É comum que empresas que adotam inteligência artificial comecem a jornada de forma otimista e acelerada, mas acabem desapontadas no meio do caminho por não obterem o retorno esperado com a tecnologia. Em meio a promessas maravilhosas, surge o obstáculo de governança e de capacitação, uma das maiores lacunas observadas atualmente. Foi pensando nessa dor que a IBM organizou sua conferência anual Think, que aconteceu nesta terça-feira, 5, em Boston. No evento, a empresa anunciou uma expansão de suas capacidades de IA empresarial e gestão de nuvem híbrida.
Os produtos e funcionalidades anunciados no evento fazem parte da nova geração do IBM watsonx Orchestrate, para a orquestração de múltiplos agentes, e do IBM Sovereign Core, para independência operacional. “As empresas que estão saindo na frente não estão apenas implementando mais IA, elas estão redesenhando a forma como seus negócios operam”, afirmou Arvind Krishna, Presidente e CEO da IBM, no evento.
Em uma roundtable com Krishna, a Forbes Brasil reuniu detalhes sobre as principais novidades da empresa para 2026.
“As estatísticas são claras: até 2030, as empresas que estiverem performando bem alcançarão 40% de produtividade empresarial utilizando IA. Mas é preciso agir onde os dados estão, e mais de 70% de todos os dados ainda residem dentro das empresas, em sistemas que são o coração do negócio. Por isso, precisamos unir o que fazemos lá com a nuvem híbrida. Grande parte das nossas novidades gira em torno deles”, acrecsenta o CEO.
Agentes de IA
A IA exige um novo modelo operacional nas empresas, baseado em agentes que executam e se adaptam em qualquer tipo de negócio. Porém à medida que organizações passam a gerenciar milhares de agentes, nasce o desafio de mantê-los governados e auditáveis em tempo quase real.
O objetivo da IBM com a próxima geração do watsonx Orchestrate é oferecer um plano de controle agêntico para a uma era multiagente, de forma que organizações possam implementar a tecnologia de qualquer fonte com aplicação de políticas e responsabilidade consistentes.
O CEO acrescenta que a IBM não constrói modelos de fundação, e sim é parceira da maioria dos provedores do mercado, incluindo Anthropic e OpenAI. “Nós os utilizamos tanto dentro dos produtos quanto em nossas equipes de consultoria. Então, nós ajudamos a colocar a IA dentro das empresas, usando o Orchestrate para conectar múltiplas fontes e trazer agentes de diferentes lugares, garantindo que não haja vazamento de dados”, afirma.
O executivo acrescenta ainda que é nesse ponto que entra a estratégia multimodelos. “Usamos grandes modelos de fundação quando são os melhores para a tarefa, mas também usamos modelos muito menores que rodam em uma única GPU quando apropriado. Também utilizamos modelos de código aberto ou open weights, que podemos ajustar”, acrescenta o CEO.
“Decidimos explicitamente não entrar nessa competição de infraestrutura; por enquanto, a vantagem é que há tantas pessoas competindo por mercado que nos sentimos confortáveis em obter o que precisamos de diversas fontes”
Arvind Krishna, Presidente e CEO da IBM
IBM Bob
Juntamente com o watsonx Orchestrate, a companhia anunciou o IBM Bob, um parceiro de desenvolvimento agêntico que colabora com desenvolvedores para construir agentes com controles de segurança e custos integrados.
“Só para dar uma ideia sobre o Bob: começamos esse projeto há um ano. Hoje temos mais de 80.000 usuários internos na IBM reportando 45% de produtividade. Decidimos lançar para o mercado e a aceitação tem sido dramática. Os clientes veem o valor do que eu chamaria de orquestração e otimização multimodelos: você obtém os benefícios dos melhores modelos sem ter que pagar sempre o preço mais alto pela performance necessária. Achamos um nicho interessante no mundo da IA para código”, afirma o CEO.
A IBM conta com o IBM Consulting, que oferece consultoria para empresas por meio de seres humanos, que são pagos por hora. Quando questionado a respeito de como o Bob afetaria esse negócio — dado que a solução rápida poderia inviabilizar a mão de obra humana do Consulting –, Krishna não demonstrou preocupação:
“Acho que não [afetará], porque os clientes ainda precisam de ajuda. Voltando a essa ideia de um modelo operacional, pense na quantidade de gestão de mudanças necessária, na integração com múltiplos sistemas diferentes, nas arquiteturas de dados e em como você realmente implementa tecnologia em ambientes híbridos. Acredito que ainda há uma oportunidade muito rica para o que fazemos em consultoria. Mas eu admito, acho que ferramentas como o Bob mudam drasticamente as coisas para o que é mais voltado ao estilo body shop, aquelas tarefas repetitivas”, conta.
IBM Sovereign Core
A IBM anunciou também o IBM Sovereign Core, uma plataforma que ajuda empresas a cumprirem leis e regras de diferentes países de forma mais fácil, sem precisar mudar toda a infraestrutura tecnológica.
A ferramenta oferece uma espécie de catálogo de softwares e serviços, tanto da própria IBM como de parceiros como AMD, Intel e Palo Alto Networks, de forma que organizações possam usá-las conforme suas necessidades. O objetivo é dar flexibilidade e controle para a empresa, investindo em tecnologia ao passo que se adapta a exigências regulatórias.
“Estamos em fase de prévia há cerca de dois meses e já temos alguns early adopters. A Cegeka, assim como a HCL, são empresas que precisam implementar tecnologia de forma totalmente desconectada, em um ambiente isolado de quaisquer fronteiras internacionais. Estamos tornando o Sovereign Core disponível para o mercado geral agora; o caso de uso inicial será focado em IA. É um caminho rápido para qualquer empresa ou governo ter acesso à tecnologia de IA e poder computacional em seu próprio data center”, afirma Krishna.
Quantum
Os computadores quânticos da IBM foram protagonistas de um novo avanço científico: cientistas da Cleveland Clinic e do RIKEN os utilizaram junto de outros dois supercomputadores para simular complexos proteicos que abrangem até 12.635 átomos — as maiores simulações realizadas com hardware quântico até aqui.
A equipe capturou o comportamento de duas proteínas bioquimicamente relevantes que, cerca de seis meses atrás, não poderiam ser estudadas devido ao seu tamanho. À medida que o tamanho das moléculas aumentam, cresce o desafio de estudar como um candidato a fármaco pode se ligar a uma proteína. A busca por resolver um problema tão caro foi o que motivou a exploração dos computadores quânticos.
“Oferecemos um nível gratuito onde as pessoas podem ter até 10 minutos por mês, e níveis pagos onde podem trabalhar conosco para avançar em casos de uso sofisticados. Temos cerca de 600 mil pessoas globalmente que utilizaram nossa interface quântica de código aberto chamada Qiskit. Isso mostra que muita gente já tentou fazer algo pelo menos uma vez. Acho que temos mais de 600 aulas universitárias sendo ministradas sobre computação quântica, então creio que isso começa a capacitar a força de trabalho”, afirma Krishna.
Segundo a IBM, a precisão das simulações melhorou em até 210 vezes durante esse período, alcançando uma nova fronteira para a indústria farmacêutica. Resolver a questão com precisão e logo no início do processo de descoberta pode encurtar significativamente os cronogramas de desenvolvimento de medicamentos, que atualmente podem se estender por mais de uma década e exigir investimentos altíssimos.
A descoberta também sinaliza um momento de amadurecimento da tecnologia quântica, que cada vez mais se mostra uma ferramenta científica útil para resolver problemas fundamentais na biologia, química e ciências da vida.
“Eu ainda não apontaria o quântico como uma grande oportunidade comercial imediata. Trata-se de preparar os clientes para que, em dois ou três anos, eles possam começar a implementar quando estiverem prontos, com sistemas muito maiores e mais capacitados do que os de hoje”
Arvind Krishna, Presidente e CEO da IBM
Para Krishna, os resultados na indústria farmacêutica devem começar a aparecer entre 2028 e 2029. “No momento, essas máquinas possuem centenas de qubits e conseguem realizar milhares de operações de porta lógica, antes de começarem a perder a coerência e caírem no ruído. Estimamos que esses milhares chegarão aos dez milhões em três anos. No momento em que chegarmos a esse patamar, teremos três ordens de magnitude a mais de computação, e acreditamos que isso permitirá que as pessoas enfrentem muito mais problemas da vida real. Na área farmacêutica, eu teria cautela. Talvez pequenas moléculas agindo em proteínas e doenças sejam a primeira área. Moléculas grandes podem levar mais uns dois anos além disso”, afirma.
Automação de IA e riscos geopolíticos
Diante das últimas movimentações geopolíticas envolvendo a OpenAI e o Pentágono dos EUA, onde supostamente o governo americano teria contratado a empresa para recursos de vigilância em massa e armas autônomas, Krishna afirma que a IBM não é uma fornecedora direta de armas, mas fornecem infraestrutura de ponta para diferentes empresas.
“Não trabalhamos com essas tecnologias, no entanto, fornecemos infraestrutura e tecnologias essenciais. Um ótimo exemplo é o Linux. Alguém poderia usar um sistema operacional para o que a pergunta sugere? Talvez. Mas trabalhar de forma aberta e transparente para tornar o Linux mais seguro para todos é um benefício geral. Eu adoraria que não houvesse geopolítica e que pudéssemos vender e implementar nossa tecnologia em cada país, mas essas regras estão fora do nosso controle. Sempre fomos fortes defensores do comércio global em toda a história da IBM“, finaliza o CEO.