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Andrea Illy, o Italiano Que Transforma Ciência do Café em Estratégia Global

Andrea Illy, 61 anos, cresceu ouvindo que café era uma questão de ciência. Não de marketing, nem de tradição familiar. Ciência. O conselho vinha do avô Francesco Illy, fundador da illycaffè em 1933 na cidade de Trieste, na Itália, ao orientar o filho Ernesto, pai de Andrea, a estudar Química para entender como produzir a melhor xícara da bebida. Hoje a companhia é uma das marcas mais influentes do mercado global de cafés premium.

“Meu avô me dizia também: ‘você deve estudar Química para compreender como fazer um café melhor’”, afirmou Andrea, atual presidente da illycaffè, durante mais uma de suas passagens tradicionais pelo Brasil para o 35º Prêmio Ernesto Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso, realizado ontem (7) na capital paulista. Antes da premiação, ele concedeu uma entrevista exclusiva à Forbes Agro.

O executivo está desde o início de maio visitando fazendas brasileiras fornecedoras da companhia e unidades de armazenagem e rebeneficiamento de café. O foco foi Minas Gerais. De São Paulo foi direto para a região das Matas de Minas, na divisa com o Espírito Santo. Passou pelo sudoeste do Estado até chegar na região do Cerrado Mineiro, na porção noroeste, que é uma área de destaque mundial na produção de cafés especiais de alta qualidade e reconhecida, desde 2013, como a primeira Denominação de Origem para café no Brasil.

Visitas como essas são muito especiais para o executivo. De certa forma, Andrea está acompanhando uma transformação que ele próprio ajudou a estimular ao longo das últimas décadas: a ascensão do Brasil de produtor de volume para referência internacional em cafés de alta qualidade.

Isso só foi possível porque Andrea seguiu à risca o conselho do avô e os passos do pai, trilhando o mesmo caminho acadêmico e transformaria essa herança em uma visão empresarial que hoje conecta qualidade, sustentabilidade, inovação e agropecuária regenerativa em uma mesma estratégia global.

“A química me ajuda a compreender toda a cadeia de produção: o solo, a planta, a torrefação, a conservação e até o impacto fisiológico do café na saúde”, diz.

Essa lógica familiar ajudou a transformar a illycaffè, que hoje está presente em 140 países. Em 2025, mesmo diante da disparada histórica do preço da matéria-prima, a companhia italiana alcançou receita consolidada de € 700 milhões (R$ 4,3 bilhões, segundo a cotação atual), alta de 12% a câmbio constante.

O crescimento foi puxado principalmente pelos mercados da Itália e dos Estados Unidos, em um momento em que o consumo global de café passa por uma mudança estrutural, pois a bebida deixa de ser apenas um produto funcional para se tornar uma experiência de valor agregado.

“O café está se tornando um produto experiencial”, afirmou. “Essa tendência alimenta a decomoditização.”

A fala do executivo resume uma transformação importante do setor. O consumidor passou a valorizar origem, rastreabilidade, sustentabilidade ambiental, variedade genética e métodos de preparo de forma semelhante ao que acontece há décadas com o vinho.

Nesse movimento, o Brasil começa a consolidar um novo papel no mercado internacional: além de maior produtor global em volume, passa a ganhar reconhecimento crescente pela qualidade.

Na variedade arábica, que é a menina dos olhos para a illy, o Brasil deve fechar a safra 2025/26 com 38 milhões de sacas de 60 quilos (2,3 milhões de toneladas de café), segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês). O país responde por 39,8% da produção mundial de arábica estimada pelo órgão americano em 95,5 milhões de sacas (5,7 milhões de toneladas).

O Brasil deixa de ser apenas volume

Divulgação/illycaffèGrãos torrados de café arábica

A relação entre a illycaffè e o Brasil ajudou também a mudar a própria imagem internacional do café brasileiro.

Durante décadas, o país foi visto principalmente como fornecedor global de volume. A produção de cafés de alta qualidade avançava, mas ainda sem o mesmo reconhecimento obtido por origens africanas ou centro-americanas.

A criação do Prêmio Ernesto Illy, há 35 anos, buscava justamente alterar essa lógica. A iniciativa passou a estimular produtores brasileiros a investirem em qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade, criando uma remuneração diferenciada para cafés superiores.

Hoje, mais de 20 mil cafeicultores já participaram da premiação.

A premiação nacional serviu de inspiração para o Prêmio Internacional Ernesto Illy, que completou 10 anos em 2025. O Brasil venceu na categoria máxima “The Best Of The Best” em 2023 e 2024.

“O grão brasileiro arábica de alta qualidade sempre teve aromas ligados ao chocolate”, afirmou Andrea Illy. “Mas hoje o Brasil está desenvolvendo cafés mais complexos, com notas florais e de fruta fresca.”

Na prática, o executivo descreve uma transformação silenciosa da cafeicultura brasileira. O país começa a ocupar simultaneamente dois espaços antes separados: liderança em escala e crescente protagonismo no segmento premium.

Qualidade nasce na fazenda

Divulgação/illycaffèProdutor monitorando frutos de café arábica no pé

Para Andrea Illy, um dos maiores equívocos históricos do setor foi acreditar que qualidade poderia ser construída apenas na indústria.

“A qualidade nasce na planta e não pode ser aumentada através do processamento”, afirmou. “Ela pode ser conservada ou amplificada, mas não aumentada.”

A frase ajuda a explicar a mudança de foco da cadeia produtiva mundial. O campo passou a ocupar posição central na diferenciação do produto. Manejo agronômico, genética, fermentação, clima, altitude e rastreabilidade ganharam importância crescente no mercado premium.

Hoje, a illy utiliza sistemas eletrônicos capazes de selecionar cerca de 10 mil grãos por segundo em busca de defeitos.

“Basta um grão defeituoso para arruinar toda a xícara”, disse Andrea Illy.

Essa lógica de controle extremo de qualidade se tornou um diferencial competitivo importante justamente em um período de forte pressão sobre os preços internacionais do café. Em 2025, segundo a companhia, o preço médio da matéria-prima atingiu 368 centavos de dólar por libra-peso, patamar três vezes superior à média histórica desde 1972 e mais de 50% acima do registrado em 2024.

Ainda assim, a empresa conseguiu manter crescimento de dois dígitos em seus principais mercados.

Agropecuária regenerativa entra na estratégia do café premium

A busca por qualidade também passa a caminhar junto com a agenda ambiental.

Andrea Illy se tornou um dos principais defensores internacionais da agricultura regenerativa aplicada ao café, conceito baseado na recuperação do solo, ampliação da biodiversidade e redução da dependência de agroquímicos.

“O problema da insustentabilidade sistêmica da nossa economia é que aplicamos, desde a Revolução Industrial, um modelo extrativo, como se os recursos fossem infinitos”, afirmou.

A preocupação não é apenas ambiental. As mudanças climáticas já começam a ameaçar regiões tradicionais de cultivo de café arábica no mundo. Temperaturas mais elevadas, irregularidade hídrica e eventos extremos passaram a representar riscos diretos para produtividade e qualidade.

Nesse cenário, o Brasil novamente ganha importância estratégica.

Além da escala produtiva, o país reúne diversidade climática, capacidade tecnológica e instituições de pesquisa capazes de acelerar práticas regenerativas. A illy mantém hoje parcerias com Embrapa, universidades e institutos climáticos voltados ao desenvolvimento de sistemas mais sustentáveis de produção.

“A agropecuária regenerativa conserva o solo, preserva biodiversidade e reduz a necessidade de água”, diz Andrea. “Ao enriquecer o solo com carbono orgânico, você restaura a microbiota e sequestra carbono da atmosfera.”

O café como experiência global

Getty ImagesXícaras de café com variadas formas de extração da bebida

A transformação do café em produto premium ajuda também a explicar os movimentos recentes da illycaffè.

Em 2025, a companhia concluiu duas aquisições estratégicas: a compra da distribuidora suíça illycaffè AG e da fabricante de máquinas Capitani, especializada em sistemas domésticos de preparo.

A estratégia é controlar cada vez mais toda a experiência sensorial do consumidor, da fazenda à xícara.

Hoje, cerca de 10 milhões de xícaras da marca são consumidas diariamente no mundo.

Para Andrea Illy, o futuro do café dependerá menos de volume e cada vez mais da capacidade de unir identidade, experiência e responsabilidade ambiental.

“Qualidade, sustentabilidade e beleza precisam caminhar juntas”, afirmou.

Na visão do executivo, o Brasil entra nessa nova etapa do mercado global em posição privilegiada. Depois de décadas consolidando sua liderança pela escala, o país começa agora a ganhar protagonismo justamente na parcela mais sofisticada e rentável da cafeicultura mundial.

A família que ajudou a moldar o espresso moderno

Divulgação/illycaffèFábrica da illycaffè em Trieste, cidade na porção nordeste da Itália

A história da illycaffè se mistura à própria evolução do café premium no mundo. Francesco Illy fundou a empresa em Trieste, cidade portuária do nordeste italiano historicamente ligada ao comércio cafeeiro europeu, após deixar o antigo Império Austro-Húngaro.

Naquele período, o café espresso ainda era uma tecnologia rudimentar. O espresso, método em que água quente passa sob alta pressão pelo café moído, produzindo uma bebida concentrada, cremosa e aromática, começava a ganhar espaço nos cafés italianos, mas ainda apresentava limitações técnicas.

Foi Francesco Illy quem ajudou a transformar esse sistema.

“Ele percebeu que, para melhorar a qualidade da xícara, precisava de água em temperatura mais baixa. O problema é que a pressão vinha do vapor”, contou Andrea Illy. “Então introduziu um compressor e nasceu o espresso pressurizado.”

O avanço permitiu maior estabilidade na extração dos aromas e ajudou a criar as bases do espresso moderno consumido hoje em cafeterias ao redor do mundo. Francesco Illy também desenvolveu um sistema de acondicionamento em latas pressurizadas com nitrogênio para preservar os aromas do café.

Desde então, a busca obsessiva por qualidade se tornou parte da identidade da companhia. E não importa se, por exemplo, o café o espresso ou o coado. Cada qual tem seu valor, para Andrea.

“A característica principal do expresso é o corpo e a crema. Para isso, o café do Brasil é excelente: cremoso, encorpado e com aroma de chocolate. Já para o café de filtro, os cafés mais “finos”, florais e frutados, típicos dos cafés lavados da América Central e África, funcionam muito bem.”



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