Em 19 de abril de 1956, sob um sol de primavera que parecia encomendado, os olhos do mundo mal piscavam diante do casamento mais glamouroso e improvável do século. No altar da Catedral de São Nicolau, em Mônaco, envolta por vestido de tafetá de seda na cor marfim; um véu de 80 metros de seda e uma delicada Juliet Cap de renda belga centenária, Grace Kelly (1929-1982) vivia sua performance definitiva: a troca de Hollywood pela realeza europeia.
Aos 26 anos, após uma carreira meteórica de cinco anos (com direito a Oscar de Melhor Atriz, em 1955, com The Country Girl, e o status de musa de Alfred Hitchcock), a “princesa do gelo” deixava para trás os holofotes dos estúdios para abraçar a milenar e rígida etiqueta dos Grimaldi, dinastia soberana que governa o principado desde 1297.
Cerca de 30 milhões de pessoas testemunharam o “sim” para o príncipe Rainier 3º (1923-2005), em um marco na história da comunicação de massa que deixou a coroação da rainha Elizabeth 2ª (1953) no chinelo. A produção foi orquestrada pela MGM com equipamentos de cinema. Nove países europeus assistiram ao vivo e os Estados Unidos colaram na televisão assim que os rolos de filme atravessaram o Atlântico de avião para uma exibição quase imediata.

Ao protagonizar tal cena de cinema nesse altar real, Grace transformava um enclave de cassinos em declínio no destino mais exclusivo do planeta. Nascia a mística de Mônaco – hoje o segundo menor país do planeta (2,02 quilômetros quadrados), quase do tamanho do bairro do Leblon (2,15), com 40 mil habitantes de cerca de 140 nacionalidades.
A pata que dá sorte
Basta atravessar a porta giratória do Hôtel de Paris Monte-Carlo para essa história de 70 anos deixar de ser um relato de arquivo e se tornar palpável. Ele foi inaugurado pelo príncipe Charles 3º e pelo empresário francês François Blanc em 1864 e, já no ano seguinte, passou por uma renovação assinada pelo arquiteto francês Jules-Laurent Dutrou. Após alguns passos no lobby monumental (mais de 10 metros de altura), surge a estátua equestre de bronze do rei Luís 14. A peça é o principal amuleto do principado. Há gerações, hóspedes a caminho do cassino cumprem um ritual: tocar a pata dianteira direita do cavalo, que está desgastada, com um brilho dourado. Não tinha planos de jogar; mesmo assim, achei de bom tom alisar a pata. Sorte nunca é demais.

Na sequência, o olhar é fisgado por um lustre magistral de cristal e bronze. Ele está pendurado sob uma claraboia circular maravilhosa de ferro forjado e painéis de vidro translúcido, projeto de Édouard-Jean Niermans, de 1909, responsável também pela fachada. Ainda com a nuca espremida, passeando com a vista pelo teto, topo com quatro cascos de tartarugas-de-pente. Eles foram trazidos das 28 expedições oceanográficas do príncipe Albert 1º (trisavô do atual príncipe Albert 2º, filho de Rainier 3º e de Grace, conhecido por sua forte atuação na preservação dos oceanos). No centro do salão que reluz com o chão de mármore, uma mesa sustenta um vaso enorme de flores azuis e brancas, criado pelo celebrado florista monegasco Marco Traverso. Ainda nem fiz o check-in e já estou encantado com o hotel.
O hall de entrada é um cartão de visitas poderoso, uma das poucas partes da propriedade preservada na megarreforma realizada de 2014 a 2019, ao custo de 280 milhões de euros. Dois arquitetos assinaram a renovação: o francês Richard Martinet (especializado em hotéis históricos) e o monegasco Gabriel Viora. Duas alas inteiras foram demolidas e reconstruídas para possibilitar quartos maiores e novas suítes – três chances para adivinhar o nome da principal delas. Bingo!
Suíte Princess Grace: 910 metros quadrados distribuídos em dois andares, obras de arte do acervo privado da família Grimaldi, fotos pessoais, poemas escritos pela princesa e terraço com jardim privado repleto de rosas Princesa de Mônaco, a flor favorita dela.
No Hôtel de Paris Monte-Carlo, momentos banais como mostrar o passaporte em um balcão e esperar o elevador são marcados por lustres surpreendentes, dezenas de linhas com pedras transparentes descendo pelo teto, abajures, estátuas, mesas com pernas que chamam a atenção, portas de elevador douradas com o grafismo de círculos concêntricos – tão bonitas que você quase torce para o elevador demorar a chegar. E parece que tudo foi lustrado há, no máximo, cinco minutos. O corredor curvilíneo para chegar ao quarto deixa claro a parte do prédio por onde caminho – a edificação redonda com vista para o mar.
Ao abrir a porta do 291, os passos não dão muita bola para a habitação impecável; nem para a chez lounge vermelha; nem para o banheiro todo em mármore; muito menos para as obras de arte nas paredes; vão ligeiros até a janela que escancara um Mediterrâneo de azul intenso, sob um céu que faz cerrar os olhos, de tão azul. Em primeiro plano, superiates e barcos novos em Porto Hércules. Ao fundo, o Palácio do Príncipe no topo do morro.
Entre os dois planos, ruas e avenidas que ecoam o ronco dos motores de Fórmula 1 no circuito mais icônico da categoria, palco de seis vitórias de Ayrton Senna (1987, 1989, 1990, 1991, 1992 e 1993), o Rei de Mônaco.
Tesouros escondidos na adega
A efeméride dos 70 anos do casamento transforma a estadia nesse hotel em um momento ainda mais especial. A relação de Grace Kelly com o local é profunda: foi aqui que aconteceu o banquete oficial após a cerimônia religiosa e, nos anos seguintes, eles criaram o hábito de celebrar os aniversários de casamento no hotel, especificamente na Cave (a adega). A princesa adorava o ambiente rústico e silencioso para jantares privados em uma pequena e secreta sala de jantar na cave à luz de velas, cercado por vinhos de colheitas de seus anos de nascimento. E, veja bem, não se trata de uma adega qualquer – estamos falando da maior de hotel do mundo, escavada em rocha em 1874 (por 100 homens, durante 17 meses), a 10 metros de profundidade, que atualmente guarda cerca de 350 mil garrafas em 1.500 metros quadrados a 14 ºC. Lá estão rótulos lendários do século 19, como Château Lafite Rothschild, Pétrus e Romanée-Conti.
O acervo abastece os mais de 30 restaurantes e bares, quatro hotéis (Hôtel de Paris Monte-Carlo, Hôtel Hermitage Monte-Carlo, Monte-Carlo Bay Hotel & Resort e Monte-Carlo Beach) e os dois cassinos da Monte-Carlo Société des Bains de Mer (MCSBM), empresa fundada em 1863 para desenvolver o turismo de luxo no principado. A iniciativa da construção épica foi de Marie Blanc, mulher de François Blanc. Ela acreditava que, para atrair a elite mundial, o hotel (idealizado por seu marido) não podia apenas oferecer quartos luxuosos – era preciso servir uma bebida à altura. Agora, imagine o desespero de quem cuidava do local na Segunda Guerra Mundial, na iminência da invasão alemã… Tiveram a ideia de esconder as 20 mil garrafas das colheitas mais raras: construíram uma parede falsa e empilharam milhares de garrafas vazias e lixo, dando a impressão de que se tratava de um corredor abandonado (as joias da coroa britânica também ficaram escondidas ali). Deu certo. A parede falsa só foi derrubada em 1945, em um jantar de celebração com a presença de Winston Churchill. Desde junho do ano passado, hóspedes da SBM têm acesso privilegiado à adega para realização de um tour seguido de degustação.

Não pense, porém, que a presença de Grace se resume às dependências do Hôtel de Paris Monte-Carlo. A mulher que transformou o futuro do principado é reverenciada no Parcours Princesse Grace: um circuito de 25 paradas, marcadas com um painel fotográfico e um texto explicativo que homenageia a vida e o legado da atriz-princesa. Prazeroso demais bater perna por Mônaco admirando tais fotografias justamente nos pontos em que ela fez história.
Destaques do itinerário? Vamos lá: o Palácio do Príncipe (onde viveu após o casamento); a Catedral de Mônaco (local do casório religioso e onde está seu túmulo em mármore cinza, sem – pre coberto por flores frescas); o Roseiral, em Fontvielle (criado por Rainier 3o em 1984 como tributo à esposa: 6 mil roseiras com mais de 450 variedades – entre elas a Princesse de Monaco, branca com bordas rosadas); Chapiteau de Fontvieille (sede do Festival Internacional de Circo, projeto que teve grande apoio da princesa, de 1974) e o Cassino de Monte-Carlo (bom, nesse caso, mais do que parênteses, melhor abrir novos parágrafos).
“My name’s Bond, James Bond”
É colocar o pé no Cassino de Monte-Carlo para lembrar imediatamente do olhar matador de Pierce Brosnan, em GoldenEye (1995), encarando Xenia Onatopp (Famke Janssen) enquanto dispara: “My name’s Bond, James Bond”. Horas antes, provocada por Onatopp, se passara a clássica perseguição entre o Aston Martin DB5 dele e a Ferrari F355 dela. O flerte entre os dois atinge o ápice no Salão Médecin quando Bond vence a vilã no Baccarat. A sala é de 1910, a única com arquitetura sob responsabilidade de um monegasco, François Médecin. Nas pinturas das paredes, uma rara menção à passagem do tempo em um ambiente de apostas. Assinadas por Armand Ségaud: O Amanhecer, O Meio-dia, O Entardecer e A Noite. Outro 007 que bateu cartão neste templo da jogatina foi Sean Connery, em Never Say Never Again, de 1983.
O cassino surgiu como uma solução para a crise financeira de 1861, quando o príncipe Charles 3o se viu à beira da falência após perder a maior parte do seu território (Menton e Roquebrune-Cap-Martin ficaram para a França).

Inspirado em cassinos alemães, o príncipe inaugurou o cassino em 18 de fevereiro de 1863, com François Blanc à frente – ele deixou a Alemanha para salvar a dinastia Grimaldi. Uma obra-prima da Belle Époque, o edifício foi expandido por Charles Garnier em 1878. Outra obra do arquiteto é a Ópera de Monte-Carlo, construída em oito meses e meio, inaugurada em 1879, ano em que Mônaco deixou de ser um “lugar com cassino” para se tornar polo cultural. Fisicamente, a ópera está ligada ao cassino pelo átrio: dá para sair do concerto e mergulhar nas apostas sem voltar para a rua.
O destaque do átrio é a estátua A Fortuna, da holandesa Daphné Du Barry, de 2004. A figura feminina de olhos vendados simboliza a natureza cega e imprevisível da sorte. Ela segura uma bolsa com moedas de ouro – e, assim como acontece na pata do cavalo no Hôtel de Paris, o pessoal passa a mão nessas moedas na esperança de dias melhores. Garnier assina o projeto ao lado de Jules Dutrou – foi ele quem ergueu ali 28 colunas enigmáticas. Só uma delas – ninguém sabe qual ao certo – seria feita de mármore legítimo; as outras são de estuque. As pinturas nas extremidades do átrio – uma a vista de Menton; outra, de Mônaco – são do artista alemão Gustave Adolphe Jundt.
Não menos imponentes são as outras salas do cassino, que pedem uma admiração lenta, sem pressa, tamanha a quantidade de detalhes – vá com a mentalidade de quem está indo para o Palácio de Versalhes. Esqueça do relógio em salas como a Europa (de 1898; o desenho do tapete reproduz, em simetria perfeita, o vitral do teto; lindas pinturas como A Colheita de Laranjas e Passeio no Mar, de Paul Steck); a Branca (de 1904; banhada por muita luz, vista para o Mediterrâneo e terraço panorâmico; na entrada, duas colunas de mármore vermelho de Aberdeen; ao fundo da sala, o quadro As Graças Florentinas, de Paul Gervais, que causou polêmica pela nudez das três mulheres da sociedade retratadas); a Touzet (de 1889, conhecida como As Salas Gêmeas, do arquiteto Charles Touzet; no teto, uma surpresa: você acha que são espelhos que separam as duas salas, mas o número 1889 só de um dos lados entrega que elas estão separadas por vidros transparentes; e acesso secreto para o Trou Anglais, reservado para clientes VIP dispostos a torrar um dinheiro quase infinito e sair do cassino no anonimato).

Das 10h às 13h, o cassino fica aberto como um museu. Reabre às 14h, só para jogadores, e aí é proibido fotografar. Por lei, os monegascos não podem jogar – atividade reservada aos estrangeiros. O setor de jogos do grupo SBM (que inclui o Cassino de Monte-Carlo e o Cassino Café de Paris) gerou aproximadamente 215,5 milhões de euros no último ano fiscal, 28% da receita total, que chegou a 768 milhões de euros.
Após o excelente tour conduzido por Christian Barilaro, diretor de relações públicas, hora de adentrar um dos clubes de charutos mais exclusivos do mundo, inaugurado em maio de 2025: o Monte-Carlo Cigar Club, desta vez sob a orientação de Adrien Dalang, master cigar sommelier, com um estoque de 35 mil charutos selecionados dos melhores produtores de Cuba, Nicarágua, República Dominicana, Costa Rica, Honduras e Peru.
Oceanos e carros
O Cassino de Monte-Carlo é vizinho do Hôtel de Paris e do Café de Paris na praça que funciona como coração de Mônaco – a Praça do Cassino (no centro da praça, a escultura Sky Mirror, de Anish Kapoor, uma doação da gaúcha Lili Safra (1934-2022), viúva do banqueiro Edmond Safra, morto em um incêndio no principado em 1999). Para entender dois aspectos importantes da alma de Mônaco, vale a pena caminhar para dois endereços afastados deste coração.
Construído em um penhasco 85 metros acima do nível do mar, uma proeza de engenharia para a época, o Museu Oceanográfico foi inaugurado em 1910 e abriga as coleções das campanhas oceanográficas de Albert 1º, o “Príncipe Navegador”, um dos pais da oceanografia moderna, além de funcionar com o braço educacional da fundação do príncipe Albert 2º para a proteção dos oceanos. Atualmente, uma exposição imersiva de grandes proporções, Mediterrâneo 2050, leva o visitante a uma viagem ao futuro. O outro endereço explica a paixão monegasca pelo automobilismo: a Coleção de Carros de S.A.S. o Príncipe de Mônaco (a sigla significa Sua Alteza Sereníssima), com cerca de 100 automóveis que começaram a ser reunidos nos anos 1950 pelo príncipe Rainier 3º.

Desde 2022, o museu de 3 mil metros quadrados baixou âncora no Porto Hércules, bem ao lado do traçado da pista de Fórmula 1. O acervo cobre mais de 100 anos de engenharia, desde modelos pioneiros de 1903 até os hipercarros híbridos e elétricos deste ano, passando pelo Chrysler Imperial de 1956, que buscou Grace Kelly no porto quando ela chegou de Nova York; carros italianos que fizeram sucesso no cinema; mais de 10 modelos de Fórmula 1; Rolls-Royces que serviram como carros de Estado e raridades da Bentley, da Ferrari, da McLaren, da Mercedes-Benz, da Porsche e da Bugatti.
O nível das atrações e da hotelaria em Mônaco provoca uma alta expectativa sobre a gastronomia local. E você não vai se decepcionar. Meu primeiro jantar já foi uma prova disso: Le Grill, no oitavo andar do Hôtel de Paris Monte-Carlo, uma estrela Michelin, com vista esplêndida do burburinho da Praça do Cassino (durante o dia dá para ver até a costa italiana) e um teto retrátil que permite a observação de estrelas durante a refeição. Antes mesmo de abrir o cardápio assinado pelo chef Dominique Lory, curti o grafismo de linhas prateadas e paralelas da capa remetendo à vedete da cozinha: a grelha de onde saem carnes fantásticas (um contraponto ao badalado Louis 15, restaurante três estrelas Michelin de Alain Ducasse, focado em alta gastronomia técnica, no mesmo hotel). Como entrada, foi fácil entender por que o Gamberoni de San Remo (camarões gigantes da região) faz tanto sucesso entre os frequentadores assíduos. Como principal, sublinho dois pratos: o carré d’agneau (cordeiro assado no espeto de madeira) e o risotto noir à la truffe de saison (o garçom lamina as pétalas de trufa negra sobre o arroz com uma infusão intensa de cogumelos selvagens e caldo de trufa). Um prato espetacular. Como sobremesa, o pedido mais famoso de Mônaco desde 1958: o suflê de Grand Marnier – alto, leve, fofo e com o licor de laranja que dá nome ao doce.
A trinca de jantares de altíssimo nível teve ainda degustação de 12 etapas no franco-japonês de Yannick Alléno e o mestre de sushi Yasunari Okazaki: L’Abysse Monte-Carlo, que virou notícia internacional ao receber duas estrelas Michelin com apenas oito meses de operação após a inauguração em julho de 2024 no Hotel Hermitage. Além de peixes ultra-frescos, destaque para dois saquês: Gozenshu 9 Bodaimoto Junmai, da vinícola Tsuji Honten, em Okayama; e Fu, da vinícola Tomita Shuzo, em Shiga. Palmas também para o sole meu- nière, servido à perfeição no Café de Paris. O garçom retira a espinha do linguado à sua frente com uma habilidade cirúrgica, mantendo o filé – delicioso – intacto. Entre os almoços, o wagyu do Pavyllon Monte-Carlo (uma estrela no Michelin) – inaugurado em 2022, no terraço do Hotel Hermitage, com belas vistas do Porto Hércules e do Palácio do Príncipe – deixou saudades antes mesmo de terminar o prato.

Com o intuito de preparar corpo e alma para o retorno ao Brasil, me entreguei às benesses da área de bem-estar da Thermes Marins – com direito a uma piscina coberta salinizada, às saunas e a uma massagem de conchas quentes. Uma viagem tão especial como esta teve um desfecho inédito para mim, em um lugar que não costuma ser sinônimo de fortes emoções. Mas, sim, confesso: me emocionei sozinho no último café da manhã – que durou mais de 1 hora e meia. Com a música deslizando entre o jazz e o clássico, saboreando os melhores ovos beneditinos, french toasts e croissants de todo o Universo, não acreditava na beleza do Salão Império do Hôtel de Paris Monte-Carlo. Obrigado, Grace, por ter colocado Mônaco no mapa e feito deste hotel sua sala de estar.
*Reportagem publicada na edição 138 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store