A ameaça de um novo imposto sobre imóveis de luxo em Nova York, apresentada pelo prefeito Zohran Mamdani como um ajuste de justiça fiscal, começou a produzir um efeito mais amplo e mais simbólico do que o potencial de arrecadação em si. Em Wall Street, o debate já não gira apenas em torno de quanto os ultrarricos poderiam pagar, mas sobre o que a medida sinaliza para o futuro da capital financeira americana.
Em abril, Mamdani divulgou um vídeo em frente ao edifício 220 Central Park South, um dos endereços mais caros dos Estados Unidos, defendendo a criação de um imposto “pied-à-terre” – uma taxa anual aplicada a imóveis acima de US$ 5 milhões cujos proprietários não vivem permanentemente na cidade. O alvo implícito era claro: investidores globais, bilionários e executivos financeiros que transformaram Manhattan em uma espécie de cofre imobiliário internacional.
“Vamos taxar os ricos”, afirmou o prefeito em publicação nas redes sociais no Dia do Imposto de Renda. A proposta segue modelos já adotados em cidades como Londres e Vancouver, que tentaram aumentar receitas e desestimular imóveis de luxo vazios. Mas em Nova York, onde a arrecadação depende de forma desproporcional dos contribuintes de alta renda, o efeito político parece estar produzindo uma reação mais profunda do que a prefeitura previa.
A preocupação central em Wall Street não é exatamente o valor do imposto. É o precedente.
Para Ken Girardin, pesquisador especializado em tributação, do Manhattan Institute, o aspecto mais sensível da medida está no “efeito de sinalização”. Girardin argumenta que Nova York enfrenta déficits estruturais mesmo fora de períodos de recessão e que a resposta do poder público tem sido buscar novas fontes de receita, em vez de conter o avanço dos gastos municipais. Segundo ele, isso alimenta a percepção de que a carga tributária continuará aumentando nos próximos anos.
O problema é particularmente delicado porque Nova York já possui um dos sistemas de tributação imobiliária mais distorcidos dos Estados Unidos. Muitos imóveis de luxo pagam impostos abaixo de seu valor de mercado devido a regras históricas de avaliação. Ao invés de reformar o sistema, dizem críticos, a prefeitura optou por criar uma nova camada tributária.
O resultado é um ambiente crescente de incerteza justamente em um momento em que cidades americanas disputam empresas financeiras, gestores de patrimônio e fundos de investimento com agressivos incentivos fiscais.
A reação mais emblemática veio da Apollo Global Management. A gigante de private equity, sediada em Manhattan, informou internamente que pretende estabelecer uma “segunda sede” no Texas ou no sul da Flórida. Uma decisão motivada, segundo comunicado obtido pela imprensa americana, pelo acesso a talentos e pela visão de longo prazo da companhia. “Nova York não detém o monopólio do talento”, afirmou a empresa no memorando aos funcionários.
O novo centro poderá abrigar até 1.000 empregados ao longo do tempo, número semelhante ao contingente atual da Apollo em Nova York. Procurada pela reportagem da Forbes, a empresa não comentou os planos para a criação de uma segunda sede até o fechamento desta reportagem.
Tanto Texas quanto Flórida oferecem um atrativo impossível de ignorar para executivos financeiros: ausência de imposto estadual sobre renda pessoal, além de ambientes regulatórios mais favoráveis aos negócios.
A movimentação da Apollo se soma a um fluxo migratório corporativo que já vinha redesenhando o mapa financeiro americano desde a pandemia. Miami transformou-se em polo alternativo para hedge funds e gestoras. Austin consolidou-se como centro tecnológico-financeiro híbrido. E Palm Beach virou endereço recorrente de bilionários do mercado.
Nenhum símbolo dessa migração é maior do que Ken Griffin, fundador da Citadel. Griffin transferiu a sede de seu conglomerado de Chicago para Miami em 2022 e voltou a atacar a política fiscal nova-iorquina após o vídeo de Mamdani viralizar.
Durante conferência do Milken Institute, Griffin afirmou que o prefeito deixou claro que a Citadel precisa “redobrar seus esforços em Miami”. Segundo ele, Nova York estaria transmitindo a mensagem de que “não acolhe o sucesso”.
A crítica carrega peso econômico. A Citadel afirma que seus colaboradores contribuíram com quase US$ 2,3 bilhões em impostos estaduais e municipais nos últimos cinco anos para a cidade de Nova York. O grupo também participa do projeto de revitalização da 350 Park Avenue, empreendimento estimado em mais de US$ 6 bilhões e que deve gerar milhares de empregos temporários e permanentes.
A própria presença de Griffin em Manhattan se tornou parte do debate político. Sua cobertura de US$ 238 milhões no 220 Central Park South, o imóvel residencial mais caro já vendido nos Estados Unidos, apareceu diretamente no vídeo de Mamdani defendendo o novo imposto.
Nos bastidores do mercado imobiliário, a preocupação é menos ideológica do que pragmática. Nova York depende fortemente de um pequeno grupo de contribuintes extremamente ricos. Dados municipais mostram que os maiores pagadores respondem por parcela desproporcional da arrecadação do imposto de renda local. Qualquer migração parcial de residentes de alta renda para Flórida ou Texas amplia a pressão fiscal sobre o restante da população.
Além disso, existe o risco de erosão gradual do mercado imobiliário de luxo. Girardin afirma que o imposto tende a pressionar preços e aumentar a percepção de insegurança regulatória. “O imposto desestimulará o investimento em imóveis de luxo em dois níveis: o novo imposto pressionará os preços, mas também alimentará a incerteza sobre o quanto o cenário tributário geral da cidade irá piorar”, diz.
Experiências internacionais sugerem resultados ambíguos. Londres implementou mecanismos semelhantes para segundas residências de luxo e viu proprietários reorganizarem estruturas de residência fiscal para minimizar impactos tributários. Vancouver também adotou taxas sobre imóveis vazios e compradores estrangeiros, mas enfrentou desaceleração em parte do segmento premium.
Nova York, porém, possui uma vulnerabilidade específica: seu custo estrutural já é elevado. A combinação entre impostos altos, custo de vida crescente, insegurança urbana percebida e expansão do trabalho híbrido reduziu parte da vantagem histórica da cidade como destino inevitável para executivos financeiros.
Ainda assim, poucos acreditam em um colapso de Manhattan. Wall Street continua concentrando capital, infraestrutura financeira, escritórios jurídicos e redes de relacionamento impossíveis de replicar rapidamente. O que muda é o equilíbrio de poder. Pela primeira vez em décadas, grandes empresas financeiras americanas parecem dispostas a operar com estruturas bicéfalas – mantendo presença em Nova York, mas deslocando crescimento incremental para estados mais baratos e politicamente amigáveis aos negócios.
Confira a entrevista abaixo com Ken Girardin, pesquisador do Manhattan Institute, think tank pró-mercado sediado em Nova York, especializado em políticas públicas, tributação, e gestão urbana.
Quais podem ser as consequências econômicas mais amplas da criação do imposto sobre imóveis de luxo em Nova York?
O ponto mais preocupante é o efeito simbólico da medida. Nova York já enfrenta déficits orçamentários mesmo fora de períodos de crise ou recessão. Em vez de conter o crescimento dos gastos públicos, as autoridades estão buscando novas fontes de arrecadação. Isso transmite ao mercado a percepção de que a carga tributária pode continuar aumentando no futuro.
Além disso, o imposto está sendo criado sobre um sistema imobiliário que já é extremamente distorcido. Muitos dos proprietários atingidos pela proposta já pagariam impostos significativamente maiores se as avaliações fiscais refletissem os valores reais de mercado.
A medida pode desestimular investimentos no mercado imobiliário de luxo de Manhattan?
Sim. O impacto acontece em dois níveis. O primeiro é direto: o novo imposto tende a pressionar os preços dos imóveis de luxo. O segundo, e talvez mais importante, é o aumento da incerteza sobre até onde o ambiente tributário de Nova York pode piorar nos próximos anos.
Existe o risco de moradores ricos e investidores internacionais direcionarem capital para estados como Flórida e Texas?
Sim, é um risco real e que já está acontecendo.
Como essa proposta pode afetar a posição de Nova York como centro global de riqueza, negócios e imóveis de luxo?
O imposto, isoladamente, não representa uma ameaça existencial para Nova York. O problema maior é o que ele revela: autoridades municipais e estaduais parecem ignorar questões estruturais importantes, como custos elevados, erosão da base tributária e a saída gradual de empresas e contribuintes de alta renda. Esses fatores, no longo prazo, podem enfraquecer a competitividade da cidade.
Existem exemplos semelhantes em cidades como Londres ou Vancouver? Quais foram os resultados?
Sim. Em Londres, por exemplo, houve mudanças de comportamento para evitar o impacto tributário. Proprietários reorganizaram estruturas patrimoniais e estratégias de residência fiscal. A dinâmica em Nova York é diferente por causa do imposto de renda local, mas o risco de adaptação e fuga de capital também existe.
A política pode gerar efeitos colaterais sobre construção, emprego ou arrecadação?
Sim. Existe uma chance considerável de as autoridades de Nova York estarem superestimando o potencial de arrecadação dessa medida. Dependendo da reação do mercado, o imposto pode acabar afetando investimentos, atividade imobiliária e geração de empregos ligados ao setor.