“La Serenissima” é menos uma cidade e mais uma obra de arte, suspensa entre água e luz, praticamente inalterada há séculos — em parte graças às suas ruas exclusivamente para pedestres e aos belíssimos palácios históricos e praças. Dos mestres abrigados na Gallerie dell’Accademia às obras monumentais de Tiziano e à escultura de Donatello na Santa Maria Gloriosa dei Frari, passando pelas exposições temporárias na antiga casa da colecionadora americana Peggy Guggenheim, Veneza é uma cidade de arte como nenhuma outra.
E nesta semana, com a abertura da 61ª edição da Bienal (em cartaz até 22 de novembro de 2026), não há melhor ocasião para visitá-la. Mesmo com apenas um ou dois dias, é possível aproveitar muita arte. Veja algumas sugestões do que visitar, onde se hospedar para evitar multidões e onde comer e beber. Todas as exposições ficam abertas durante toda a Bienal.
Pavilhões nacionais fora do circuito principal

Uma vantagem de visitar pavilhões que não ficam no Arsenale e nos Giardini — os dois principais espaços da Bienal — é que não é necessário ingresso. Além disso, eles costumam ocupar edifícios inusitados, o que torna a experiência ainda mais interessante.
Comece pelo pavilhão da Estônia, com “The House of Leaking Sky”, uma excelente mostra individual de Merike Estna. A artista adiciona diariamente novas camadas a uma série de 22 pinturas ao longo dos próximos meses.
Além da pintura ao vivo em grandes telas nas paredes, o espaço — a antiga Igreja de Santa Maria Assunta — abriga retratos pintados de artistas mulheres históricas (incluindo Lavinia Fontana, considerada a primeira mulher a pintar nus), aplicados em azulejos de cerâmica no chão, além de um banco colorido também em cerâmica, onde os visitantes podem se sentar. Durante o processo, Estna veste peças criadas em colaboração com a designer Lilli Jahilo, desenvolvidas especialmente para o projeto e inspiradas em trajes históricos.

Dali, uma curta caminhada leva ao primeiro pavilhão da Somália na história da Bienal, instalado no Palazzo Caboto, no início da Via Garibaldi. Com curadoria de Mohamed Mire e Fabio Scrivant, a mostra ocupa três andares e reúne a artista Ayan Farah e as poetas Asmaa Jama e Warsan Shire, celebrando a Somália como uma “Nação de Poetas” em uma experiência multissensorial (olfato, som e imagem). Logo na entrada, o aroma de incenso somali convida o visitante. Em seguida, o som: palavras de Warsan Shire evocam temas como resiliência e pertencimento. Por fim, surgem as obras têxteis de Ayan Farah, onde pigmento e luz traçam memórias da terra. A experiência se completa com o filme poético e instalação de Asmaa Jama.

Para finalizar, siga até o fim da Via Garibaldi e atravesse a ponte à esquerda para encontrar o trabalho envolvente e místico da artista, poeta, compositora e cineasta Ásta Fanney Sigurðardóttir, no pavilhão da Islândia. “Pocket Universe” mistura som, performance, vídeo, escultura e instalação. Há um delicado barco de madeira azul e branco do lado de fora, além de elementos como uma moeda, uma cadeira, imagens de uma criatura semelhante a um yeti em paisagens remotas e uma trilha sonora sussurrante. A exposição é otimista, ambientada em tons de azul suaves, sugerindo que mesmo em momentos de instabilidade, uma mudança de perspectiva pode revelar novas possibilidades.
Exposições em galerias e museus

Fora dos pavilhões, uma mostra imperdível é “The-Exchange-Value-of-Language-Has-Fallen-to-Zero”, na Casa dei Tre Oci, na ilha de Guidecca, do artista conceitual americano Joseph Kosuth. A exposição apresenta obras em neon e textos instigantes. O destaque é uma nova instalação de grande escala, A Chain of Resemblance (2026), baseada em texto de Michel Foucault. No andar superior, há trabalhos dos anos 1960, como One and Three Mirrors (1965), além de uma reedição de um pôster criado para a Bienal de 1976, disponível gratuitamente para o público.
Onde se hospedar

Ficar em um hotel longe das multidões pode ser um alívio após um dia intenso de arte. Uma excelente opção é o Hilton Molino Stucky Venice, um imponente edifício de tijolos vermelhos do século XIX na ilha de Guidecca, que já foi um dos maiores moinhos industriais de farinha da Europa. O hotel preserva elementos estruturais originais, como vigas aparentes e estruturas metálicas, combinados com interiores contemporâneos.
Os 379 quartos e suítes mantêm detalhes históricos, como vigas de madeira originais, além de toques clássicos venezianos, como lustres, tecidos listrados e móveis de estilo antigo. Muitos quartos têm vista para os canais. A suíte presidencial, a maior e mais alta da cidade, oferece acesso privativo ao rooftop.
Não deixe de visitar o Skyline Bar, no terraço, com algumas das melhores vistas de Veneza, petiscos venezianos e coquetéis criativos. Ao lado, há uma piscina também no rooftop, aberta nos meses mais quentes. Fora do hotel, a região conta com cafés, restaurantes e bares ao longo do canal.

O hotel fica a cerca de 15 minutos de barco da Praça de São Marcos, com traslado a cada 30 minutos e fácil acesso ao vaporetto. As diárias começam em € 240 por noite (cerca de R$ 1.320) em quarto duplo com café da manhã. As suítes Molino partem de € 590 por noite (cerca de R$ 3.245).
Onde comer e beber
O Aperol Spritz é a bebida indispensável em qualquer visita a Veneza. O drinque alaranjado pode ser encontrado por toda a cidade, especialmente na Via Garibaldi, uma das áreas centrais da Bienal. Essa região também é uma ótima opção — e menos turística — para o almoço, em comparação com os restaurantes ao redor da Praça de São Marcos. Ali, moradores e visitantes da Bienal se misturam nas mesas ao ar livre, onde predominam pratos simples de frutos do mar, como spaghetti alle vongole (com amêijoas) e peixes grelhados ou fritos.

Para um jantar especial longe das multidões, o restaurante Aromi, na Guidecca, é uma excelente escolha. A cozinha italiana ganha influências asiáticas, fruto dos 17 anos de experiência do chef na China. O espaço conta com uma charmosa varanda de verão à beira do canal, além de um ambiente interno intimista. O chef Ivan Fargnoli oferece menus degustação de quatro ou sete etapas, que mudam conforme a estação. Entre os destaques estão o tagliolini de lula com dashi de gengibre e caviar Kaluga, o espaguete com ouriço-do-mar e bisque de yuzu kosho, além de pratos como amberjack (peixe) com nhoque de sépia e beurre blanc com pó de atum. No menu à la carte, destaque para o Glacier 51 com alho doce e limão salgado.

Antes do jantar, vale apreciar um dos mais belos pores do sol da cidade com um coquetel no Skyline Rooftop Bar, no oitavo andar do hotel. Experimente o “Blushing Dawn”, um drinque à base de vodca com espuma cremosa de maracujá.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com