Com mais de duas décadas de carreira, Ana Paula Maia colocou a literatura nacional sob os holofotes globais ao se tornar finalista do International Booker Prize, uma das premiações literárias mais prestigiadas do mundo que celebra o melhor da ficção traduzida para o inglês, no início deste ano. O feito coroa a trajetória da autora, mas também reflete um movimento coletivo de mulheres que brilham no mercado editorial brasileiro. “Vemos muito mais mulheres escrevendo. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Ocupamos esse lugar na literatura”, afirma a escritora em entrevista à Forbes Brasil.
Entre as leitoras, o cenário também é positivo. Um levantamento da CBL (Câmara Brasileira do Livro) de 2025 aponta que as mulheres representam 62% dos leitores que compraram mais de 10 obras no ano. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, também reafirma a liderança do público feminino no hábito da leitura. “As mulheres têm um interesse maior em compreender o mundo ao redor e a si mesmas. E isso se reflete em uma curiosidade que se encaminha para os livros”, observa Aline Bei, autora de obras best-sellers como “O peso do pássaro morto” e “Pequena coreografia do adeus”.
Não à toa, as autoras que hoje dominam as vendas no país são, antes de tudo, grandes leitoras. “Eu leio o tempo inteiro. Ler enquanto escrevo é inspirador. Vêm ideias, palavras, um monte de coisa”, contou Carla Madeira, atual escritora mais lida do país, em entrevista à Forbes Brasil em 2025.
Mas ocupar esse espaço de protagonismo, dentro e fora das páginas, exigiu derrubar portas pesadas. Um mapeamento da UnB (Universidade de Brasília), que analisou os romances publicados pela Companhia das Letras, Rocco e Grupo Editorial Record entre 1990 e 2004, revelou que mais de 70% deles foram assinados por homens, sendo mais de 90% brancos. “Por muitos anos, lemos histórias escritas por homens, que espelhavam a estrutura patriarcal. A diversidade é importante para reestruturar essas narrativas e dar outras ênfases a vozes e corpos femininos”, defende Aline Bei.
Mais do que isso, essa geração de autoras quer ampliar a rede de apoio feminino e continuar abrindo portas e escrevendo novas páginas no mercado. “Na minha vida, foram muitas mulheres que me apoiaram, que me deram a mão”, disse a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, que hoje coordena a publicação de dezenas de escritoras negras, durante o videocast de Forbes Mulher, “Mulheres Poderosas”. “Quando as mulheres fortalecem umas às outras, isso muda vidas.”
Neste Dia Mundial do Livro (23), confira oito autoras contemporâneas brasileiras para conhecer – e ler:
Conceição Evaristo
Aos 79 anos, Conceição Evaristo é uma lenda viva da cultura nacional. Graduada em letras pela UFRJ, mestra pela PUC-Rio e doutora em literatura comparada pela UFF, a autora mineira tem sete livros publicados, traduzidos para idiomas como inglês, francês, espanhol, árabe e eslovaco. Com obras que transitam entre o romance, o conto, a poesia e o ensaio, ela cunhou o conceito de “escrevivência“, subvertendo a lógica histórica ao colocar mulheres negras como donas de suas próprias narrativas. Entre seus maiores reconhecimentos estão o Prêmio Jabuti (2015) pela obra “Olhos d’água”, o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano (2023) e a posse como imortal na cadeira 40 da Academia Mineira de Letras, em 2024.
Ana Maria Gonçalves

A escritora mineira Ana Maria Gonçalves, 56 anos, é a primeira mulher negra eleita para a ABL (Academia Brasileira de Letras), cadeira que assumiu no final de 2025. Especializada no gênero do romance histórico de grande fôlego, ela transformou a forma como o Brasil enxerga a diáspora africana e a formação de sua identidade com “Um defeito de cor”, livro vencedor do Prêmio Casa de las Américas. A obra inspirou uma exposição recorde de público no Museu de Arte do Rio e foi o tema do samba-enredo da Portela em 2024.
Carla Madeira

Escritora brasileira mais lida dos últimos anos, a também mineira Carla Madeira, 61, superou a marca de 1,2 milhão de exemplares vendidos em 2025. Formada em jornalismo e publicidade, ela encontrou na literatura o respiro que o mundo corporativo não lhe entregava. Pela Record, lançou três best-sellers: “Tudo é rio”, “A natureza da mordida” e “Véspera”, que está sendo adaptado para uma série na HBO Max. Ela conquistou o público com seus romances contemporâneos, escrevendo sobre as sombras das relações familiares, paixões e contradições humanas. Agora, está trabalhando no quarto livro, que deve ser lançado ainda em 2026.
Djamila Ribeiro

Djamila Ribeiro tirou a filosofia dos muros acadêmicos europeus e a colocou nas listas de livros mais vendidos do Brasil. Nascida em Santos (SP), ela se formou pela Unifesp e decidiu democratizar a não ficção com uma escrita acessível. A autora de 45 anos assina quatro best-sellers, entre eles “O que é lugar de fala” e “Pequeno manual antirracista” (vencedor do Prêmio Jabuti de 2020), que já venderam mais de 500 mil exemplares. Ativista e professora convidada em instituições como o MIT, foi traduzida na França, Itália, Alemanha e nos EUA. Além de lançar suas próprias obras, coordena a “Coleção Feminismos Plurais”, responsável por publicar mais de 80 autores negros.
Ana Paula Maia

Conhecida pela ficção sombria e o terror, Ana Paula Maia, 48, ganhou espaço ao criar histórias protagonizadas por homens em cenários de brutalidade e aridez. Com mais de duas décadas desde sua estreia na literatura, já venceu o Prêmio São Paulo de Literatura duas vezes e exportou obras para Argentina, Reino Unido, França e Alemanha. Também roteirista da série “Desalma”, da Globo, a autora é a segunda brasileira a concorrer como finalista no International Booker Prize pela obra “Assim na Terra como Embaixo da Terra”, em 2026, após Itamar Vieira Junior ter sido indicado em 2024.
Socorro Acioli

Com 200 mil livros vendidos até 2025, mais de 20 obras publicadas e traduzida para sete idiomas, a cearense Socorro Acioli, de 51 anos, resgatou a riqueza do realismo mágico latino-americano com sabor nordestino em suas obras. Jornalista e doutora em literatura, foi a única brasileira selecionada e orientada por Gabriel García Márquez em uma oficina de roteiro em 2006. Essa experiência desaguou no aclamado “A cabeça do santo” (2014), que será adaptado para o cinema. Também é vencedora do Prêmio Jabuti de Livro Infantil 2013 por “Ela tem olhos de céu”.
Aline Bei

Paulistana formada em letras e artes cênicas, Aline Bei, 38 anos, desenvolveu um formato estético inconfundível: uma leitura ritmada em que a prosa esbarra na poesia dentro da diagramação das páginas. Seus três best-sellers são “O peso do pássaro morto”, que levou o Prêmio São Paulo de Literatura 2018; “Pequena coreografia do adeus”, finalista do Jabuti; e o mais recente, “Uma delicada coleção de ausências”, de 2025. Nas histórias, que já alcançaram leitores nos EUA, na França, em Portugal e Itália, a escritora disseca o luto e os silêncios da vida ordinária.
Giovana Madalosso

Com uma escrita que une agilidade narrativa e crítica social ácida, a paranaense Giovana Madalosso, de 51 anos, consolidou-se como uma das principais vozes da literatura urbana contemporânea. Formada em jornalismo pela UFPR, estreou com a coletânea de contos “A teta racional” (2016), finalista do Prêmio Biblioteca Nacional. Em seguida, lançou o romance “Tudo pode ser roubado” (2018), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Mas foi com o aclamado “Suíte Tóquio” (2020) — obra finalista do Prêmio Jabuti que discute as tensões de classe e maternidade — que ela conquistou espaço internacional, sendo incluída na lista de 100 livros notáveis do New York Times em 2025. Imortal da Academia Paranaense de Letras, Madalosso lançou em 2025 seu romance mais recente, “Batida só“.