“Toda a construção de imagem só é consistente se estiver embasada em dados, fatos e evidências.”
A frase, dita por Ana Repezza, 50 anos, numa entrevista exclusiva à Forbes Agro, funciona como síntese de um novo momento do agronegócio brasileiro e, sobretudo, do papel que ela pretende desempenhar à frente da CropLife Brasil.
Nesta segunda-feira (4), ela passa a ser oficialmente a comandante da entidade. É, inclusive, a primeira mulher da presidência desta associação civil sem fins lucrativos, fundada em 2019, e que representa empresas especializadas em pesquisa e desenvolvimento de soluções para a produção agrícola sustentável, nos setores de germoplasma (mudas e sementes), biotecnologia, defensivos químicos e bioinsumos. Um setor que, segundo os dados mais recentes de 2024, movimentou R$ 114,1 bilhões.
Para ela, o país já resolveu a equação da produção. O desafio, agora, é outro: sustentar acesso a mercado em um ambiente cada vez mais condicionado por regras, percepção e política comercial.
“Projetar corretamente a imagem do agro no exterior é algo com que eu trabalho há anos. E isso só se sustenta com dados”, afirma.
E essa é justamente a especialidade de Ana. Com mais de 25 anos de experiência, a executiva construiu uma trajetória sólida na articulação de políticas comerciais e atração de investimentos, passando pela diretoria de negócios da ApexBrasil, além de trazer na bagagem a liderança de missões internacionais e uma passagem marcante como secretária-executiva da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX), órgão do governo brasileiro, ligado à Presidência da República, responsável por formular, implementar e coordenar políticas de comércio exterior de bens e serviços.
Quando a regra define o mercado
A agenda imediata da CropLife passa por três frentes com impacto direto sobre investimento e inovação: a regulamentação da Lei dos Bioinsumos, da Lei de Proteção de Cultivares e do novo marco dos defensivos agrícolas.
A discussão é menos jurídica do que econômica.
O mercado global de defensivos agrícolas movimenta cerca de US$ 70 bilhões (R$ 350 bilhões, segundo a cotação atual), enquanto o segmento de biológicos cresce em ritmo acelerado e já supera US$ 13 bilhões (R$ 65 bilhões), segundo estimativas de consultorias internacionais. No Brasil, esse mercado de biológicos avançou 28% e movimentou em 2025 R$ 6,2 bilhões, segundo dados da CropLife.
“Quando a gente fala de regulação, estamos falando de ambiente de negócios. E o ambiente de negócios precisa ser seguro para quem investe e para quem produz”, diz Repezza.
No caso dos bioinsumos, o país busca transformar sua experiência em vantagem competitiva.
“Não tenho dúvidas em dizer que a legislação brasileira é a mais moderna do mundo nesse tema”, afirma.
China: o gargalo invisível

Se a regulação doméstica organiza o jogo interno, é no comércio exterior que ele é testado.
E nenhum mercado é mais relevante do que a China.
Em 2025, o Brasil exportou US$ 55,3 bilhões (R$ 277 bilhões) em produtos do agronegócio para o país asiático, com destaque para soja e milho, commodities diretamente impactadas por questões regulatórias.
“O tema mais relevante para nós hoje é a sincronia regulatória em sementes”, afirma Repezza. “Existe uma disparidade de prazos para aprovação que prejudica diretamente a entrada de novas tecnologias.”
Na prática, o Brasil planta inovação antes que ela seja liberada no principal destino da produção.
“Esse é um trabalho de diálogo técnico. Não é ideológico, é processo”, diz.
O descompasso não aparece de forma explícita nas estatísticas, mas reduz eficiência e captura de valor ao longo da cadeia.
A disputa que não aparece
Parte da pressão sobre o agro brasileiro não vem de tarifas, mas de percepção.
A União Europeia segue como um dos principais polos de questionamento sobre o uso de tecnologias agrícolas, especialmente defensivos. E, nesse ambiente, a resposta baseada apenas em discurso perdeu eficácia.
“Não adianta entrar em um debate ideológico. A nossa estratégia é colocar dados na mesa”, afirma.
A CropLife aposta no uso do CropData para estruturar essa defesa. A plataforma reúne indicadores técnicos sobre produtividade, uso de insumos e segurança.
“Temos dados muito robustos. O que precisamos é utilizá-los melhor.”
A estratégia reflete uma mudança de postura: sair da defensiva e passar a disputar narrativa com base em evidência.
O campo como sistema

Dentro da porteira, a transformação é silenciosa, mas profunda.
O avanço dos biológicos não elimina os químicos, assim como a biotecnologia não substitui o melhoramento genético. O que emerge é um sistema integrado.
“Não se trata de escolher entre químico ou biológico. O produtor precisa ter um cardápio”, afirma Repezza.
Esse modelo combina quatro pilares: bioinsumos, biotecnologia, germoplasma e defensivos químicos.
O Brasil, maior exportador mundial de soja e um dos líderes globais em produtividade tropical, passa a estruturar sua competitividade com base nessa integração tecnológica — e não mais em substituição.
Governança sob pressão
Esse novo ambiente exige velocidade. “O ambiente de negócios está realmente desafiador e precisamos dar cada vez mais respostas aos nossos associados”, afirma.
A CropLife passa por uma revisão de governança para ganhar agilidade e capacidade de articulação. A entidade busca ampliar seu papel na construção de políticas públicas e na interface com os mercados internacionais.
Do grão à tecnologia
Por trás dessa agenda está uma ambição mais ampla.
“O meu desafio é mostrar como a nossa competitividade vem de um ecossistema de inovação que pode ser transportado para outros países”, diz Repezza.
O Brasil, que em 2025 exportou US$ 169 bilhões (R$ 845 bilhões) em produtos do agronegócio, ainda tem participação limitada no comércio global de insumos e tecnologia agrícola, um mercado de maior valor agregado.
A parceria com a ApexBrasil busca justamente ampliar essa presença, com foco em países tropicais.
A mudança é estratégica. Sai o modelo centrado em volume. Entra o modelo baseado em valor.
Uma agenda que também é institucional
A chegada de Repezza marca também um ponto de mudança institucional. Como a primeira mulher a presidir a CropLife Brasil, ela assume em um momento de consolidação da entidade.
“Espero poder contribuir incentivando a participação feminina no agro, especialmente em posições de decisão”, afirma.
Em um setor que já domina a produção, o próximo salto passa por outra variável: influência.