Nos últimos, meses algumas companhias do setor imobiliário reportaram resultados recordes, independentemente da categoria. Sejam elas rotuladas como incorporadoras ou empresas de properties, os números polpudos no bottom line dos resultados animaram o mercado, com respostas positivas nos pregões e revisões para cima do sell-side. A visão do mercado é que há espaço para alta e os múltiplos estão relativamente descontados em boa parte dos casos – endossando a tese de um ciclo virtuoso para as empresas do segmento na bolsa.
Na prática, o setor imobiliário da bolsa de valores tem mostrado recuperação operacional, repasse de preços, melhora de margem e demanda resiliente.
Além disso, os resultados também mostram indicadores de margem e rentabilidade relativamente bons, aumentando a percepção de que o setor é resiliente e consegue se sair bem em meio à dinâmica de custos mais altos – um fator que o mercado segue acompanhando de perto, especialmente após uma leitura do IPCA que mostrou a maior alta substancial para o grupo de construção civil.
Como exemplo, a Cury reportou um ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido, na sigla em inglês) de 79,5% no 1T26, ampliando o indicador em 12 pontos percentuais (p.p.) na base anual. A construtora também superou as projeções do consenso Bloomberg para todas as suas linhas finais do balanço, com lucro e receita recordes, de R$ 303 milhões e R$ 1,6 bilhão, respectivamente.
No caso da JHSF, o resultado fechado de 2025 foi o maior da sua história, com o Ebitda saltando 145%, para R$ 1,8 bilhão. O lucro líquido também mais do que dobrou, crescendo 117% em 2025 ante o ano anterior, para R$ 1,9 bilhão.

De janeiro a março deste ano, a companhia anotou um Ebitda ajustado de R$ 250,6 milhões, representando crescimento de 26% na base anual, e lucro líquido que cresceu 9%, para R$ 371 milhões. O resultado veio na esteira de um reconhecimento contábil da venda do estoque de incorporação – dada a venda de R$ 5,2 bilhões para um FII estruturado pela própria JHSF Capital – e aceleração da renda recorrente.
O trimestre mostrou ainda que a divisão financeira da empresa dobrou sua receita e encerrou o 1T26 com R$ 11,2 bilhões em ativos sob gestão.
A XP, que possui recomendação de compra para as ações da JHSF, reiterou recomendação de compra e destacou ‘EBITDA forte impulsionado por shoppings e real estate’.
“Empresa apresentou resultados sólidos no 1T26, com crescimento da receita para R$ 517 milhões, impulsionado pelo desempenho robusto dos shoppings e do segmento imobiliário. O EBITDA ajustado atingiu R$ 251 milhões, sustentado pelo crescimento do topo da DRE”, disse a casa, em relatório sobre o balanço.
O otimismo com o setor imobiliário, vale destacar, não possui restrições geográficas.
A Moura Dubeux, que opera no Nordeste – especialmente na região de Recife (PE) – teve um lucro líquido de R$ 155 milhões de janeiro a março de 2026. Essa cifra representa alta de 120% na base anual.
A visão do Itaú BBA é de um ‘resultado forte’, com desempenho operacional impulsionado principalmente por receitas com taxas de terrenos em projetos do segmento de condomínios e despesas administrativas menores do que o esperado.
O ROE anualizado ficou em 32,5%, considerado robusto pela casa.
“Reiteramos a Moura Dubeux como nossa preferida entre as construtoras de média e alta renda. A tese de investimento é sustentada por uma forte perspectiva de lançamentos e vendas”, disse o BBA, que ainda considerou que a “dinâmica de mercado no Nordeste parece mais saudável”.

Baixa renda e MCMV despertam otimismo
Apesar de JHSF e Moura Dubeux serem nitidamente companhias voltadas para o alto padrão, os resultados acima da média e os reflexos positivos também são vistos em companhias de baixa renda do setor imobiliário, como as que operam o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
“Tivemos destaques positivos no 1T26, inclusive no segmento de baixa renda. A Direcional por exemplo, que vem com uma margem bruta bastante forte”, diz Ygor Altero, Head de Real Estate da XP, em entrevista à Forbes.
A Direcional Engenharia apresentou resultados considerados sólidos pelo sell side, com lucro e geração de caixa acima das expectativas. As margens ficaram praticamente estáveis trimestre contra trimestre, mesmo em meio às preocupações com inflação de custos de construção.
A receita líquida atingiu R$ 1,165 bilhão, alta de 30% na comparação anual, ao passo que o lucro líquido somou R$ 213 milhões, crescendo 30% ano contra ano. O ROE anualizado alcançou 39% no trimestre.
O Itaú BBA reiterou recomendação de compra (Outperform, nos rótulos da casa) e manteve a empresa como sua principal escolha (Top Pick) no setor imobiliário.
O preço-alvo estipulado para os próximos 12 meses foi de R$ 16,50, o que representava potencial de valorização de 27,6% frente ao fechamento anterior ao relatório.
“A visão positiva é sustentada pela execução sólida e, mais importante, pela menor sensibilidade da companhia aos choques do INCC em relação aos pares (…) As recentes mudanças positivas no programa Minha Casa Minha Vida devem sustentar o poder de precificação e ajudar a companhia a preservar margens”, disse a casa.
Nesse sentido, Caio Borges, analista da Eleven Financial, aponta que as ‘camadas do meio’ do setor imobiliário tendem a sofrer um pouco mais no momento atual, eventualmente com pressão de margem bruta, ao passo que empresas de alta renda ou voltadas para MCMV (que seriam as duas pontas) operam com mais resiliência, embora por motivos diferentes.
“De forma geral, vemos as empresas com margens bem saudáveis, se planejando já para um ano com custos maiores. No caso de média renda, com juros mais altos, vemos alguma perda de capacidade de compra do cliente, criando um empecilho na demanda”, pontua o especialista.
“Na parte de alta renda, é um público mais resiliente à inflação e aos juros mais altos, dado que o capital dessas pessoas geralmente está aplicado e também rende juros; dá até para argumentar que é um fator benéfico, com alguma cautela”, conclui.
A expectativa de altas mais fortes nas incorporadoras figura como uma tese forte, mas não unânime. O setor como um todo tem ventos a favor, entretanto, há alguma heterogeneidade no setor. Nesse sentido, alguns players operam com descontos considerados substanciais pelos analistas.
A Cury, que reportou resultados acima do consenso, negocia a ‘múltiplos atrativos’ aos olhos do Bradesco BBI.
Em relatório, o banco reiterou recomendação de compra, destacando que as ações da construtora apresentam múltiplos de 7,1 vezes o P/L (preço sobre lucro) estimado para este ano e 5,9 vezes o P/L estimado para 2026.
No caso da Moura Dubeux, o BBA observa que a empresa também segue negociando a um valuation considerado atrativo, com 5,1 vezes o P/L estimado para 2026 e 4,2 vezes o P/L estimado para 2027.
A casa ainda frisa o múltiplo de preço sobre valor patrimonial tangível (P/VP) de 1,5x e 1,3x no fim de 2026, considerando o ROE anualizado atual de 32,5%.
Selic e inflação moderam otimismo
Ainda que os resultados, em grande medida, tenham despertado otimismo e causado altas dos papéis do setor imobiliário, alguns fatores macroeconômicos seguem inspirando algum nível cautela.
Pelo lado da inflação, na leitura de abril o INCC-M (índice da FGV que mensura custos da construção civil) chegou a 1,4% no mês, marcando a maior elevação desde junho de 2022. O índice mostrou aceleração em todas as sete capitais que o compõem.
No IPCA, o grupo de habitação avançou 0,63% em abril, ante 0,22% no mês anterior.
“Nesse lado dos custos, a inflação da construção civil disparou no último mês, veio o dobro dos últimos trimestres. O aumento dos preços de combustíveis e de energia tem afetado a indústria de transformação. Isso pressiona cimento e aço, por exemplo”, observa Borges, da Eleven.
Em se tratando dos juros, o Banco Central (BC) segue dando continuidade ao ciclo de flexibilização da política monetária.
No entanto, o mercado precifica e projeta uma Selic terminal para 2026 em um patamar menor do que era esperado no segundo semestre de 2025.
Isso, visto que a guerra (e por consequência a alta do petróleo) junto com outros fatores fizeram a palavra ‘cautela’ aparecer mais vezes nos comunicados do Comitê de Política Monetária (Copom).
Em resumo, o ciclo de cortes está sendo significativamente menor e mais lento do que era esperado inicialmente – o que pode ser um fator negativo para algumas companhias, limitando a demanda.
No ano passado, a expectativa era de cortes de 0,25p.p. em janeiro e 0,5p.p. nas reuniões seguintes, com teses de Selic terminal a 11% ou a 12%.
Agora, o mercado vê uma Selic mais próxima de 13% ou 14%.
Neste início de maio, a XP elevou sua projeção para a taxa Selic ao fim de 2026, mirando 13,75%. O Itaú BBA projeta 13,25% de taxa básica de juros, enquanto o BTG Pactual, mais otimista, manteve expectativa para 13%.