O banco Santander Brasil divulgou nesta quarta-feira (29) os resultados do primeiro trimestre de 2026 mostrando uma queda de 7,3% no lucro líquido em relação ao trimestre anterior, que recuou para R$ 3,8 bilhões. Na comparação anual, a queda foi de 1,9%. O retorno sobre patrimônio (Return on Equity, ROE) ficou em 16%, uma redução de 1,5 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2025.
Em sua última coletiva de apresentação de resultados, Mário Leão, presidente do Santander, buscou qualificar o resultado, destacando que o lucro antes do imposto de renda cresceu no trimestre. Segundo ele, métrica é um indicador melhor da atividade operacional. “O lucro líquido caiu porque o banco pagou bem mais imposto”, afirmou. Para Leão, isso é um sinal positivo: significa que o banco está gerando mais resultado antes da tributação.
Ele afirmou ROE caiu parcialmente porque o patrimônio líquido cresceu — o banco gerou lucro e distribuiu metade como dividendos, elevando o denominador do cálculo. A meta de superar um ROE de 20% antes de 2028, afirmou, segue de pé. Leão deverá passar o comando do banco a Gilson Finkelsztain, ex-presidente da B3, ainda durante o segundo trimestre.
Baixa renda
O Santander está reduzindo sua exposição a clientes que recebem até dois salários mínimos, não têm vínculo CLT nem renda formal comprovável. Leão foi direto ao explicar o critério: o banco está se afastando de trabalhadores informais. “Nos nossos modelos e capacidade de precificar, não temos conseguido rentabilizar”, disse o executivo, classificando o movimento como uma “redução técnica e cirúrgica” em uma franja específica do portfólio.
O resultado prático aparece nos números: em 12 meses, a carteira de crédito para a baixa renda recuou — o banco usou o índice 100 como base e chegou a 91 —, enquanto os depósitos desse mesmo segmento subiram de 100 para 122. Ou seja, o Santander está captando mais dinheiro da baixa renda do que emprestando para ela, priorizando a relação de menor risco.
Inadimplência
A qualidade da carteira de crédito segue pressionada pelo cenário macroeconômico. A inadimplência acima de 90 dias avançou tanto na pessoa física — de 4,3% para 4,9% — quanto na pessoa jurídica, que cresceu de 1,3% para 1,8%. Considerando-se o total da carteira, a Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) subiu de 2,8% para 3,3%. Leão apontou três portfólios que merecem atenção mais próxima: o agronegócio, as pequenas empresas e parte da carteira de cartões.
No agro, o executivo reconheceu o desafio, mas minimizou o risco de perdas severas. “A maioria tem alienação fiduciária e consegue recuperar em 12 meses”, disse, ressaltando que boa parte das exposições é colateralizada. No segmento de grandes empresas, Leão descreveu situações pontuais no atacado que estão sendo monitoradas de perto.
Apesar do quadro, o custo de crédito ficou estável em 3,73%, tanto no trimestre quanto na comparação anual. Para Leão, a tendência é que a PDD acompanhe o crescimento da carteira ao longo do ano, podendo ficar um pouco mais alta em algumas linhas, mas sem deterioração expressiva.
Crédito
A carteira de crédito ampliada encerrou o trimestre em R$ 705,6 bilhões, com leve recuo de 0,4% em relação ao trimestre anterior — reflexo da sazonalidade em cartões e da variação cambial —, mas com avanço de 3,4% em doze meses. O financiamento ao consumo cresceu 14,2% no ano, impulsionado por veículos elétricos.
No segmento de pessoa física, o crédito imobiliário avançou 10,6% no ano e os cartões cresceram 9,1% — apesar da queda sazonal no trimestre, as receitas de cartões subiram 9,8% na comparação anual. As pequenas e médias empresas (PMEs) também se destacaram, com expansão de 9,9% em doze meses.
Um fator que pesou negativamente no trimestre foi a variação cambial. Por ser o maior banco estrangeiro em operação no Brasil, o Santander mantém uma carteira relevante em dólar — e a queda do dólar no período reduziu o valor dessa carteira em reais. “Dólar cai é má notícia para a carteira”, resumiu o presidente.
Juros
O cenário macroeconômico segue no radar. Leão avaliou que os juros devem cair mais lentamente do se esperava no início do ano, o que tem efeitos diretos nos resultados. “A conta melhora, mas mais devagar”, disse. Para ele a margem com o mercado, atualmente negativa, tende a melhorar conforme a Selic recua, porém de forma mais gradual.
Para a inadimplência de pessoa jurídica, o executivo foi categórico: mesmo que os juros caiam para 12%, o juro médio da economia ainda estaria em torno de 13% — “que é alto pra burro” —, o que significa que não haverá uma deterioração expressiva na PDD, mas também não haverá alívio relevante na margem.
Eleições
Leão foi cauteloso ao comentar o cenário eleitoral, mas avaliou que os candidatos, independentemente da orientação, tendem a buscar redução de juros e equilíbrio fiscal, e que os cenários desta vez são menos extremos do que em eleições anteriores. “Sempre existe um grau de risco, mas ele é menor do que nas últimas vezes”, afirmou.
O executivo disse esperar que os mercados se comportem relativamente melhor neste ano, embora reconheça que a ansiedade deve aumentar a partir de agosto, quando a campanha eleitoral de fato começa.