Desde o final de janeiro deste ano, o preço de metais preciosos têm sofrido notáveis variações e especulações. O ouro e a prata, por exemplo, atingiram preços acima de US$ 5 mil e de US$ 100, respectivamente.
Essa alta histórica pode ser justificada pelas mudanças na presidência do banco central americano (Fed), tensões geopolíticas e busca por investimentos de maior segurança, segundo especialistas do meio. Depois de intensa volatilidade, a expectativa é de estabilização em um valor de equilíbrio entre US$ 4,5 mil e US$ 5 mil.
Para além do impacto no mercado internacional, a volatilidade nos preços de metais preciosos também têm afetado joalherias independentes brasileiras. A Forbes conversou com Paola Vilas, Julio Okubo e Daslan sobre suas estratégias diante desse cenário.
Reserva do metal, reciclagem e outras alternativas
A alta histórica dos metais preciosos impacta especialmente a parcela independente do mercado de joias cuja produção é mais limitada e exclusiva. Apesar da elevação ter sido recente, a relação das marcas com a instabilidade do material não é desconhecida, já que se trata da matéria-prima para grande parte de seus produtos.
“A volatilidade dos metais preciosos é parte do nosso setor. O que mudou agora é a intensidade”, afirma Mauricio Okubo, CEO da Julio Okubo. Ele conta que a marca já trabalhava com um fluxo estratégico de matéria-prima para sustentar a produção com previsibilidade e evitar decisões reativas. A Forbes Under 30 e fundadora da marca, Paola Vilas também relata que a reserva estratégica do material proporcionou maior estabilidade e liberdade criativa.
A Daslan, por outro lado, apesar de não contar com uma reserva de material tão significativa, mudou o sistema de estoque com compras do metal em momentos estratégicos de baixa do ouro. Daniela Salles, fundadora e diretora criativa da marca, também destaca o aumento das ações de incentivo para reciclagem do ouro que a marca já organizava.
“Temos incentivado os nossos clientes a trocarem peças que não tinham mais uso por crédito na Daslan. Acaba sendo uma forma mais econômica e sustentável de captar metal. Para o cliente é um benefício, pois ele consegue adquirir uma peça nova por um valor menor”, afirma.

Em meio a essa supervalorização, outros materiais ganharam maior espaço nas joalherias. “Há oportunidades na redução do dólar e no valor de algumas gemas, em especial do diamante. Neste momento, estamos com menor demanda de joias somente em metal, mas com demanda crescente em joias onde o maior valor está na pedra”, ressalta Okubo.
Além das pedras preciosas, o olhar do mercado consumidor frente à prata tem se modificado de forma a valorizar não apenas o material, mas a combinação entre design autoral, processo artesanal e permanência no tempo, segundo Paola. Focar no diferencial das marcas independentes – o desenho exclusivo das peças –, também é uma das estratégias mencionada pelo setor frente à crise do ouro.

“Para os consumidores finais, como o setor de joalheria, a pressão sobre as margens é inevitável, exigindo ajustes no mix de produtos e repasses parciais de preços”, explica Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset Management. A possibilidade de alterar o preço dos produtos é mencionada por cada marca com certa cautela e a partir de critérios como: a sustentabilidade do negócio a longo prazo e a relação com o cliente.
Por que o ouro entrou em alta e como deve se manter no futuro?
Quando se trata de acúmulo de reserva de valor, dois ativos se destacam: os títulos públicos americanos e o ouro. No entanto, Luan Aral, especialista em câmbio da Genial Investimentos, explica que diante da instabilidade geopolítica e histórico de sanções americanas a outros países, a reserva de ouro passou a ser priorizada.
“O ouro apresentou uma valorização expressiva em termos nominais, impulsionada principalmente pelas compras dos bancos centrais, que buscam diversificar suas reservas internacionais”, complementa o economista Marques. Diferentemente, da oferta de títulos públicos, o metal precioso consiste em um recurso finito que, com a alta demanda, passa a ser extretamente valorizado. Tal valorização pode até mesmo impulsionar a compra de joias como forma de investimentos, conforme destacado pelas marcas independentes consultadas.
Por outro lado, a volatilidade do ativo se apresenta a partir de alta exagerada acompanhada de uma queda também demasiada. Segundo Aral, essa movimentação já é esperada no mercado e a expectativa é da estabilização em um valor de equilíbrio, que não deixa de ser vulnerável a contextos geopolíticos e econômicos diversos futuramente. “Depois de toda a movimentação exagerada,o mercado encontra um preço de equilíbrio. Qual é a minha visão? Algo muito próximo a US$ 5 mil (R$ 26 mil)”, prevê Aral.