Seja Bem Vindo - 07/05/2026 05:48

  • Home
  • Política
  • “O Mercado de Commodities É Suicídio. Opto Pelo Mercado de Nicho”

“O Mercado de Commodities É Suicídio. Opto Pelo Mercado de Nicho”

“O mercado de commodities sempre foi suicídio; eu optei pelo mercado de nicho,” diz, em entrevista exclusiva à Forbes Agro, o chef chocolatier Fabio Sicilia, dono da Gaudens Chocolate, uma das maiores fabricantes de chocolate artesanal da Amazônia.

A fala de Sicilia ajuda a explicar a trajetória da própria Gaudens. O nome inclusive deriva do latim gaudium, significa alegria, felicidade ou prazer. E é por intermédio desse ‘prazer’ que a marca tem sido uma das mais emblemáticas da transformação da cadeia do cacau no Pará.

“Para a Gaudens, o luxo é trazer a luz à origem. Não é luxo de luxúria ou esnobismo.”

Em um Estado que historicamente exporta matéria-prima, Sicilia trouxe à luz um negócio baseado em valor agregado, origem amazônica e industrialização local. Hoje, seu trabalho é apontado como uma das experiências mais consistentes de verticalização do cacau na Amazônia brasileira. Mas não é o único. Além da Gaudens, também está a Mágio e a Cacauway.

No entanto, o protagonismo da empresa ficou evidente na Chocolat Amazônia 2026, realizada entre os dias 23 e 26 de abril, em Belém. A Gaudens ocupou o maior estande expositor da feira, consolidando uma posição construída ao longo de duas décadas de atuação no segmento de chocolates artesanais premium.

Mais do que vender chocolate, Sicilia tenta alterar a lógica econômica de uma das principais cadeias agrícolas do Norte do País: fazer com que mais valor permaneça no território produtor.

A descoberta do cacau amazônico

DivulgaçãoFábio (à dir.) com produtores de cacau em áreas de produção no Pará

A jornada começou em 2004, pouco depois de Sicilia retornar da Europa, onde concluiu sua formação como Chef Master. O contato com o mercado europeu provocou uma mudança profunda na forma como enxergava o próprio Pará (estado onde foi criado, pois ele nasceu no Paraná).

“Em 2003, eu voltei da Europa e me deparei com o fato de que os ingredientes mais nobres de lá eram daqui. Percebi que algo estava errado”, afirma.

A percepção ganhou ainda mais força quando descobriu que o Pará possuía o maior município produtor de cacau do Brasil, Medicilândia, na porção centro-norte do estado. Em cerca de 45 mil hectares, foram colhidos 41 mil toneladas em 2024, segundo os dados mais recentes do IBGE. Ao todo, o Pará possui 163,4 mil hectares com cacau, colhendo 137,5 mil toneladas.

O mais curioso, segundo ele, é que mesmo vivendo no Pará desde criança, nunca havia percebido a dimensão econômica e cultural do cacau amazônico.

“A gente tem um embotamento: de tanto ver, você não vê. O cacau está aqui, você vê e esquece.”

Naquele período, o chocolate premium ainda era associado quase exclusivamente à Europa. Sicilia lembra que, quando começou a produzir chocolates artesanais em 2005, os clientes acreditavam que o produto era importado.

“Quando montei a primeira fábrica e servia o chocolate no restaurante, as pessoas perguntavam se era belga. Eu dizia: ‘Não, é de Medicilândia’. E perguntavam onde era isso.”

A aposta na verticalização

DivulgaçãoCripiocas Gaudens inova ao substituir flocos de arroz por farinha de tapioca

A partir dessa constatação, Sicilia passou a defender uma tese que hoje ganha força dentro da bioeconomia amazônica: regiões produtoras precisam industrializar e construir marcas próprias para escapar da dependência das commodities.

“A Europa é muito hábil na agregação de valor; ela consegue agregar valor até no que é nosso”, afirma. “Eles vendem o nosso café embalado em alumínio tirado daqui, e nós compramos o que é nosso com um valor agregado enorme.”

Em vez de disputar escala no mercado convencional, Sicilia decidiu apostar em um nicho baseado em origem, autenticidade e qualidade. Segundo ele, quatro pilares sustentam um produto premium: narrativa verdadeira, origem e originalidade, controle de qualidade e consistência.

“Não adianta ter narrativa sem veracidade. Isso derruba uma marca premium.”

A estratégia exigiu persistência. Durante anos, Sicilia operou praticamente sem apoio financeiro ou institucional. Em determinado momento, chegou a recolher a primeira fábrica para dentro do restaurante para manter a produção.

Mesmo assim, continuou investindo em inovação própria. Em 2012, lançou a Castella, creme de castanha-do-pará com cacau e açúcar orgânico. Depois criou a Crepioca, substituindo flocos de arroz por farinha de tapioca para desenvolver textura crocante em chocolates.

O impacto sobre os produtores

Mais do que desenvolver produtos diferenciados, a Gaudens passou a estruturar uma cadeia integrada de fornecedores locais. Atualmente, a empresa trabalha com cerca de oito produtores estáveis de cacau, principalmente em Medicilândia, além de produtores de cupuaçu e cooperativas ligadas à produção de farinha de tapioca. O processamento de duas toneladas de amêndoas por ano.

“Quando vendo um pacote de Crepioca, estou abastecendo a cadeia do cacau, da mandioca, apoiando a indústria artesanal de tapioca e a cadeia do cupuaçu. É verticalização verdadeira e economia circular.”

A remuneração paga aos produtores também foge do padrão tradicional do mercado de cacau. “Eu pago três ou quatro vezes o valor do cacau comum. Se o cacau commodity está R$ 12, eu pago R$ 35.”

Segundo Sicilia, o prêmio normalmente pago pela indústria ao cacau fino ainda é muito baixo para estimular uma mudança estrutural na produção.

Ao elevar essa remuneração, ele acredita que ajuda a impulsionar uma nova geração de produtores focados em qualidade sensorial e reconhecimento internacional.

O Pará no mapa mundial do chocolate

DivulgaçãoProdutor de Medicilândia Ivan Dantas Ferreira, fornecedor da Gaudens

Os resultados já começam a aparecer. O Pará ultrapassou a Bahia em 2017 e se tornou o maior produtor nacional de cacau. Agora, o desafio passa a ser consolidar também a reputação do Estado na fabricação de chocolates premium e na excelência das amêndoas.

“Minha meta agora é valorizar os diferenciais de cada produtor. Cada região tem sua assinatura.”

Sicilia cita como exemplo o produtor de Medicilândia Ivan Dantas Ferreira, fornecedor da Gaudens, que recebeu recentemente em Paris um prêmio de melhor amêndoa de cacau do mundo.

A trajetória do produtor é exemplo de resiliência na Transamazônica desde 1973, superando crises históricas agravadas pela doença fúngica vassoura-de-bruxa que quase literalmente ‘varreu’ o cacau no Brasil. Foi através do investimento pioneiro em cacau orgânico e fermentado que, hoje, ele se tornou um o símbolo da força e da excelência do cacau fino da Amazônia.

A própria Gaudens também ganhou projeção internacional. Sicilia afirma que a empresa começou a mudar de patamar depois de uma premiação em Londres, repercutida inclusive por veículos internacionais de negócios.

“Parei de ter prejuízo, mas ainda não tenho muito lucro. Meu negócio não é volume, é qualidade.”

Hoje, a empresa segue enquadrada no Simples Nacional, com faturamento anual abaixo de R$ 4 milhões. Sicilia prefere manter uma operação menor, focada em consistência e longevidade da marca.

“Trazer a luz à origem”

Por trás da estratégia empresarial existe também uma tentativa de reposicionar simbolicamente a Amazônia dentro do mercado global de alimentos premium.

“O europeu e o estrangeiro que chegam aqui reconhecem que estão com um produto local; quem é daqui acha que é de fora.”

Para Sicilia, o grande desafio agora é ampliar o impacto desse modelo sobre mais produtores e consolidar uma cultura de valorização da origem amazônica.



Clique aqui para ver a Fonte do Texto

VEJA MAIS

Novo Range Rover Transforma a Cabine em Sala de Concertos, e Só É Vendido por Convite

Ouvir música dentro de um carro deixou de ser só uma questão de volume. No…

Desenrola 2.0 de Lula mantém crédito “predatório” para idosos do INSS

Ao anunciar o programa Desenrola 2.0 nesta segunda-feira (4/5), o governo Lula (PT) optou por…

TJ rebate acusação de racismo em caso de juiz demitido: “Julgamos condutas”

O Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO) respondeu, no processo administrativo que levou ao desligamento…