A série dramática “Scarpetta” é a mais recente aposta de Liz Sarnoff, roteirista de televisão nove vezes indicada ao Emmy. Produtora executiva por trás de sucessos como “Lost“, “Barry” e “Highland“, Sarnoff retorna à cadeira de showrunner após também ter cocriado “Alcatraz“, de 2012.
Sua mais nova produção, disponível no Prime Video desde março, traz Nicole Kidman como protagonista, ao lado de nomes como Jamie Lee Curtis e Ariana DeBose, e é baseada na série de romances best-sellers de Patricia Cornwell. A trama acompanha Kay Scarpetta, médica legista-chefe que, ao investigar o assassinato de uma mulher, passa a ser assombrada por lembranças de um caso do passado.
Em entrevista à Forbes, a roteirista fala sobre a importância de dar protagonismo às mulheres em dramas policiais — em vez de retratá-las apenas como vítimas — e compartilha sua experiência ao enfrentar as portas fechadas de Hollywood para contar as histórias que a apaixonam.
Forbes: Por que decidiu trazer a história de Kay Scarpetta para as telas?
Liz Sarnoff: Li quase todos os livros com a minha mãe nos anos 1990. Nós amávamos Kay Scarpetta. Ela era uma mulher na liderança antes mesmo de isso se tornar mais comum. Era uma médica com diploma de direito e que, ainda assim, se mantinha fiel às suas crenças sem sacrificar nada de sua humanidade ou das coisas que a tornavam unicamente mulher. Kay amava profundamente, era como uma mãe para a sobrinha, cozinhava, cuidava do jardim, resolvia crimes por meio de autópsias e sempre dizia a verdade aos poderosos. Era uma combinação deliciosa.
Qual é a importância de ter protagonistas como essa?
Em todas as histórias, é fundamental que as mulheres ocupem posições de protagonismo. Precisamos de encorajamento para saber que estamos no comando de nós mesmas e que nossas vidas importam. Durante muito tempo, o papel feminino na narrativa se resumia a reagir ao que estava acontecendo com os homens da história. Eram personagens de apoio ajudando no arco dos personagens masculinos (geralmente considerados os heróis) em suas jornadas rumo à redenção, vitória ou realização pessoal. Por isso, é extremamente importante mostrar as mulheres nessas jornadas — não como um anexo a um personagem masculino, mas assumindo o controle e descobrindo a si mesmas.
Quais foram os desafios de navegar por Hollywood sendo mulher?
É difícil ser a única profissional mulher em uma sala ou ambiente de trabalho. Isso faz com que você se sinta extremamente inibida em dizer a sua verdade. Trabalhei em muitas salas cheias de homens e sempre tentei ser uma voz para as personagens femininas da série, garantindo que suas ações estivessem a serviço de suas próprias vontades e desejos, e não que servissem apenas como uma ferramenta para ajudar a construir o arco masculino.
Mas quando você está em minoria, a resistência vem na sua direção como se fosse algo físico; um campo de força. Isso faz com que você se sinta muito exposta e tímida para falar — especialmente quando lhe dizem repetidas vezes: “Esta não é a história dela”. É preciso muita força e resiliência para continuar insistindo.
Nesse sentido, houve algum episódio durante sua carreira como roteirista de TV que mais se destacou?
Lembro uma vez, em um dos meus primeiros trabalhos, em que o showrunner reclamou comigo e com a única outra roteirista mulher que nós não nos preocupávamos em nos arrumar para a sala de roteiristas. Respondi a ele, de forma enfática, que estava usando uma camiseta de US$ 100.
Qual é o impacto da representação feminina nas telas em papéis que combinam força, vulnerabilidade e transformação?
O poder de ver a si mesma representada em uma história é uma experiência transformadora incomparável. Como mulher, e uma mulher lésbica, demorou muito tempo na minha vida até que eu visse alguém que se parecesse minimamente comigo na tela. Levei muito tempo para entender que o que era único em mim era a minha própria história, e levei ainda mais tempo para ter a coragem de começar a contá-la. E foi emocionante. Eu existo. Eu estou no mundo. Eu sou digna de protagonizar a história principal. Minha história importa.
O que você diria para mulheres aspirantes a contadoras de histórias que estão lutando para encontrar sua voz ou uma plataforma para compartilhá-la?
A parte mais importante de ser uma escritora é a escrita. E você precisa ser rigorosa quanto a isso. Existem muitas vozes sabotadoras que podem surgir na sua cabeça se você ficar apenas pensando no assunto e não fazendo de fato. Então seja devota à escrita e pratique com regularidade.
Meu mentor, David Milch — roteirista e produtor de TV por trás de NYPD Blue (ABC) e Deadwood (HBO) —, sentava todos os dias em frente ao computador para escrever. Independentemente de ter vontade ou não, ele marcava presença e transformou seu ofício em um hábito e uma disciplina. Isso impactou profundamente a minha própria abordagem em relação ao trabalho.
Sente-se para trabalhar. Mesmo e especialmente quando você não quiser. O David costumava dizer: “As visões vêm para os espíritos preparados, mas a musa precisa saber onde encontrar você.” É importante lembrar que falar sobre escrever não é escrever. Eu tento não me dedicar a nada a não ser à escrita em si. Se você escrever todos os dias, se tiver essa disciplina, você encontrará a sua voz.
*Alyssa Jaffer é colaboradora da Forbes USA. Ela é uma jornalista baseada em Londres que cobre temas relacionados a carreiras, saúde e estilo de vida. Também é especialista em redação de conteúdo e comunicação, com dois diplomas em mídia e jornalismo pela UC Berkeley e City University of London, além de anos de experiência profissional em marketing de conteúdo.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com