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Como Funciona Máquina Bilionária de Lobby de Wall Street

Todas as manhãs de segunda-feira, um exército de mais de 1.200 lobistas registrados se espalha pelo Capitólio, muitos deles carregando cartões de visita dos maiores lobbies e bancos dos Estados Unidos. Eles formam a linha de frente de uma operação de influência que, sob qualquer métrica, não encontra paralelo na política americana, gastando centenas de milhões de dólares por ano para moldar as regras que regem a indústria bancária de US$ 24 trilhões (R$ 120 trilhões) do país.

Infelizmente, a população comum não conta com um lobby em Washington que defenda proteção contra a onda de desregulamentação que atinge todos atualmente. E, se os bancos quebrarem, os legisladores irão socorrer os bancos ou a população?

Uma indústria maior do que todas as outras

O setor financeiro não apenas gasta mais do que a maioria das indústrias. Ele opera em uma escala completamente diferente. Embora as farmacêuticas recebam a maior parte da atenção como os maiores gastadores de Washington, o setor financeiro combinado — incluindo bancos, seguradoras, corretoras e interesses imobiliários — representa, ano após ano, a presença de lobby mais consistente e robusta da capital americana.

No nível das instituições individuais, os números são menores, mas ainda impressionantes. O JPMorgan Chase, maior banco dos Estados Unidos, gastou US$ 3,6 milhões (R$ 18 milhões) em lobby federal em 2024 e reportou US$ 8 milhões (R$ 40 milhões) em contribuições políticas no ciclo eleitoral daquele ano. O Bank of America informou US$ 2,4 milhões (R$ 12 milhões) em despesas diretas com lobby federal, mas também revelou outros US$ 8,1 milhões (R$ 40,5 milhões) pagos a associações do setor destinadas a atividades de lobby, categoria que, segundo críticos, permite que os bancos escondam o verdadeiro tamanho de seus gastos políticos.

Os bancos comerciais nem sempre estiveram alinhados aos republicanos. No início dos anos 1990, o setor dividia seu apoio de maneira relativamente equilibrada entre os dois partidos. Isso começou a mudar ao longo da década e, nos anos 2000, um padrão já estava claro: bancos comerciais tendem aos republicanos, enquanto bancos de investimento e corretoras se aproximam dos democratas. Mas essa lógica é estratégica, não ideológica.

“Em toda a indústria, quem estiver no controle da administração ou dos principais comitês bancários tende a receber as contribuições.” — Paul Merski, da Independent Community Bankers of America.

A principal exceção ocorreu em 2008, quando a campanha presidencial de Barack Obama e sua capacidade de arrecadação embaralharam temporariamente a divisão partidária tradicional. Os bancos doaram pesadamente para Obama mesmo enquanto membros de seu partido defendiam regulações mais rígidas. Quando a crise financeira explodiu e a discussão passou a ser quem escreveria a resposta regulatória, o dinheiro voltou a migrar para os republicanos.

A inclinação partidária fica ainda mais evidente quando se observa para onde vão as doações democratas dentro do partido. Os principais beneficiários no Senado costumam ser os democratas seniores dos comitês bancários, justamente aqueles com poder de moldar a legislação. Quando os bancos doam para democratas, quase sempre são moderados com histórico de apoio ao alívio regulatório.

O desmonte da Dodd-Frank

A demonstração mais dramática do poder de lobby da indústria bancária nos últimos anos foi o enfraquecimento, em 2018, da Dodd-Frank Wall Street Reform and Consumer Protection Act, ampla reforma regulatória aprovada após a crise financeira de 2008. O que veio depois foi uma campanha de vários anos e centenas de milhões de dólares que acabou conseguindo reescrever partes importantes da legislação.

A batalha sem precedentes contra Basileia III

Enquanto o lobby contra a Dodd-Frank aconteceu ao longo de vários anos, a batalha contra o Basel III ganhou velocidade inédita, com os bancos atuando publicamente e de forma agressiva.

Em julho de 2023, o Federal Reserve, a FDIC e o OCC propuseram novas exigências de capital para bancos com mais de US$ 100 bilhões (R$ 500 bilhões) em ativos. As regras, alinhadas aos padrões internacionais de Basileia III, exigiriam que os bancos afetados aumentassem seu capital de nível 1 em aproximadamente 16%, em média. Os bancos enxergaram isso como uma ameaça direta à rentabilidade e responderam com uma campanha que rompeu uma tradição centenária do setor: passaram a atuar publicamente, de forma agressiva.

“A campanha das associações bancárias foi sem precedentes e claramente está avançando entre os dois partidos.” — David Zaring, professor de estudos jurídicos da Wharton School.

A estratégia funcionou, ou ao menos atingiu boa parte dos objetivos. As regras finais do Basel III Endgame nunca foram aprovadas na forma original. Sob a administração Trump, a proposta foi substancialmente revisada e as novas regras anunciadas no início de 2026 passaram a prever, na prática, uma redução líquida de 4,8% nas exigências de capital CET1 dos maiores bancos, exatamente o oposto da proposta inicial. O que os reguladores apresentavam como um arcabouço global de segurança foi reformulado pela indústria como um exagero que prejudicaria os americanos comuns.

O dinheiro realmente funciona?

O cálculo político por trás do lobby bancário não se resume a comprar votos. Trata-se de acesso, narrativa e da capacidade de moldar o ambiente em que decisões regulatórias são tomadas. A própria indústria afirma que seus gastos refletem os interesses de funcionários, acionistas e clientes em um setor altamente regulado. Os críticos enxergam de outra forma.

Os fatos fornecem munição para os dois lados. A indústria bancária não conseguiu impedir a aprovação da Dodd-Frank. Também não evitou a criação do Consumer Financial Protection Bureau. Ainda assim, influenciou significativamente o texto final da lei durante sua implementação, conseguiu reverter pontos centrais em 2018, historicamente bloqueou ou atrasou regras que considerava prejudiciais e, no caso da Basileia III, transformou uma proposta de aumento de capital de 16% em uma redução líquida de 4,8%.

O que parece inequívoco é o retorno extraordinário desse investimento. Se gastos de US$ 400 milhões (R$ 2 bilhões) em lobby ao longo de dois anos ajudam a produzir uma flexibilização regulatória que permite aos bancos deixar de alocar dezenas de bilhões de dólares em capital regulatório, liberando recursos para retorno aos acionistas, a conta é simples. Quando o assunto é gasto político, os bancos americanos não estão apostando. Estão calculando.

*Matéria originalmente publicada em Forbes.com



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