A Petrobras atravessa um daqueles momentos paradoxais típicos das grandes exportadoras de commodities. Embora o resultado do primeiro trimestre tenha frustrado parte do mercado doméstico, a estatal brasileira terminou o período como a petroleira mais lucrativa do mundo entre as companhias do setor com valor de mercado superior a US$ 50 bilhões.
Levantamento da consultoria Elos Ayta mostra que a Petrobras registrou lucro líquido de US$ 6,25 bilhões entre janeiro e março, superando gigantes globais como Shell, com US$ 5,69 bilhões, e Exxon Mobil, com US$ 4,18 bilhões.
A liderança internacional chama atenção porque, em reais, o desempenho da companhia foi mais fraco. O lucro líquido caiu de R$ 35,2 bilhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 32,7 bilhões no mesmo período deste ano, recuo de 7,2%.
Parte da decepção do mercado veio justamente do câmbio. A valorização do real reduziu os ganhos da Petrobras com exportações de petróleo, já que a companhia vende boa parte de sua produção em dólar, mas reporta os resultados em reais. Com a moeda americana mais fraca, cada barril exportado gerou menos receita quando convertido para a moeda brasileira.
O dólar Ptax médio caiu de R$ 5,85 no primeiro trimestre de 2025 para R$ 5,26 no mesmo período de 2026. Isso pressionou o resultado operacional da estatal e limitou parte do efeito positivo da alta do petróleo no mercado internacional.
O Ebitda ajustado – indicador que mede a geração operacional de caixa – somou R$ 59,6 bilhões entre janeiro e março, queda de 2,4% na comparação anual.
Mas o mesmo câmbio que pressionou o balanço em reais acabou favorecendo a Petrobras na comparação global.
Isso porque investidores internacionais analisam os resultados das grandes petroleiras em dólar. E, nesse caso, a lógica se inverte: com o real mais valorizado, o lucro da companhia passou a valer mais quando convertido para a moeda americana.
Na prática, embora a Petrobras tenha lucrado menos em reais, os R$ 32,7 bilhões registrados neste ano equivaleram a US$ 6,25 bilhões na conversão internacional, superando os cerca de US$ 6,13 bilhões correspondentes aos R$ 35,2 bilhões apurados no primeiro trimestre de 2025.
O resultado ilustra como uma mesma variação cambial pode produzir efeitos opostos dependendo da ótica analisada. Para o investidor brasileiro, o dólar mais baixo reduziu receitas de exportação e pressionou o lucro em reais. Para o mercado internacional, porém, a valorização do real elevou o peso desse lucro quando convertido para dólar, fortalecendo a posição relativa da Petrobras frente às concorrentes globais.
Além do câmbio, a estatal segue sustentada por um diferencial estrutural importante: a produtividade do pré-sal brasileiro. Os campos offshore operados pela companhia permanecem entre os ativos de menor custo e maior eficiência da indústria global de petróleo, permitindo elevada geração de caixa mesmo em períodos de maior volatilidade.
O trimestre também foi marcado pela escalada das tensões no Oriente Médio, que ajudou a impulsionar os preços internacionais do petróleo. O preço médio do Brent passou de US$ 75,66 no primeiro trimestre de 2025 para US$ 80,61 no mesmo período deste ano, segundo dados citados no balanço da Petrobras.
A alta da commodity reforçou as receitas da companhia ao longo do trimestre, embora parte desse efeito positivo tenha sido compensada pela valorização do real frente ao dólar.