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BYD Muda o Tabuleiro da Guerra dos Semicondutores ao Anunciar Seu Próprio Chip de Direção Autônoma

Poucas horas antes do fim do dia 27 de maio, a BYD anunciou em solo chinês uma série de novidades que, a priori, são tecnológicas e devem aumentar o conforto dos motoristas. No entanto, algumas delas vão além e mostram um movimento relevante na guerra tecnológica que é travada hoje não somente entre empresas, mas entre nações e outras instituições.

Em Shenzhen, os executivos da companhia anunciaram o Xuanji A3. Trata-se do primeiro chip de direção inteligente fabricado na China com tecnologia de 4 nanômetros. O chip da BYD tem 4nm, e a coloca no mesmo nível de processo de fabricação dos chips mais avançados do mundo.

Em termos de capacidade bruta, o chip processa 700 TOPS por unidade — TOPS sendo a medida de quantas operações de IA o componente consegue executar por segundo. Quando três chips operam juntos, esse número salta para 2.100 TOPS.

Essa capacidade permite aos carros que passam pelas esteiras da companhia enxergar o ambiente ao redor, identificar pedestres, outros veículos, faixas e sinais, e tomar decisões em tempo real sem intervenção humana.

Há também uma promessa de economia de energia, com um consumo cerca de 20% menor do que o de concorrentes, segundo os dados internos da companhia – uma variável relevante para carros elétricos, dado que cada watt tem impacto na autonomia da bateria do carro.

Stella Li, Vice-Presidente Executiva Global da BYD e CEO da BYD Americas, disse em coletiva de imprensa que a companhia visa apenas abastecer suas próprias demandas com a novidade, sem a visão de que o chip será vendido para concorrentes ou terceiros.

O Capex destinado a esse projeto, em específico, não foi detalhado. A executiva, entretanto, detalha que ele integra a cifra do programa de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) que está em curso, da ordem de 100 bilhões de yuans (R$ 74 bilhões).

Com a decisão, a companhia faz um movimento relevante no tabuleiro.

Não é só sobre carros elétricos

O anúncio do Xuanji A3 é estratégico e, no fim do dia, não é só sobre carros. O lançamento é um marco no avanço da estratégia chinesa de aumentar sua independência tecnológica.

Os Estados Unidos apertaram progressivamente os controles de exportação de chips avançados para a China a partir de 2022, restringindo aceleradores de IA, chips lógicos de alto desempenho e equipamentos de fabricação de ponta.

Em resposta, o dragão asiático aumentou os esforços internos de autossuficiência em semicondutores – um movimento que outras nações e corporações também fizeram, à luz dos efeitos da crise dos semicondutores que ocorreu em um passado não tão distante.

O governo chinês passou a pressionar indústrias domésticas, como as montadoras de elétricos, a obter mais chips de fornecedores locais, reforçando a estratégia de autossuficiência.

A BYD, que tem um market cap de US$ 118 bilhões atualmente, responde diretamente a isso à medida que se torna a única montadora do mundo que terá capacidade de fabricação de chips de ciclo completo, cobrindo desde arquitetura e design de circuitos até fabricação de wafers e packaging.

Assim, a companhia reduz a dependência da China de fornecedores como a Nvidia, que ganhou tração no mercado e se agigantou nos últimos anos, e cujos chips alimentam os sistemas de direção autônoma de muitos concorrentes da BYD no país.

A decisão também mostra os esforços da companhia em democratizar a direção autônoma, um tema que foi reforçado durante a apresentação das demais novidades tecnológicas.

O motivo pelo qual o tema subiu várias posições na lista de prioridades

A crise dos semicondutores foi um episódio global que se arrastou principalmente entre 2020 e 2022 e causou impactos diretos na indústria. Os problemas derivados do evento fizeram com que diversos players repensassem decisões estratégicas e passassem a investir mais na cadeia de suprimentos do ramo e em P&D.

As montadoras frearam os pedidos de chips no início de 2020 ao prever queda nas vendas, mas a demanda por veículos se recuperou muito mais rápido do que o esperado no pós-pandemia, sendo que as fabricantes de semicondutores – como a TSMC, que detém mais de 60% do market share – já tinham redirecionado a capacidade produtiva para atender o boom de eletrônicos de consumo, como notebooks, consoles e smartphones.

Somado a isso, uma série de desastres naturais e acidentes em fábricas, como as tempestades no Texas e secas em Taiwan (de onde é a TSMC), agravaram ainda mais a situação.

Só em 2021, paralisada pela escassez, a indústria automotiva global perdeu mais de US$ 200 bilhões, segundo dados da AlixPartners. Com isso, o setor deixou de produzir cerca de 11 milhões de veículos.

No Brasil, 370 mil veículos deixaram de ser fabricados em 2021 por conta da crise, conforme a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

Assim, a crise funcionou como um choque de realidade para governos e empresas ao redor do mundo, evidenciando uma vulnerabilidade estrutural que precisava ser solucionada – e que serviu de mola propulsora para lançamentos como este, que a BYD acabou de anunciar.

O que mais a BYD apresentou ao mundo

Além do chip, a BYD confirmou que o sistema de direção autônoma Tianshen chegará ao Brasil em 2027.

A novidade é que esse sistema deixará de ser exclusividade dos modelos premium da companhia e estará disponível em um leque maior de carros que integram o portfólio. O sistema é compatível com os níveis L3 e L4 de autonomia.

A promessa de fazer a tecnologia chegar ao Brasil no ano que vem está diretamente relacionada ao projeto que a BYD está levantando em solo carioca.

“Nós anunciamos nosso centro de inovação e P&D no Rio, no Brasil, e a cidade do Rio de Janeiro realmente é um dos temas relevantes nesse sentido. Vamos construir o centro de P&D por lá, vamos construir também um data center no Rio. Com isso, vamos iniciar o projeto de direção autônoma”, disse Stella Li em coletiva de imprensa.

A executiva se refere ao anúncio feito há pouco mais de dois meses, de que a companhia irá criar seu primeiro centro de testes e avaliação automotiva no Brasil, que ficará no complexo do Aeroporto Internacional do Galeão, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. O investimento previsto do projeto é de R$ 300 milhões, com área total de cerca de 183 mil metros quadrados. A unidade é inspirada em uma estrutura semelhante que a empresa já opera em Zhengzhou, na China.

A BYD ainda apresentou um novo agente de inteligência artificial integrado ao painel, capaz de responder por voz ou toque para ajustar bancos, janelas, ventilação e fornecer dados de trânsito e clima em tempo real.

Para a China, a companhia anunciou seguros e indenizações para eventuais acidentes de motoristas que dirigem carros da marca com o sistema de direção autônoma.

Os sistemas possuem tecnologia para evitar acidentes e, como uma prova de confiança no próprio desenvolvimento, a empresa cobrirá custos de quem bater o carro ou tiver algum problema que não foi devidamente evitado pelos sistemas avançados de assistência à condução (ADAS).

O repórter viajou para Shenzhen, na China, a convite da BYD



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