Os carros chineses já deixaram de ser uma aposta periférica no mercado brasileiro. No primeiro trimestre de 2026, as importações de automóveis vindos da China somaram US$ 1,5 bilhão, alta de 552,5% sobre o mesmo período de 2025, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic). No mesmo intervalo, eles responderam por 65,6% dos carros desembaraçados no país.
Os números ajudam a explicar a primeira etapa dessa expansão das montadoras chinesas: a do volume. Ela apareceu de forma ainda mais simbólica em fevereiro deste ano, quando o BYD Dolphin Mini fechou o mês no topo do varejo nacional, com 4.810 unidades emplacadas, quase mil à frente do Volkswagen Tera, segundo a Fenabrave. Foi o retrato de uma entrada baseada em escala, produto de proposta mais acessível e ocupação rápida de espaço.
O que o Salão de Pequim 2026 mostra agora é o próximo capítulo dessa história. Se a chegada das montadoras chinesas ao Brasil foi marcada pelo avanço em volume, a nova fase passa por marcas, divisões e modelos mais premium. Hoje o maior salão do automóvel do mundo, a mostra chinesa virou a vitrine dessa mudança – e boa parte dela já começa a mirar mercados como o brasileiro.
A leitura aparece no próprio evento. O salão, que termina no domingo (3), reúne quase 200 carros inéditos e colocou os modelos chineses em maioria entre os veículos expostos ao público. Em muitos casos, o mesmo carro aparece com versões híbrida, elétrica e a combustão, o que amplia sua capacidade de adaptação a diferentes mercados.
Ao mesmo tempo, o centro da competição parece ter migrado: a ênfase já não está apenas em bateria, recarga e desempenho, mas também em assistência à condução, plataformas de alta tensão, chassis digitais e integração entre hardware e software.
Outro sinal dessa virada apareceu nas chamadas “Series 9”, veículos de topo de linha que, na China, costumam identificar SUVs grandes de sete lugares ou sedãs de luxo usados para concentrar o máximo de tecnologia, conforto e desempenho.
Pequim como vitrine da nova fase
O impacto dessa mudança não é abstrato para o Brasil. A GWM, por meio da divisão premium Wey, já indicou que o fechamento maior da Europa aos carros chineses aumenta o peso do mercado brasileiro como destino de consumo e como base exportadora. Além da fábrica de Iracemápolis, em São Paulo, a empresa terá uma segunda linha de produção no Espírito Santo.
A BYD também usou o Salão de Pequim para revelar próximos passos acima da faixa de entrada e do volume. Entre os lançamentos mostrados está o conversível Z, da Denza, marca de luxo da fabricante. O movimento se conecta ao que a montadora vem construindo no Brasil: depois de consolidar presença com um elétrico de proposta mais acessível, prepara também um avanço no segmento premium.
IM Motors: o braço premium da MG
A MG Motor decidiu organizar sua operação brasileira em duas frentes. De um lado, confirmou para o segundo semestre de 2026 a chegada da IM Motors, marca premium do grupo SAIC Motor. De outro, prepara ainda para este ano o início da montagem local do MG4 Urban, hatch elétrico de entrada que chegará primeiro importado e depois abrirá a operação industrial da marca no país.
A IM será operada via MG no Brasil. Criada como braço tecnológico do grupo, a marca premium tem foco em veículos elétricos de alto padrão, com forte integração entre software, inteligência artificial e arquiteturas eletrônicas. Segundo a montadora, a operação local terá foco em modelos com assistência avançada à condução, controles eletrônicos, serviços inteligentes e powertrains elétricos de última geração.
Nos bastidores do evento, surgiram indicações de que o LS6 pode estar em fase avançada de homologação para o mercado brasileiro, embora a informação ainda não tenha confirmação oficial. O modelo se enquadra na leva de SUVs elétricos de estilo cupê que as marcas chinesas vêm usando para disputar consumidores interessados em tecnologia, desempenho e desenho mais sofisticado.
Exeed: a aposta premium da Chery
A Exeed aparece como outro sinal dessa ofensiva. Criada como divisão premium da Chery, a marca está nos planos para o Brasil, ainda que a operação dependa de novas análises antes de uma decisão final. A ambição é clara: ocupar uma faixa de mercado em que o consumidor hoje associa tecnologia, acabamento e prestígio sobretudo a marcas europeias, como BMW e Audi.
Lotus volta ao país
A Lotus reforça a dimensão global dessa virada. Sob controle do Grupo Geely, a marca britânica prepara seu retorno oficial ao Brasil por importação. A linha prevista para 2026 combina dois produtos que traduzem bem a nova fase: o Eletre, SUV elétrico fabricado na China com até 918 cv, e o Emeya, sedã de proposta GT que aposta em eletrificação e performance aerodinâmica.
O que muda para o Brasil
O que Pequim mostra, no fim, é uma segunda etapa da presença chinesa. A primeira foi construída em torno do volume, do preço mais competitivo e da expansão rápida de participação. A próxima parece caminhar em outra direção: mais marcas premium, mais submarcas, mais SUVs grandes, mais sedãs de alto luxo e mais tecnologia embarcada usada como novo argumento de valor.
Se a entrada chinesa no Brasil começou pela base da pirâmide, 2026 tende a marcar a subida. E o Salão de Pequim deixa essa guinada mais visível: depois de provar que conseguem chegar em escala, as montadoras chinesas agora trabalham para ocupar também o topo do mercado.