A política, quando perde a bússola moral, deixa de ser o campo do entendimento para virar um espetáculo de quinta categoria.
O que Paolo Zampolli, enviado de Donald Trump para assuntos globais, destilou na TV italiana não foi um erro de cálculo: foi a chancela de uma cultura de gabinete onde a soberba é o idioma oficial e a honra nacional é tratada como um detalhe incômodo. Ao classificar as brasileiras como uma “raça programada para causar confusão”, o sujeito prova que habita um mundo onde a ignorância é motivo de orgulho.
Zampolli não é um estrategista, é um canastrão. Age com a arrogância de quem, desprovido de qualquer estatura diplomática, sente-se protegido pela sombra do “dono do mundo”. O que mais assusta, contudo, não é apenas a legitimação do grotesco, mas o conforto com que ele profere tamanha barbárie.
Ele se sente à vontade porque usa a “liberdade de expressão” como um escudo para tudo, acreditando ser garantia de impunidade e uma licença para a desumanização sem consequências.
Sua fala é o subproduto de uma engenharia do caos que validou o absurdo: um sistema onde a civilidade é vista como fraqueza e a grosseria é vendida como autenticidade. O fato de ele não ter sido demitido após insultar uma nação inteira é o dado mais alarmante desta ópera bufa. Sua permanência no cargo é a assinatura do governo embaixo de cada uma de suas palavras vis.
É preciso deixar o registro, para que o insulto não passe impune: o senhor Zampolli teve o desplante de afirmar que as mulheres brasileiras são “prostitutas” e pertencem a uma “raça maldita”. Onde deveria haver o exercício da alta diplomacia, há apenas o machismo rasteiro de quem reduz mães, filhas, irmãs e avós brasileiras a um estereótipo sujo, como se a integridade de uma nação inteira fosse apenas o entulho descartável de suas frustrações pessoais.
Mas a ofensa ganha contornos de tragédia quando vemos brasileiros nas redes sociais concordando com tamanha abjeção. É o sinal de que a cegueira ideológica corroeu o brio nacional. Como se defender a honra da mulher brasileira fosse uma questão de “esquerda” ou “direita”, e não um imperativo de decência. Ao aplaudirem quem nos ofende, esses brasileiros esquecem que a dignidade das brasileiras de seu convívio, nem só familiar, não pode ser moeda de troca em um palanque digital.
O Itamaraty não pode assistir a esse dejeto diplomático de braços cruzados. O governo brasileiro tem o dever de marcar este cidadão. O aviso deve ser cristalino: Zampolli é persona non grata.
Não há interlocução possível com quem agride a honra de um país para satisfazer o ego de um gabinete que confunde liderança com ódio. No concerto das nações, o Brasil é grande demais para ser o quintal de um “aspone” que confunde liberdade com o direito de vomitar sua alma repugnante.
E isso tudo sem precisar falar dos arquivos Epstein.