Mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF) indicam que um agente da corporação investigado na 6ª fase da Operação Compliance Zero se ofereceu para realizar novos serviços ilegais para o grupo conhecido como “A Turma”, ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro.
As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação deflagrada nesta quinta-feira (14). Segundo a PF, o núcleo “A Turma” atuava com ameaças, intimidações e obtenção de informações sigilosas em favor dos interesses de Vorcaro.
De acordo com a investigação, o policial federal Anderson Wander da Silva Lima, que atuava na delegacia da PF no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, trabalhava de forma “estável” com o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva desde agosto de 2023, fornecendo dados sigilosos sempre que solicitado.
Na decisão, Mendonça afirma que Anderson tinha “acesso privilegiado, atual e funcional aos bancos de dados oficiais”, motivo pelo qual era constantemente acionado por Marilson e “financeiramente retribuído”.
Em um áudio enviado em setembro de 2023, o agente afirmou que estava “fedendo”, que precisava de alguma “coisinha boa” e que gostaria de fazer uns “trabalhinhos”. Segundo a decisão, Marilson respondeu que um “negócio” surgiria no mês seguinte e que precisaria do apoio “de vocês aí”.
Para Mendonça, a conversa indica que Anderson “não era mero executor de uma consulta ou outra, mas alguém integrado a circuito de demandas futuras e com expectativa de remuneração”.
As investigações também apontam que, em fevereiro de 2024, o agente conseguiu acesso a um inquérito sobre crimes financeiros relacionados a Vorcaro após acionar outros três policiais federais. Ao encaminhar o material para Marilson, foi repreendido por ter enviado o acesso integral ao processo, quando o grupo queria apenas informações resumidas.
Uma semana depois, Anderson voltou a ser acionado para obter detalhes sobre uma intimação recebida por Henrique Vorcaro, preso na operação desta quinta-feira.
Diretor da PF diz que corporação “corta na própria carne”
Ao blog da jornalista Andréia Sadi, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que a operação demonstra que a corporação “não protege, nem persegue”.
“Essa operação de hoje não deixa dúvidas e serve também para valorizar a quase totalidade dos policiais federais, que agem com correção e dedicação, e reafirmar que não há hipótese de transigirmos com desvio de conduta”, declarou.
Segundo a investigação, integrantes da própria PF, incluindo policiais da ativa, aposentados e uma delegada, participavam do grupo “A Turma”, apontado como responsável por intimidar adversários, acessar sistemas governamentais de forma indevida e obter informações sigilosas para atender interesses ligados ao Banco Master.
A defesa de Henrique Vorcaro afirmou que a decisão judicial se baseia em fatos cuja “licitude e racionalidade econômica ainda não foram comprovadas” e disse que os esclarecimentos não foram solicitados previamente pela investigação.