Sentar no balcão do Tan Tan, o bar mais premiado do Brasil, é sempre um prazer. Não só pela excelência técnica, mas porque ali os drinks parecem receber o mesmo nível de pesquisa, conceito e construção narrativa que normalmente se espera de um restaurante de alta gastronomia. O que muitos chefs fazem no prato, Thiago Bañares, Caio Carvalhaes e sua equipe traduzem em um copo.
Agora, o bar paulistano – eleito o 24º melhor do mundo pelo World’s 50 Best Bars 2025 – dá mais um motivo para (re)visitá-lo: 10 coquetéis inéditos, frutos da reformulação completa da carta. Batizado de “Perspectiva”, o novo menu percorre as cinco regiões brasileiras sem recorrer aos caminhos mais previsíveis.
O mote central foi abandonar o que pensamos saber sobre o Brasil, deixando de lado os clichês. Em vez disso, Bañares apostou em uma abordagem mais abstrata. “A ideia foi tentar ressignificar a nossa visão de regionalidade. Queríamos olhar para o Brasil livre de purismo e preconceito“, explicou o chef e diretor criativo à Forbes. “Escolhemos produtos que representam clima, textura e sensações. Não são necessariamente ingredientes locais, mas que traduzem a nossa visão sobre essas regiões”.
Na prática, ingredientes como tucupi preto, tereré, quirera de milho, castanha de baru, cajuína e até gorgonzola aparecem em combinações improváveis. Pode soar estranho imaginar alguns desses ingredientes em um drink, mas acredite, a combinação funciona – e muito.
O Brasil no copo
Cada dupla dos 10 novos drinks representa uma região. Entre os destaques da nova fase está o surpreendente Bubble Blue, um drink sem álcool que combina cold brew com maracujá, cordial de água tônica com gorgonzola e chá lapsang souchong. A mistura é o exemplo do alto nível que um mocktail pode atingir, com complexidade, acidez e umami.

Para quem prefere seguir pelo caminho das misturas mais intensas e clássicas – pense na pegada de um Old Fashioned –, o Cornfield entrega uma base potente, com infusão de baru em rum e de quirera de milho em Johnnie Walker Black Label, finalizado com pipoca com chocolate branco. Já uma releitura nada óbvia do dirty martini é o Mi Mi Mi, com manteiga de milho e água da miniespiga em conserva.
Do Norte vêm alguns dos coquetéis mais interessantes do menu. O Caipora, o favorito de Bañares, mistura cachaça branca, cupuaçu, castanha de caju e soda de tucupi preto. Com aura de Kir Royale, é refrescante, quase efervescente.
Mas talvez o drink mais memorável seja justamente aquele que parece sobremesa. Cremoso, espesso e servido quase para ser comido de colher, o Ramos Tucufizz leva tucupi preto, cupuaçu, castanha de caju e cachaça envelhecida em amburana. Inspirado no clássico Ramos Gin Fizz, ele chega à mesa com textura de mousse aerada – uma boa forma de encerrar a noite, ao lado da irretocável torta de chocolate do Tan Tan.
Por falar em pratos, a cozinha também se renovou para acompanhar o ritmo dos copos. Sem mexer nos clássicos da casa, Bañares adicionou sete novos pratos inspirados em referências de boteco reinterpretadas sob o olhar do Tan Tan.

Entre as opções, todas ideais para compartilhar e beliscar sem medo, o grande destaque é a Lula à Dorê, frita com perfeição – um tipo de “torresminho” do mar, acompanhada de maionese de nirá. Tem também vinagrete de polvo com mitsuba (salsa japonesa), bolinho de carne de porco e chapa de cogumelos à provençal.
Mudar de perspectiva, com uma taça na mão, nunca pareceu tão bom.