Elon Musk e Sam Altman se enfrentam mais uma vez no Tribunal Federal em Oakland, Califórnia, na próxima segunda-feira. O processo foi movido pelo CEO da Tesla contra Altman e Greg Brockman, também cofundador da OpenAI.
Os desentendimentos entre os executivos vêm se agravando nos últimos anos, posicionando-os como os principais rivais na corrida pela inteligência artificial. Porém, nem sempre foi assim. Musk e Altman já foram amigos e trabalharam lado a lado na OpenAI.
Atualmente, Musk é a pessoa mais rica do planeta, com fortuna estimada em US$ 816 bilhões. Suas participações na Tesla e na SpaceX representam a maior parte de seu patrimônio. Altman, por sua vez, possui uma fortuna de US$ 3,5 bilhões e não detém participação acionária na OpenAI. Sua riqueza provém de investimentos em empresas como Reddit e Stripe.
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Confira a linha do tempo da relação entre os bilionários e o motivo pelo qual passaram de amigos a adversários judiciais.
2015: Onde tudo começou
Musk e Altman cofundaram a OpenAI em dezembro de 2015, junto a outros 11 executivos, como uma organização sem fins lucrativos. A missão era promover a IA de maneira benéfica para a humanidade, sem a restrição da necessidade de gerar retorno financeiro. Reid Hoffman e Peter Thiel estavam entre aqueles que injetaram US$ 1 bilhão na OpenAI em sua fundação.
No período, Elon Musk já era um dos maiores nomes da tecnologia; a Tesla revolucionava a indústria automotiva mundial, enquanto a SpaceX desenvolvia foguetes reutilizáveis. Sam Altman já era reconhecido no Vale do Silício pelo investimento em startups como o aplicativo Loopt e pela atuação na Y Combinator. Os dois foram apresentados por um investidor em 2012. Altman, então na casa dos 20 anos, 14 anos mais jovem que Musk, apresentou a ideia da OpenAI ao bilionário.
Dentro da OpenAI, os dois mantiveram uma relação cordial, unidos pela crença no potencial da tecnologia.
2017: O desentendimento
O que começou como uma organização sem fins lucrativos acabou se transformado em uma entidade com fins lucrativos, de forma ilegal, segundo alega o CEO da Tesla.
Em agosto de 2017, uma reunião na OpenAI tinha como pauta a criação de uma subsidiária comercial. Segundo a empresa, houve um acordo de que uma estrutura com fins lucrativos seria o próximo passo lógico para avançar a missão. Porém Musk teria demonstrado o desejo de ter controle inequívoco da nova estrutura. Os demais fundadores propuseram uma divisão igualitária, com possibilidade de maior participação proporcional a aportes financeiros, oferta que ele recusou.
Brockman alega que, naquele período, Musk tentou convencer executivos da OpenAI presenteando-os com veículos Tesla. A estratégia gerou uma boa relação temporária, mas a proposta do bilionário não foi aceita. Após a negativa, o presidente afirma que Musk se levantou da mesa de reunião e começou a circulá-la, de forma ameaçadora. Foi nesse momento que o Brockman pensou que levaria um soco. Musk então pegou uma pintura que havia ganhado como presente e se retirou da sala. Já na porta, o bilionário teria questionado lideranças da empresa: “Quando vocês vão sair da OpenAI?”.
2018: Musk deixa a OpenAI oficialmente
Musk interrompeu suas doações e deixou o conselho em fevereiro de 2018, afirmando que a organização estava “no caminho certo para o fracasso”. A OpenAI descreveu o movimento como a eliminação de “um potencial conflito de interesses, visto que a Tesla focaria em IA”.
Mais tarde, um relato da OpenAI afirmou que a saída de Musk foi motivada pela rejeição de sua oferta para obter mais de 50% das ações e o cargo de CEO, ou de fundir a empresa com a Tesla.
Ainda assim, o bilionário continuou pagando pelo escritório compartilhado com a Neuralink até 2020.
2023: OpenAI x xAI
A OpenAI se tornou uma das empresas mais valiosas do mundo nos últimos dois anos, graças ao ChatGPT, que revolucionou o papel da IA generativa. O chatbot foi lançado ao público em novembro de 2022.
Menos de um ano depois, Elon Musk, que havia elogiado a qualidade do ChatGPT a princípio, anunciou sua própria startup de IA generativa, a xAI, que ele descreveu como uma resposta direta e “anti-woke” ao bot da OpenAI. O chatbot da empresa de Musk é o Grok, que foi integrado ao X (ex-Twitter), adquirido pelo bilionário também em 2023, por US$ 44 bilhões.
A disputa pública entre os bilionários é o foco da corrida armamentista de inteligência artificial entre OpenAI e xAI, com outros concorrentes incluindo Google, Meta e Anthropic. A Microsoft já injetou cerca de US$ 14 bilhões na OpenAI e a Nvidia investiu na rodada de financiamento que avaliou a empresa em US$ 157 bilhões — valor superior à avaliação de US$ 50 bilhões da xAI.
Altman parece estar de olho nas empresas de Musk. Ele está apoiando uma nova startup de interface cérebro-computador chamada Merge Labs, uma disputa direta com a Neuralink. Além de cofundador da nova empresa, o executivo é, curiosamente, também um pequeno investidor da Neuralink, avaliada em US$ 9 bilhões.
Além disso, CEO da OpenAI também está de olho no X — com o suposto plano de criar uma rede social semelhante — e na Tesla — após anunciar uma parceria com a Applied Intuition, fabricante de software para direção autônoma. A SpaceX também está na mira de Altman, que apoiou a Longshot Space, empresa que quer competir no setor com um canhão capaz de lançar satélites em órbita.
2024: O processo de Musk
Em março de 2024, Elon Musk processou a OpenAI, Altman e o cofundador Greg Brockman por supostamente se tornarem uma “subsidiária de fato de código fechado” da Microsoft. A petição alega que as empresas buscaram monopolizar o setor, “impedindo o acesso dos concorrentes a capital de investimento” e compartilhando “informações comercialmente sensíveis obtidas indevidamente”.
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O CEO posteriormente retirou a queixa sem explicação, antes de reabrir o processo com alegações muito parecidas, incluindo a violação do contrato de fundação ao desenvolver IA para lucros pessoais.
Em novembro, Musk entrou com o pedido de liminar em um tribunal federal para impedir que a OpenAI se tornasse uma entidade com fins lucrativos, segundo o plano divulgado pela organização. No processo de 35 páginas, o bilionário também acusou a OpenAI de “repetidas práticas de autonegociação, priorizando o lucro em detrimento da segurança, transferindo sua tecnologia e mantendo-a em código fechado”.
Altman e outros executivos argumentaram que Musk era inicialmente a favor de transformar a empresa em uma entidade com fins lucrativos, conforme escreveram em uma postagem no blog da OpenAI. Em entrevista a Tucker Carlson, Musk chamou Altman de “alguém em quem não se pode confiar”.
2025: As discussões públicas e a disputa aquecida
Durante todo o ano de 2025, as disputas públicas e nas redes sociais entre os dois se intensificaram. Enquanto Musk chama Altman de “golpista”, Altman alega que o bilionário “não consegue ser uma pessoa feliz” e que “toda a sua vida é pautada pela insegurança”.

Em janeiro, o CEO da OpenAI apareceu ao lado de Donald Trump, anunciando a joint venture Stargate, de US$ 500 bilhões, destinada a construir centros de dados físicos para impulsionar as ambições de IA da OpenAI. A notícia irritou Musk, levando-o a atacar Altman no X: “trapaceiro e mentiroso”.
O próprio Musk era considerado um dos principais aliados do presidente dos EUA, mas, após criticar o projeto orçamentário do governo, a tensão entre os dois aumentou, o que culminou no encerramento dos contratos governamentais entre as partes. O CEO da Tesla alegou ainda que Trump não teria conseguido se eleger sem a ajuda dele.
Em fevereiro, Musk liderou uma oferta não solicitada de US$ 97,4 bilhões pela divisão sem fins lucrativos da OpenAI. A proposta poderia levar à fusão entre a empresa e a xAI. Altman respondeu afirmando que a OpenAI não está à venda e que a oferta é uma das táticas de Musk para tentar atrasar a empresa.
Vale ressaltar que a oferta é muito menor do que os US$ 157 bilhões em que a empresa foi avaliada em sua última rodada de financiamento, em outubro de 2025.
Em abril, a OpenAI contra-atacou, alegando que ele se envolveu em uma “campanha de assédio contra a instituição” em tribunais e em publicações nas redes sociais. O juiz negou o pedido de Musk para bloquear os planos de reestruturação da OpenAI e rejeitou algumas das alegações, permitindo que a contra-ação prosseguisse.
“É hora de a OpenAI voltar a ser a força para o bem, de código aberto e focada em segurança, que ela já foi”, afirmou Musk em comunicado divulgado por seu então advogado, Marc Toberoff. “Vamos garantir que isso aconteça”.
2026: O julgamento
Como parte do processo, Musk inicialmente buscava uma indenização de até US$ 134 bilhões, além da destituição de Altman e Brockman de seus cargos, mas agora está pedindo que todos os ganhos ilícitos sejam destinados à organização beneficente OpenAI.

O bilionário teria entrado em contato com o presidente da OpenAI, Brockman, para avaliar o interesse em um acordo dois dias antes do início do julgamento. Quando Brockman recusou, Musk teria respondido: “Até o fim desta semana, você e Sam serão os homens mais odiados da América”. A troca de mensagens foi considerada inadmissível pelo tribunal.
A juíza distrital dos EUA, Yvonne Gonzalez Rogers, disse que ambas as partes devem tentar controlar o uso das redes sociais para não piorar a situação fora do tribunal. O julgamento, que se iniciou no fim de abril, está previsto para durar cerca de três semanas.
Uma das maiores revelações até agora foi a confissão de Brockman de que sua participação na OpenAI vale quase US$ 30 bilhões, apesar de ele não ter investido na empresa, o que levanta questionamentos.
O diário do presidente tem sido uma pedra no sapato para ele ao longo do processo. Segundo o New York Post, Brockman supostamente escreveu: “Financeiramente, o que me levará a 1 bilhão?”. Em outro trecho, escreveu: “Não consigo imaginar transformar isso em uma empresa com fins lucrativos sem uma briga muito feia. Seria errado tirar a organização dele, isso seria uma grande falsidade moral. Ele não é nenhum idiota”.
No julgamento, Musk depôs: “Eu dei 38 milhões em financiamento essencialmente gratuito, que eles então usaram para criar uma empresa com fins lucrativos de 800 bilhões”, referindo-se à startup Stargate. “Eu literalmente fui um tolo”.
O advogado da OpenAI, William Savitt, partiu para o ataque: “Estamos aqui porque Musk não conseguiu o que queria com a OpenAI”.
Elon Musk ainda confessou ter utilizado tecnologias da OpenAI para construir sua prórpia empresa, a xAI, além de ter usado modelos da empresa de Altman para treinar seu chatbot Grok, um processo conhecido como destilação. Os termos da OpenAI proíbem a prática.
Musk encerrou três dias de depoimento no dia 30 de abril, e Brockman deve começar a depor na segunda-feira (11). A juíza tomou a decisão de disponibilizar o áudio do julgamento ao vivo no YouTube.