O fornecimento de fertilizantes ao agronegócio brasileiro entrou na agenda do 5º Diálogo Estratégico Global Brasil-China, iniciado nesta segunda-feira (1º), em Pequim. A reunião começou nesta manhã e se estende para esta terça-feira (2). Autoridades dos dois países discutem a ampliação da cooperação bilateral em uma série de áreas estratégicas, incluindo comércio, investimentos, infraestrutura, energia, tecnologia, segurança alimentar e abastecimento de insumos para a agricultura.
O encontro é co-presidido pelo ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, e pelo chanceler brasileiro, Mauro Vieira. Antes da abertura dos trabalhos, Vieira foi recebido pelo vice-presidente chinês, Han Zheng, no Grande Palácio do Povo, sede das principais atividades de Estado do governo chinês. Também participa das tratativas o ministro do Comércio da China, Wang Wentao.
Embora o agronegócio não seja o único tema da agenda, o setor ocupa posição relevante na relação entre os dois países. A China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, com intercâmbio bilateral de US$ 170,9 bilhões. O superávit brasileiro alcança US$ 29 bilhões, resultado fortemente sustentado pelas exportações de produtos agrícolas e pecuários.
As discussões desta segunda-feira ocorrem poucas semanas após a visita do ministro da Agricultura, André de Paula, a Pequim. Em sua primeira missão internacional no cargo, o ministro reuniu-se com autoridades chinesas para tratar de comércio agropecuário, segurança alimentar, investimentos e cooperação técnica.
As conversas podem abrir espaço para a ampliação do diálogo técnico entre os dois governos, já com foco no abastecimento da próxima safra de verão, cujo plantio terá início no segundo semestre.
“A China tem sido o maior mercado de exportações agrícolas do Brasil. Estamos no mesmo barco. Precisamos fazer um esforço conjunto e remar para a mesma direção”, disse o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, há duas semanas, durante o Congresso da Abramilho, em Brasília.
A dependência brasileira de fertilizantes importados continua elevada, com registro de cerca de 49 milhões de toneladas desses insumos consumidos em 2025, do quais cerca de 45 milhões de toneladas vieram do exterior. Não por acaso, a China ampliou sua importância estratégica no setor. Segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o país asiático ultrapassou a Rússia e se tornou o principal fornecedor de fertilizantes para o mercado brasileiro. Atualmente, 26% das importações nacionais têm origem em empresas chinesas, enquanto os fornecedores russos respondem por 25%.
A crescente relevância dos fertilizantes na relação bilateral ocorre em um contexto de incertezas internacionais. Os conflitos no Oriente Médio e a guerra entre Rússia e Ucrânia continuam produzindo impactos sobre logística, energia e cadeias globais de suprimentos. Como consequência, o abastecimento de insumos agrícolas passou a integrar discussões que antes estavam concentradas apenas em comércio e produtividade. As reuniões iniciadas nesta semana em Pequim mostram que o tema passa a ganhar dimensão estratégica.
No mesmo congresso, a senadora Teresa Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura e atual vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), afirmou que os conflitos internacionais voltaram a pressionar uma área sensível para o agro brasileiro. “Temos duas guerras acontecendo. A primeira, há quatro anos, já nos trouxe grandes problemas em relação aos fertilizantes. Depois agora essa guerra no Golfo, e não só em relação aos fertilizantes, mas também ao problema da logística. Temos navios parados (…) não só com fertilizantes e óleo diesel”, disse durante o evento.