A guerra no Irã e seus impactos sobre o petróleo e a energia seguem sem arrefecer em todo o mundo e o agro dos EUA não está fora dessa conta. A gasolina atingiu US$ 4,12 por galão (R$ 5,40) por litro há uma semana, ante US$ 2,80 por galão em janeiro. Esse é o preço mais alto desde o início dos combates, conforme noticiou a imprensa local.
Os preços nacionais da gasolina, em todas as formulações, são piores do que o veículo relatou. Excetuando-se os US$ 5 por galão registrados em 13 de junho de 2022, trata-se do valor mais alto desde agosto de 1990, segundo dados da Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês), conforme o gráfico do Federal Reserve Bank de St. Louis abaixo
A situação pode piorar ainda mais, não apenas se aproximando do pico de 2022, mas alcançando o que o custo costumava ser quando se leva em conta o impacto acumulado da inflação ao longo do tempo. Ajustado pela inflação com base no componente de energia do índice de preços ao consumidor, o preço atual ainda fica abaixo dos picos registrados em 2008 e no ciclo 2011-2014, quando o custo real por galão foi ainda mais elevado. Mas isso já pesa no bolso dos consumidores. O que tende a pesar ainda mais é o futuro imediato dos preços dos alimentos, porque, assim como a gasolina, eles dependem do preço do petróleo.
Os fertilizantes nitrogenados modernos têm forte ligação com o petróleo. Quando o preço do petróleo sobe, os fertilizantes encarecem e, consequentemente, o preço dos alimentos também. Existem formas orgânicas de fertilizantes, mas a maioria dos insumos utilizados em larga escala nos Estados Unidos é aquela vinculada ao petróleo.
O conflito no Oriente Médio exerceu forte pressão sobre o preço e a disponibilidade do petróleo. Diante de toda a incerteza nos processos de pacificação da região, tanto o Brent quanto o WTI voltaram a subir. Em 28 de abril, os contratos futuros de maio do Brent estavam em US$ 112,20 por barril (R$ 556,30, na cotação atual de R$ 4,96 por dólar), e o WTI, em US$ 100,40 (R$ 500). Os preços para entrega imediata podem ser ainda mais elevados.
O resultado está causando estragos nos agricultores. A American Farm Bureau Federation, grupo de lobby do setor agrícola, realizou uma pesquisa e constatou que 70% dos produtores não tinham recursos para adquirir todos os fertilizantes de que precisavam.
“As taxas de pré-contratação de fertilizantes variaram significativamente por região, com apenas 19% dos produtores do Sul relatando compras de fertilizantes asseguradas antes do início da safra, em comparação com 30% no Nordeste, 31% no Oeste e 67% no Meio-Oeste, refletindo diferenças nos prazos de decisão de plantio e a exposição a recentes aumentos de preços”, informou a AFBF.
Os preços do diesel agrícola, que abastece os maquinários pesados do setor (excetuando-se as pequenas propriedades, que não respondem pela maior parte da produção de alimentos do país), subiram 46% desde o fim de fevereiro, segundo a entidade.
A situação já era difícil para os agricultores. Segundo o Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a previsão de renda líquida total das fazendas em 2026 é de US$ 158,5 bilhões (R$ 786,2 bilhões). Embora isso represente um aumento de US$ 4,6 bilhões (R$ 22,8 bilhões), ou 3,0%, em relação a 2025 em termos nominais, quando ajustado pela inflação o crescimento é de apenas US$ 1,7 bilhão (R$ 8,4 bilhões), ou 1,1%.
A renda líquida em dinheiro das fazendas inclui as receitas em dinheiro provenientes da atividade agrícola e as rendas acessórias relacionadas (incluindo pagamentos do governo federal), descontadas as despesas em dinheiro. Não inclui itens não monetários, como variações de estoque, depreciação econômica e renda de aluguel imputada às residências dos operadores.
A renda líquida média em dinheiro por propriedade deve crescer 18,7% em relação a 2025, chegando a US$ 135.000 (R$ 667 mil) por estabelecimento em termos nominais. Considera-se “negócio agrícola” as fazendas com receita bruta anual em dinheiro (GCFI) igual ou superior a US$ 350.000 (R$ 1,74 milhão), ou operações com GCFI inferior a esse valor, mas nas quais a agricultura é a principal ocupação do operador.
As famílias de agricultores recebem renda proveniente tanto das atividades agropecuárias quanto de fontes externas à fazenda.
Os valores ajustados pela inflação contam uma história mais dura: a renda mediana proveniente da atividade agrícola segue negativa em 2026, projetada em US$ -1.161 (R$ -5.760), segundo o USDA. O que sustenta as famílias rurais é a renda obtida fora da propriedade, estimada em US$ 92.815 (R$ 460,3 mil) no mesmo ano, embora inferior em termos reais à registrada em 2021.
A renda mediana total das famílias de agricultores em 2026 é projetada em US$ 113.031 (R$ 560 mil), o maior valor da série iniciada em 2021, sustentada integralmente pela renda externa à fazenda. Fonte: USDA, Serviço de Pesquisa Econômica e Serviço Nacional de Estatísticas Agrícolas, com dados até fevereiro de 2026.
Nos últimos cinco anos, as receitas em dinheiro provenientes das lavouras vêm caindo, segundo a AFBF. Os custos de produção, por sua vez, seguem em alta. E se os agricultores não puderem adquirir todos os fertilizantes de que precisam, a produção de alimentos tende a cair. Oferta reduzida, demanda mantida.
Há formas de cortar custos de toda natureza, mas a alimentação é uma necessidade básica. As pessoas não podem simplesmente eliminá-la do orçamento. Os preços podem parecer estáveis por algum tempo, mas o período de plantio é agora. Os choques de mercado virão mais adiante no ano. E com eles, o impacto sobre a inflação.