As vendas no varejo brasileiro surpreenderam e cresceram em março pelo terceiro mês seguido, renovando ao final do primeiro trimestre o recorde da série histórica iniciada em 2000.
No mês, as vendas registraram alta de 0,5% em relação a fevereiro, depois de terem avançado 0,7% em fevereiro e 0,5% em janeiro, mostraram os dados divulgados nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, as vendas tiveram ganho de 4%.
As expectativas em pesquisa da Reuters eram de estabilidade na comparação mensal e de alta de 2,75% na base anual.
“Numa perspectiva um pouco maior, a médio prazo, nos seis últimos meses houve apenas um resultado no campo negativo, em dezembro de 2025. Então, pode-se dizer que desde outubro de 2025 o varejo vem crescendo na maior parte do tempo”, destacou Cristiano Santos, gerente da pesquisa no IBGE.
A guerra no Oriente Médio, que elevou os preços do petróleo desde que começou em 28 de fevereiro, lançou uma sombra sobre o mês de março, afetando os preços de alimentos e de combustíveis e pesando no bolso dos consumidores.
O mercado de trabalho robusto e medidas de estímulo ao consumo, entretanto, vêm dando algum suporte ao setor varejista, mesmo diante da taxa de juros elevada.
No mês passado, o Banco Central reduziu a taxa básica de juros Selic a 14,5%, mas pregou cautela, argumentando que precisará incorporar novas informações para definir a política monetária à frente.
Entre as oito atividades pesquisadas na pesquisa do IBGE sobre o varejo, cinco tiveram resultados positivos em março, com destaque para Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (5,7%).
A composição do crescimento do varejo ajuda a explicar parte dessa dinâmica.
O principal destaque de março veio do segmento de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação, que disparou 5,7% no mês. Segundo o IBGE, a valorização recente do real frente ao dólar ajudou a reduzir custos de produtos fortemente dependentes de importações, como celulares, computadores e televisores.
“Os custos dessa atividade estão muito relacionados à variação do dólar”, explicou Santos. “Nos últimos três meses observamos valorização do real frente à moeda americana.”
O movimento sugere que a taxa de câmbio voltou a exercer influência direta sobre o consumo de bens tecnológicos, um fenômeno particularmente relevante em um país cuja digitalização do consumo ainda avança de forma desigual.
Outros segmentos também registraram expansão, embora em ritmo mais moderado. Combustíveis e lubrificantes cresceram 2,9%, mesmo diante da pressão internacional do petróleo. Outros artigos de uso pessoal e doméstico avançaram no mesmo percentual, enquanto livros, jornais, revistas e papelaria subiram 0,7%. O setor farmacêutico teve alta discreta de 0,1%.
Nem todos os setores acompanharam o otimismo
Os segmentos tradicionalmente mais sensíveis ao crédito seguem mostrando fragilidade. Móveis e eletrodomésticos recuaram 0,9%, refletindo o impacto persistente do financiamento caro sobre os bens duráveis. Hipermercados, supermercados, alimentos, bebidas e fumo – principal componente do varejo – caíram 1,4%, sinalizando que a pressão inflacionária sobre itens essenciais ainda limita o poder de compra das famílias.
Tecidos, vestuário e calçados ficaram estagnados
No varejo ampliado, indicador que inclui veículos, motos, autopeças, material de construção e atacado de alimentos, o avanço foi de 0,3% em março.
O retrato que emerge do primeiro trimestre é o de uma economia brasileira que continua crescendo em meio a múltiplas contradições: juros reais elevados convivem com consumo resiliente; inflação resistente coexiste com expansão do mercado de trabalho; e choques geopolíticos externos ainda não foram suficientes para interromper o impulso doméstico da demanda.