tecnologia reduziu barreiras, ferramentas como o ChatGPT facilitam a comunicação e o acesso a estruturas no exterior.