Seja Bem Vindo - 11/04/2026 08:57

As Borboletas do Velho Chico

Depois de 3 horas de meia de viagem percorremos 250Km daquela estrada de paisagem árida. Desde Maceió seguimos pelo sertão, até que nos aproximarmos do município Ilha do Ferro. Ao longo do percurso a visão da terra seca, estorricada pelo sol, ornada por altos mandacarus e grandes aglomerados de xiquexiques. Finalmente a natureza tem seu frescor ao alcançar o espelho d’água do Rio São Francisco. Localizada às margens do rio, a Ilha do Ferro, município que recebeu esse nome apesar de não ser uma ilha e ali não haver ferro algum -, possivelmente deveu-se ao fato de existir, em frente à cidade, uma pequena ilha, mapeada há séculos por portugueses que ali aportaram, identificando o pedaço de terra como tendo o formato de um ferro de passar. Pode ser também que esse “ferro” um tenha pertencido um dia à família Ferro. Apesar da origem do nome ser incerta, o município com pouco mais de 400 habitantes mantém seu conjunto arquitetônico encantador e muito bem preservado, sendo considerado patrimônio cultural desde 2017.

Pacata até os dias de hoje, a Ilha do Ferro concentra inúmeros ateliês de arte em madeira e conta com uma organizada e talentosa cooperativa de bordadeiras. Entretanto, são raras as opções de hospedagem aos visitantes. Tive o privilégio de me hospedar na rua principal, na famosa Casa Zabilinha (que dizem já ter hospedado Lampião). Essa casa felizmente ainda mantém sua arquitetura original.

Marquei essa visita para acontecer no período em que é realizada a tradicional competição entre as embarcações típicas do Baixo São Francisco; a corrida de canoas à vela. Tecnicamente sofisticadas desde a sua construção até seu manejo, elas têm capacidade para múltiplos tripulantes, e unem cultura ribeirinha, força e muita técnica.

Suportados por um grande mastro, os barcos são armados com 1 ou 2 velas, também chamadas de “panos”. O tecido é tão leve que os ribeirinhos apelidaram “pele de ovo”.

As velas têm formato quadrado e são enormes em proporção à dimensão dos cascos. Quando as velas estão abertas, navegando à distância, remete nossa imaginação a borboletas dançando sobre as águas do rio, o que transforma a competição numa festa colorida, que mistura celebração comunitária, esporte, conhecimento e tradição.

As canoas à vela são barcos estreitos em comparação à sua área velica – o que o torna bastante instável. Seus tripulantes são como lastros-vivos, responsáveis pelo equilíbrio da embarcação. Presos ao topo do mastro, eles se mantêm pendurados em cordas, apoiando os pés na borda do barco, sempre do lado oposto ao vento. Os tripulantes movimentam seu peso com a função de sempre manter o barco equilibrado. Conforme o vento aumenta ou abranda eles alteram sua posição na canoa, de modo que a equipe escora e troca de lado, conforme o comandante executa as manobras necessárias. Essa competição guarda uma tradição secular, que exige conhecimento da natureza, força física e habilidade de manobras.

Competidores de vários municípios participam em barcos de diferentes tamanhos; por isso, antes da largada, uma equipe técnica mede o comprimento de cada barco e os classifica, separando cada um em categorias localmente chamadas de “páreos”:
Canoas grandes, são as duas velas. Essas são as mais longas. Quando medem entre 9,10m e 12m de comprimento, normalmente transportam entre 5 e 6 participantes e competem por uma categoria. A canoa Evellyn Eloisa, por exemplo, é uma canoa de 2 panos que mede 11,40m de comprimento, tem uma área velica de 90m2 e transporta 6 tripulantes. Em outra categoria entram os barcos com comprimento inferior a 9,10m. Já as canoas de uma vela são menores e levam de 1 a 2 participantes. Essas também separadas em duas categorias: as canoas de casco estreito, próprias para competição, se separam das canoas de casco mais largo, usadas normalmente para pesca.

Foto: reproduçãoCorrida de Canoas à Pano/Pão de Açúcar – Ilha do Ferro (AL), 2025

O trajeto acontece entre os municípios de Pão de Açucar e Ilha do Ferro, separados por cerca de 15 km. De canoa o percurso é cumprido em pouco mais de uma hora, celebrado com uma grande festa no desembarque em terra firme. Vence quem conhece o vento local e as correntes do rio. Mas, como dizem, vence quem conhece melhor os “segredos das águas”. Assistir a uma competição desses barcos de perto, acompanhando a montagem das velas e as manobras da equipe que têm os panos coloridos como suas molduras, ao som entusiasmado dos participantes gritando de um barco para o outro é, sem dúvida, motivo de muito orgulho e inspiração. É a constatação de que importamos tanta tecnologia e não valorizamos os saberes populares que são nossas verdadeiras raízes.

Assistir à corrida de canoas à pano baixo São Francisco, acompanhando aquela profusão de borboletas coloridas deslizando pelo rio, foi uma das experiências da vida que mais me trouxe uma profunda sensação de pertencimento. Senti, genuinamente, que minha alma é brasileira.

Até a próxima jornada!

*Por Marina Bandeira Klink: fotógrafa de natureza, com atuação reconhecida internacionalmente por registros das regiões mais remotas do planeta. É autora de três livros de fotografia e dois livros infantojuvenis adotados em escolas públicas e privadas. Seus trabalhos estão em exposições, livros didáticos, jornais e revistas no Brasil e no exterior. Em suas palestras, aborda temas como mudança de mindset, liderança, empreendedorismo, superação e meio ambiente a partir de experiências vividas em expedições pouco convencionais.



Clique aqui para ver a Fonte do Texto

VEJA MAIS

Artemis II retorna à Terra após missão histórica à órbita lunar

A missão Artemis II, da Nasa, foi concluída na noite de sexta-feira (10), com o…

Bolsonaro abriu a porta, mas pode ficar de fora

Jair Bolsonaro até que prestou um serviço ao país, mas não da forma que ele…

As 10 Melhores Cidades Culturais da Europa em 2026

A European Best Destinations (EBD) selecionou 10 cidades europeias em sua pesquisa anual sobre os…