Belo Horizonte – Após 13 anos de casamento, muitos exames, muitas tentativas e duas Fertilizações In Vitro (FIV), além de quatro anos na fila nacional de adoção, a pedagoga Alessandra Cavalieri Cid Bressane, de 43 anos, realizou o sonho de ser mãe e hoje pode comemorar seu dia ao lado de Miguel, de 9 anos.
Alessandra lembra quando a vida mudou em uma tarde comum, quando o telefone tocou com a notícia que ela e seu marido, o músico Gabriel Bressane, de 46 anos, poderiam conhecer o filho tão esperado pelo casal, que mora em Belo Horizonte.
Miguel Cavalieri Bressane tinha apenas quatro meses quando a Vara da Infância chamou o casal para conhecê-lo em uma casa de acolhimento. Alessandra relembra que o encontro foi transformador. “Ele nos recebeu com um sorriso lindo. Nós já estávamos apaixonados antes mesmo de conhecê-lo”, diz a mãe.
A chegada de Miguel encerrou uma longa espera, mas deu início a uma jornada completamente diferente daquela que os dois haviam imaginado.
Alessandra conta que meses após a adoção, exames revelaram que o menino tinha “esquizencefalia quadriparética”, condição neurológica rara que resultou em paralisia cerebral. Segundo Alessandra, nem a família nem a Vara da Infância tinham conhecimento do diagnóstico durante o processo de adoção.
“O resultado da ressonância cerebral trouxe uma dimensão que não conhecíamos. Não sabíamos o que seria o dia a dia, os desafios, as limitações. Mas em nenhum momento pensamos em voltar atrás. Miguel já era nosso. Nós já éramos dele”, afirma a mãe.
A esquizencefalia quadriparética ou esquizencefalia com tetraparesia é uma forma grave de uma malformação cerebral congênita rara, caracterizada pela presença de fendas nos hemisférios cerebrais que afetam os quatro membros do corpo.

Gabriel Cavalieri e seu filho Miguel
Arquivo de família

Miguel curtindo um passeio
Arquivo de família

Alessandra, Miguel e Gabriel em momento de lazer
Arquivo de família

Alessandra e Miguel Cavalieri – Mãe adotiva
Arquivo Pessoal / Alessandra Cavalieri
Na maioria dos casos, a condição causa paralisia nos quatro membros, o desenvolvimento neuropsicomotor é afetado, causando deficiência intelectual, microcefalia e crises de epilepsia, muitas vezes bem difícil de controlar. O tratamento é multidisciplinar, geralmente com fisioterapia, medicamentos para epilepsia, fonoaudiologia, entre outros.
No caso do Miguel, a cognição e inteligência estão intactas. O desenvolvimento cognitivo dele é proporcional às crianças não atípicas da mesma faixa etária, de acordo com Alessandra.
Rotina do Miguel
Hoje, aos 9 anos, Miguel faz um intenso processo de reabilitação fisioterápica obtido por meio de ação judicial. O tratamento inclui quatro módulos intensivos por ano e sessões de manutenção três vezes por semana.
Apesar da rotina puxada entre terapias, consultas médicas e adaptações constantes, Alessandra diz que o filho mudou a vida da família “para melhor”.
“Miguel é uma criança cheia de alegria, vontades e personalidade. Com ele eu aprendi a ser mais paciente, menos ansiosa, mais tolerante diante das situações improváveis da vida”, afirma.
Ela também diz que a maternidade atípica desconstruiu medos e ensinou novas formas de amar. “Aprendi a observar mais, em vez de agir impulsivamente. E aprendemos também que o amor no casamento não acaba com os desafios da criação de um filho”, revela Cavalieri.
No Dia das Mães, histórias como a de Alessandra ajudam a ampliar o olhar sobre maternidade, adoção e deficiência. Em um país onde crianças com condições de saúde complexas costumam permanecer mais tempo em instituições de acolhimento, famílias que optam pela adoção atípica desafiam estatísticas e preconceitos.
Histórias de mulheres que escolheram a maternidade pela adoção mostram que o amor também nasce do inesperado e dos desafios. “Sabíamos que Deus tinha um propósito e decidimos fazer parte disso”, diz Alessandra.
Dados sobre adoção
De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), desde 2019 foram adotadas, em todo o país, 33.268 crianças e adolescentes. Desse total, 633 têm deficiência intelectual; 180 têm deficiência física e intelectual; e 283 têm deficiência física.
No estado de Minas Gerais, de 2019 pra cá foram adotados 2.974 crianças e adolescentes. Desse total, 34 têm deficiência intelectual; 10 têm deficiência física e intelectual; 20 têm deficiência física.