Quando criança, Ana Paula Maia tinha o ritual de chegar da escola, dar play na fita de videocassete e almoçar no sofá assistindo a “Sexta-Feira 13“. O fascínio por histórias de terror a acompanhou na adolescência — quando tocava bateria em sua própria banda de punk rock — e segue com ela até hoje, agora como autora reconhecida internacionalmente pelo gênero.
A escritora fluminense de 48 anos, que hoje mora em Curitiba, é a segunda brasileira a concorrer como finalista do International Booker Prize, um dos maiores prêmios literários do mundo, concedido anualmente à melhor obra de ficção traduzida para o inglês e publicada no Reino Unido ou na Irlanda. Antes da autora, apenas Itamar Vieira Junior havia chegado à final, pela tradução de “Torto Arado” em 2024.
Única finalista latino-americana neste ano, Ana Paula Maia conseguiu o feito com a versão em inglês de “Assim na terra como embaixo da terra” (On Earth As It Is Beneath). A história narra como uma colônia penal se tornou um campo de extermínio nas mãos de um carcereiro que se divertia caçando os presos como se fossem animais.
Lançado originalmente em 2017 pela editora Record, o romance já foi traduzido e publicado na Argentina e no Reino Unido, teve os direitos vendidos para a Turquia e está em negociação para lançamento em Portugal, Polônia, Grécia, Romênia e países do Oriente Médio.
O livro concorre com outras cinco obras: “The Nights Are Quiet in Tehran“, da alemã Shida Bazyar; “She Who Remains“, da búlgara Rene Karabash; “The Director“, do alemão Daniel Kehlmann; “The Witch“, da francesa Marie NDiaye; e “Taiwan Travelogue“, da taiwanesa Yáng Shuāng-zi. Além do troféu, o vencedor receberá um prêmio de 50 mil libras esterlinas (cerca de R$ 330 mil). A cerimônia acontece na próxima terça-feira (19), no museu Tate Modern, em Londres.
A trajetória além do International Booker Prize
Antes de ganhar projeção internacional com o prêmio britânico, Ana Paula Maia construiu uma carreira de mais de duas décadas na literatura. São nove livros publicados, traduzidos para mais de 12 países na América Latina, Europa e Ásia; adaptações para o cinema, como a de “Enterre Seus Mortos“, lançada nos cinemas em 2024 e estrelada por Selton Mello e Marjorie Estiano; além de diversos troféus na estante, como o Prêmio São Paulo de Literatura (do qual é bicampeã) e os internacionais Republic Consciousness e Cercador Prize.
“Sou de gerir a minha própria vida.”
Ana Paula Maia
A seguir, a autora reflete sobre a autogestão de sua carreira, explica a decisão de escrever exclusivamente sobre protagonistas masculinos e conta como surgiu sua paixão pelo terror e por criar suas próprias histórias sombrias.
Forbes: Como foi o caminho até conseguir a indicação ao International Booker Prize?
Ana Paula Maia: Foi escrevendo um dia após o outro. A minha trajetória foi do português para o espanhol e só depois para o inglês. Há 10 anos, publico assiduamente na Argentina. Construí uma carreira pela Colômbia, Uruguai e México. Eu mesma gerenciava tudo de forma independente.
Até que a minha editora argentina, da Charco Press (que fica na Escócia), publicou meu primeiro livro em inglês em 2023, “De Gados e Homens”. Ele ganhou prêmios importantes, como o Republic Consciousness e o Cercador Prize, e vendi os direitos para o cinema. Quando a editora publicou “Assim na terra como embaixo da terra”, três semanas depois saiu uma resenha muito positiva no New York Times. Estava tocando minha vida no Brasil, escrevendo outro livro, e não sabia que a editora tinha me inscrito no International Booker Prize. Um dia acordei e vi a mensagem: “Você está na semifinal do Booker”.
Qual foi a sua reação?
Foi uma reação bem capricorniana (risos). Falei: “Vou ter que gerenciar isso”. Estava sem agenciamento literário, então precisei correr atrás, porque chegou muito pedido de tradução do mundo todo: da Ásia, da Europa. Quando anunciaram que eu era finalista, passei o dia inteiro de pijama dando entrevistas. Tinha falado que este ano ficaria só em Curitiba para cuidar do meu livro novo, mas precisei renovar o passaporte às pressas para ir a Londres. A responsabilidade aumentou, mas procuro focar na “Ana Paula prática” para não perder o controle da vida.
Já são mais de duas décadas na literatura. De onde veio essa paixão pela escrita?
Minha paixão é contar histórias. A escrita foi vindo a partir do momento em que eu comecei a ler com mais afinco. Eu lia na infância, mas na adolescência não lia nada; tinha uma banda de punk rock onde tocava bateria, ia para muitas festas, fiz teatro na Casa de Artes Laranjeiras. Sempre gostei muito de cinema, era uma menina nerd. Tinha facilidade para me socializar, mas ou estava socializando muito, ou estava dentro de casa caçando mais um filme de terror esquisito.
Com 18 anos, falei: “Cansei, já me diverti, a adolescência acabou”. Fui para a faculdade de ciências exatas fazer cálculo e comecei a ler muita filosofia. Na minha segunda faculdade, de comunicação social, comecei a escrever. As páginas de cálculo viraram páginas de texto. Com 25 anos, em 2003, publiquei meu primeiro romance, “O Habitante das Falhas Subterrâneas”. Aí não parei mais.
Quando percebeu que podia construir uma carreira como autora?
Quando publiquei meu primeiro livro, paguei parte da edição. Vendi uma peça de teatro que teve um patrocínio e, quando esse dinheiro entrou, juntei com o que eu guardava do meu salário de monitora na faculdade. Sempre tive minhas caixinhas desde criança. Pensei: “Estou saindo da faculdade. Poderia fazer um MBA ou um mestrado, mas vou apostar no meu primeiro livro.” Era arriscado. Mas percebi que não tinha vocação para trabalhar para os outros, sou de gerir a minha própria vida. Aos poucos, foi dando certo.

Já atravessei a Europa para promover minha literatura. Trabalhei seis anos na Globo como autora, quando escrevi a série “Desalma”. Fiz muitos eventos, ministrei oficinas pelo Sesc e pelo Brasil afora. Sempre geri minha carreira. O trabalho é nas sombras e progressivo. Hoje eu vivo só da minha escrita, mas me estruturei para isso.
Uma das suas marcas na literatura é o gênero terror. De onde vem essa influência?
Sou apaixonada desde que me entendo por gente. Com cinco anos, chegava da escola e almoçava no sofá assistindo a “Sexta-feira 13”. Minha infância e adolescência tiveram esse quesito de terror, e até hoje sou completamente viciada. Fui muito influenciada por Edgar Allan Poe, Dostoiévski e essa literatura sombria do século XIX. Embora eu viva num país tropical e minhas histórias se passem à luz do dia, a atmosfera é sempre sombria. É onde eu me conecto.
Você escreve exclusivamente sobre protagonistas masculinos. Por quê?
É onde me identifico no espaço em que escrevo, e nunca me tolhi, sempre me permiti fazer. Vou publicar meu décimo livro este ano e, novamente, o personagem que carrega a história inteira é um homem. É onde a minha mão vai. Na literatura, assim como em muitas áreas da vida, a gente só faz aquilo que pode. E eu só consigo escrever sobre homens.
Apesar de ter protagonistas exclusivamente masculinos, como você enxerga o perfil do seu público leitor hoje?
Vejo, nos últimos anos, um número crescente de leitoras dos meus livros, embora ainda haja resistência de mulheres que falam que têm medo. Nunca ouvi um homem falar: “Não vou ler porque a Ana é muito violenta”. Mas o maior engajamento é das mulheres, seja nas redes sociais ou em clubes do livro.
Como é a sua rotina hoje?
Levo uma vida doméstica bem comum em Curitiba com meus dois cachorros e meu marido. Divido a rotina com a casa e o trabalho. Quando estou escrevendo um livro, fico muito tempo no processo de pesquisa. Meu próximo lançamento, por exemplo, é um folk horror ambientado no sul do Brasil que passei três anos pesquisando. Quando sento para escrever, entro totalmente nessa “escuridão” da história e, quando cumpro a meta do dia, volto para a luz e para a realidade da casa para arejar a cabeça.

Qual conselho você daria para a nova geração de autoras brasileiras?
Saibam que é difícil e que vocês vão levar muitas portas na cara, faz parte do jogo no mundo inteiro. Vai ter choro e frustração. Mas se é isso que você quer, você precisa de estratégias. Escrever o livro é só uma parte. Até você conseguir viver só da literatura, é preciso diversificar: dar oficinas, fazer traduções, escrever crônicas. Eu fiz tudo isso. Esperar o retorno dessa carreira demora, tem que ter paciência.