A pecuária brasileira registra um novo marco na integração produtiva com o lançamento do selo Canchim on Dairy, certificação que projeta elevar em até 15% o peso à desmama de bezerros oriundos do cruzamento com o rebanho leiteiro. Antes, só o Angus detinha essa certificação.
Em um mercado no qual o Valor Bruto da Produção (VBP) da pecuária de corte alcançou R$ 7,4 bilhões em estados como Mato Grosso do Sul, a estratégia concentra esforços em transformar o excedente das fazendas de leite, tradicionalmente desvalorizado, em ativos de alta performance para o segmento de carne premium.
O programa utiliza critérios rígidos de seleção genética, exigindo que os touros certificados estejam entre os 40% superiores da raça para características como Área de Olho de Lombo e peso ao nascimento.
A consolidação dessa tecnologia responde a uma demanda crescente por eficiência e diversificação de renda no campo. Ao utilizar sêmen de touros de corte em vacas leiteiras, o produtor passa a gerar animais com carcaças de maior rendimento e acabamento de gordura superior.
Essa prática não apenas mitiga o baixo valor de mercado de machos recém-nascidos em sistemas puramente leiteiros, mas também insere a propriedade na cadeia de cortes nobres, onde o bônus pela qualidade pode superar 10% sobre o valor da arroba commodity.
Valorização do descarte e bem-estar animal
A pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste, Cintia Righetti Marcondes, aponta que a iniciativa é fundamental para o faturamento do pecuarista.
“O objetivo é atender ao produtor que deseja uma segunda fonte de faturamento, vendendo esses animais para corte,” diz Cintia.
“Canchim é uma raça terminal que, ao ser cruzada com vacas mestiças, traz melhor qualidade de carcaça, mais peso ao desmame e ao sobreano. Além disso, é uma alternativa que agrega bem-estar animal, evitando o descarte de machos recém-nascidos, que passam a ser recriados e destinados ao abate por possuírem uma carne superior,” diz a pesquisadora.
Diferente de raças europeias que enfrentam dificuldades de adaptação em regiões quentes, o Canchim apresenta pelagem clara e alta tolerância ao calor, características vitais para operações no Centro e Norte do País.
A raça, aliás, é brasileira e foi obtida por pesquisas da Embrapa Pecuária Sudeste, e possui sangue Charolês (europeu) e de sangue zebuíno (principalmente Nelore), que conferiu mais resistência ao animal ao clima brasileiro.
Essa rusticidade permite o uso dos touros tanto via inseminação quanto a campo, facilitando o acesso de pequenos produtores que podem adquirir reprodutores em regime de consórcio para melhorar a padronização do rebanho.
Rigor técnico e métricas de seleção
O rigor técnico é o pilar da confiança do investidor. Para obter a chancela, o animal deve apresentar Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs) de alta acurácia. Os requisitos incluem musculosidade superior e controle rigoroso do tamanho ao sobreano, evitando carcaças despadronizadas que dificultam o processamento industrial.
Esse movimento de certificação expressa uma tendência maior observada em outras culturas, como na soja, onde as boas práticas e o monitoramento garantem transparência e bônus que chegam a US$ 5 (R$ 27,8) por tonelada.
Ao padronizar a oferta de carne vinda do leite, o setor de proteína animal replica modelos de sucesso de hubs de inovação, que buscam tornar as operações de campo mais previsíveis e rentáveis por meio de dados e genética aplicada.
O avanço da certificação Canchim on Dairy indica que a competitividade futura da pecuária brasileira não dependerá apenas do volume, mas da capacidade de comprovar sustentabilidade e qualidade superior em cada elo da produção.