No mercado de tecnologia e inovação, é comum ouvir histórias de fundadores que criaram soluções a partir de dores teóricas. Para Luiz Moura, cofundador e Chief Business Officer (CBO) da VOLL, a trajetória foi pavimentada na prática: o executivo começou sua carreira como mensageiro em um hotel cinco estrelas em Belo Horizonte (MG). Carregava malas, entregava cartas os hóspedes “Eu tinha muito orgulho daquilo, adorava servir. Fui promovido a recepcionista, depois coordenador. Me apaixonei pelo turismo profissional”, relembrou.
Essa experiência na base da operação, somada à disciplina herdada da família -sua mãe, professora de português, e seu pai, dono de uma metalurgia-, fundamentou o que viria a ser a maior agência digital de viagens corporativas da América Latina.
Luiz entrou no turismo corporativo como assistente na BTM e rapidamente cresceu, passando por quatro cargos em seis meses e ajudando a estruturar novas áreas. Após quatro anos, percebeu uma oportunidade a partir da constatação de que o mercado de turismo era excessivamente analógico e lento. Enquanto o consumidor final já utilizava aplicativos intuitivos, as empresas ainda lidavam com processos manuais e burocráticos. Em 2017, a convite dos sócios, fundou a VOLL, focada em tecnologia para mobilidade corporativa.
Apesar de um início simples, a empresa se tornou uma das maiores plataformas da América Latina, com grandes clientes, presença em São Paulo e Belo Horizonte. Para Moura, grandes corporações só têm a ganhar com o avanço da tecnologia: “gestores usavam vouchers de papel há anos e as ondas de transformação são inevitáveis”.
Sob sua liderança, a VOLL escalou rapidamente ao trazer a usabilidade do mundo B2C para o rigor do B2B, fechando 2025 com um faturamento recorde de R$ 1,5 bilhão, um salto de 50% sobre o ano anterior. Esse desempenho consistente atraiu o chamado smart money global, culminando em um aporte histórico liderado pela gestora americana de private equity Warburg Pincus.
O selo de aprovação da Warburg Pincus
O investimento de R$ 700 milhões da Warburg Pincus é descrito por Moura não apenas como uma injeção de capital, mas como uma validação de modelo e maturidade institucional. “Eles se interessaram pela nossa capacidade de execução, cultura e números. Foi o maior aporte em uma empresa de turismo corporativo no Brasil”, explica o executivo.
A operação marcou uma mudança importante na governança da companhia, com a entrada da Warburg Pincus que assumiu o controle por meio da compra da participação da Localiza Fleet, que até então era sócia da VOLL. Os fundadores, Luciano Brandão, Eduardo Vasconcellos, Luiz Moura, Jordana Souza e Lucas Machado permaneceram à frente do negócio.
Moura ressalta que o objetivo agora é acelerar a fronteira tecnológica da VOLL, especialmente no uso de Inteligência Artificial para otimização de custos e experiência do usuário: “trazer a simplicidade para processos complexos de grandes corporações foi o que nos diferenciou. Atendemos hoje mais de 30% das empresas listadas na B3, como Itaú, Nubank, XP e iFood”, afirma.
Com escritórios em Belo Horizonte e no centro financeiro de São Paulo, a empresa já emprega mais de 600 pessoas e se prepara para o próximo passo. Moura é categórico sobre a ambição da marca sob a nova estrutura de capital: “A VOLL vai ser reconhecida globalmente nos próximos anos”.
Para sustentar esse crescimento, ele acredita que o diferencial competitivo reside no capital humano e na cultura de “donos”. “O maior desafio é encontrar pessoas que tenham a mesma essência de ‘fazer acontecer’, que queiram empreender de verdade, quebrar objeções e superar obstáculos. O desafio externo, como a economia, sempre existirá, mas o que move o mundo são as pessoas”, reforça Moura, enfatizando que a nova fase da empresa é de consolidação tanto tecnológica quanto institucional.
O Brasil como hub global de inovação
A tese de crescimento da VOLL está ancorada em um mercado de dimensões continentais e em franca expansão. O mais recente levantamento da Abracorp (Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas mostra que volume total movimentado pelo setor no primeiro trimestre do ano atingiu R$ 3,57 bilhões, um crescimento de 12,4% em relação aos R$ 3,18 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
Para Moura, essa escala permite que o país deixe de ser apenas um consumidor passivo de tecnologia estrangeira para se tornar um exportador de inteligência. “Temos o volume, temos as empresas e temos a tecnologia disponível localmente. O que decidirmos fazer com esse conjunto de ativos definirá se seremos apenas o 10º mercado ou se construiremos uma liderança global em eficiência”, analisou o CBO, que também integra conselhos importantes como o da FecomercioSP e da ALAGEV.
O cenário macroeconômico atual, marcado pela volatilidade nos preços de passagens aéreas e combustíveis, que em 2026 apresentaram picos históricos nos Estados Unidos, torna a solução da VOLL uma ferramenta crítica de sobrevivência financeira para as companhias.
Moura observa que o controle rigoroso de despesas passou de um desejável para uma necessidade estratégica no board das grandes empresas. “Toda empresa hoje precisa de eficiência e redução de fricção. Quando você elimina o papel e digitaliza a jornada do viajante, você devolve tempo e dinheiro para a organização”, explica.
Mesmo movimentando bilhões e gerindo uma das operações mais robustas do setor, Moura mantém o entusiasmo do jovem que sonhou conhecer o mundo aos 16 anos. “Naquela época, descobri que era possível construir uma carreira viajando. Hoje, já conheci 20 países, mas a sensação de viajar continua acontecendo todos os dias no escritório. Quando você cria uma empresa que movimenta milhares de pessoas pelo mundo, é como se estivesse viajando junto com cada uma delas”, diz o executivo, dando a entender que a rota da VOLL está apenas no começo.